sábado, 28 de maio de 2016

Crónica 49 [O Velho]

O velho descia o cabeço – pernas lentas a pisar passadas íngremes – e caminhava até à tasca do sítio. Chegava e sentava-se numa cadeira de plástico à porta. Aí ficava um par de horas, por vezes mais, até partir para outro lado. O tasqueiro já sabia – nada queria o velho, nada pedia.
Os vizinhos entravam na tasca e iam cumprimentando ou entabulando conversa como quem atira palavras ao ar, à espera de que alguma fosse peneirada pelo velho. Este respondia com monossílabos, uma ou duas interjeições desfalecidas, um virar de cabeça. Um sobrinho, ou o mecânico do sítio, ou ainda um outro velho, ofereciam-lhe, de longe a longe, um copo pequeno de vinho seco. E ele aceitava, simplesmente.
O velho, em novo, casou-se com uma rapariga do sítio: olhares trocados no arraial da paróquia, num Agosto quente, antes de a girândola ser posta a rodar; conversas práticas entre as famílias; e, logo, os trapos, dele e dela, juntados.
Viveram alguns anos num humílimo fogo, de três quartinhos, chegado a um emaranhado de silvado que crescia a olhos vistos – e de onde brotavam lagartixas que vinham à cata de sol sobre as pedras negras. Foram poucos esses anos.
O velho, em novo, decalcou o destino dos que lhe antecederam. E assim foi levando uma vida pesada e vagarosa – feita, em parte, do possível, e em parte do esperado. Usava de deferência para com os senhores que viviam na vila. Trabalhava na fazenda, à jorna, e carregava areia e outras coisas. E bebia – antes, durante e depois.
A mulher, não – não copiou qualquer destino antigo. Tinha a lembrança do pai a agarrar nos cabelos da mãe – um grito reprimido, o coração violento. Não admitiu o possível. Contestou, calada, a vida esperada. Chegou a televisão, as revistas, o sonho de uma outra vida por detrás dos lombos da freguesia. Saiu um dia de casa, calada, abrupta, sem aviso. E não voltou.
O velho, ainda novo, ficou. E tornou-se velho. Não mais soube da mulher. Não houve divórcio. Não sabia, até, o que implicava um divórcio. Hoje, deambulava. Tinha: um par de botas de água; um quarto – um só quarto, os restantes haviam sido devorados por plantas e animais – onde se deitava numa enxerga; um bocado de terra, de herdeiros, de onde por enquanto tirava semilhas para o comer.
Quem o visse não poderia falar de resignação, raiva, tristeza, rancor, ressentimento, pasmo. Quem o visse diria que as suas expressões faciais eram iguais aos seus dias: não havia arrebatamento, mudança, fogo ou enxurrada. Dir-se-ia dele que era um enigma simples – um fóssil apanhado pela erosão.
Um dia viu, no caminho, a mulher – bem vestida, bem arranjada – passar dentro de um carro, em passeio. O que viu não parece ter merecido reacção. Talvez virasse a cabeça de forma mais aguda do que o habitual, mas é duvidoso.
Em todo o caso, nesse dia, o velho tresmalhou-se do trilho costumado. Levaram-no as pernas até onde as canas vieiras – e as canas-de-açúcar – mais silvavam ao vento. Levou-o a humidade salina que adubava os salgueiros na orla marítima. Passou assim pelo cemitério do centro da freguesia. Olhou como se desfocasse o olhar – ou talvez não olhasse. Continuou a caminhar – até outro dia.

[Crónica publicada no JM, 28-V-2016, p. 2.]

sábado, 14 de maio de 2016

Crónica 48 [O Espectro]

Chegou a casa, já madrugada adentro, e atirou-se, abatido, sobre a cama. O quarto de dormir era parte de um pardieiro que tinha acabado de alugar. [Uma janela na cozinha era a única entrada de luz. Fora esta divisão e o quarto de banho, todo o espaço era forrado de uma alcatifa que seria, com certeza, um viveiro de luxo para ácaros.] Era a primeira noite que ali pernoitava. Deitou-se de costas e adormeceu logo.
Acordou com um peso sobre as pernas. Saltou da cama, entre a escuridão, e precipitou-se a acender a luz do quarto. [Não tinha luz na mesa de cabeceira. Não tinha mesa de cabeceira.] Procurou em redor, de olhar acabrunhado, mas nada viu. Vagueou pelo apartamento que ainda mal conhecia e nada encontrou. Encolheu os ombros.
Na segunda noite, deitou-se, menos brusco, e adormeceu a entoar uma música de Bruce Springsteen, “The Ghost of Tom Joad”. [Talvez fosse a versão de estúdio ou a tocada ao vivo com a participação de Tom Morello, guitarrista dos Rage Against the Machine. Fosse como fosse, cantava: «The highway is alive tonight / Where it’s headed everybody knows».] Voltou a despertar com uma pressão sobre os pés. Com a luz de imediato acesa, não encontrou nada que lhe desvendasse o sucedido. Isto, pensou ele, é bem estranho.
O dia de trabalho seguinte foi extenuante e, após uma longa viagem na via rápida – tão longa que, a certa altura, parecia-lhe que não sabia para onde ia –, deitou-se de borco na cama. Não conseguia esquecer as duas noites anteriores. Virou o rosto para a direita e conseguiu enfim fechar os olhos, lembrando-se da “Canção dos Borracheiros” que um dia ouviu ser cantada pelo avô, que era do Porto da Cruz. Tornou a acontecer: um peso sobre os tornozelos – o salto da cama. Dessa vez a sua perscrutação foi feita com olhos esgazeados.
Na quarta noite, novamente o mesmo peso, a mesma pressão exercida – com uma diferença. Foi tal a agitação que caiu da cama e bateu com o nariz no chão alcatifado. O espirro que se seguiu só lhe agudizou a dor.
Na quinta noite, não conseguiu dormir. Pensou na sua descrença – característica da sua geração –, na sua recusa de superstições, no seu desprezo por histórias com pendor sobrenatural. Mas nesse momento pensava em ir à bruxa, em pedir à tia velha para lhe fumigar a casa com alecrim, em solicitar auxílio a um padre. Fosse como fosse, pensava, tudo era, mais do que estranho, aterrador. Não dormiu. E portanto, para maior desconcerto, não sentiu, nessa noite, nada sobre as pernas.
Na sexta noite, por mais que cismasse e se atemorizasse, o cansaço de várias noites mal dormidas não lhe permitiu uma insónia. Adormeceu a pensar na vida que levava – a alienação pelo trabalho, a falta de tempo para a sua humanidade. Matutou ainda, por qualquer razão, na chuva constante e na lama que encontrou antes de entrar em casa. Como se não bastasse, pensou, além de tudo isto só lhe faltava agora um fantasma – um espectro.
Acordou na madrugada. A razão foi a mesma. Levantou-se, mais melancólico do que assustado. Notou, logo, umas pequenas pegadas na alcatifa e no chão da cozinha. E viu – um gato. Ou melhor, uma gata – que, afinal, entrando pela janela da cozinha, tinha vindo nessa e nas noites prévias buscar um pouco de calor, um módico de conforto.
Acabou por adoptar o felino – ou o felino adoptou-o a ele. [O que é que isso interessa?] O que lhe causava inquietação acabou por lhe conceder algum consolo. É assim, por vezes, a vida.
Pôde descansar, finalmente, na sétima noite.

[Crónica publicada no JM, 14-V-2016, p. 2.]

domingo, 1 de maio de 2016

Crónica 47 [A Crise]

O homem aguardava sentado, com as costas aprumadas, num sofá desconfortável, a ler uma peça de Shakespeare. Assim estava quando uma mulher veio chamá-lo. Ergueu-se com prontidão, guardou o livro na pasta e seguiu a mulher até um gabinete. Seria entrevistado para um emprego. A tudo o que lhe foi questionado – que não foi muito, diga-se – respondeu com cordialidade, assertividade, objectividade. No final, o entrevistador ficou uns momentos em silêncio a olhar para o CV e disse: “O seu currículo é variado. O senhor é experiente. Vê-se que é trabalhador. Só tenho pena... A sua idade... Percebe?”
A entrevista acabou aí. Levantou-se, apertou a mão do seu interlocutor com firmeza e saiu do gabinete e do edifício. Na rua, a raiva e alguns laivos de desespero tomaram o lugar da esperança. Porquê ser convocado para uma entrevista quando no currículo figurava a sua idade – e quando a idade seria, enfim, a razão para não lhe ser concedido o emprego?
Tinha entrado há pouco no meio século de idade. Até aos 40 anos esteve numa situação profissional estável e bem-sucedida no sector das vendas. Mas foi despedido.
A partir daí fez, como se costuma dizer, de tudo um pouco.
Uma empresa contratou-o, a recibos verdes, para proceder, numa carrinha, a entregas de produtos agrícolas. Começava cedo e acabava tarde. Ainda assim, após terminar as entregas do dia, ou ainda antes de as realizar, o empregador começou a lhe atribuir tarefas relacionadas, não com a firma, mas com a família. Exigia-lhe que fizesse compras para a sua casa, que levasse a filha a determinado lugar, que fosse buscar uma encomenda para a mulher... Chegava-se a meados do mês seguinte e o ordenado ainda não tinha sido pago. A certa altura, o homem – o escravo, melhor diríamos –, pediu quase pelo amor de Deus para ser pago. Alegou que tinha dois filhos para alimentar – com um vencimento parco – e, ademais, que não concordava que lhe fossem atribuídas tarefas que nada tinham a ver com a empresa. Foi-lhe dito isto: “Se não quiser, há outros que querem...”
Uma estrutura hoteleira empregou-o como recepcionista – falava três línguas estrangeiras com fluência – em regime de part-time. Depois, pelo mesmo vencimento, foi-lhe exigido uma jornada de trabalho em full-time. Ele disse que não consentia. Foi-lhe dito: “Se não quiser, há outras pessoas que querem...”
Uma firma do ramo comercial ofereceu-lhe trabalho a manobrar uma empilhadora num armazém. Trabalhava quase 10 horas diárias com a contrapartida de um ordenado mínimo, ao abrigo de um contrato de seis meses. Um novo gerente chamou-o ao escritório e disse-lhe que gostava do trabalho realizado. Contudo, propôs-lhe que, cessando o contrato, continuasse a trabalhar – mas sem contrato, e sem quaisquer outros papéis. Respondeu que não lhe agradava essa situação. Foi-lhe dito: “Se não quiser, há outros...” E acrescentou o gerente que, em virtude da tarefa, preferia afinal um trabalhador com experiência, sim, mas... mais novo.
Sei que estamos em crise. Todavia, como sempre aconteceu desde que o homem é homem, uma crise aproveita sempre a alguém. E, como se não bastasse, para nossa desgraça vivemos num tempo de falácias e convenções absurdas e perversas. A este tempo corresponde, pois, uma sociedade que, com frivolidade, idolatra a juventude, desprezando de forma violenta os seus cidadãos mais maduros e experientes. É uma injustiça social. É um crime colectivo.

[Crónica publicada no JM, 30-IV-2016, p. 2.]

domingo, 17 de abril de 2016

Crónica 46 [Um Homem]

Erguia-se da cama ordenado pelo som do despertador e preparava-se para sair. Todos os dias tomava o cuidado de engomar, com a concentração e o esforço possíveis, uma camisa lavada – que, depois de vestida, cobria com o único casaco que tinha e que sempre usava. [Nesse dia foi obrigado a alisar duas camisas – foi acometido de um ataque de tosse e várias gotas de sangue foram pousar na primeira camisa.]
Depois, pegava numa velha pasta de couro, que nada tinha dentro – talvez apenas, esquecida, uma caneta. Antes de sair do T0 que alugava há já muitos anos, certificava-se por três ou quatro vezes se tinha desligado o ferro de engomar, se tinha apagado as luzes, se não tinha deixado uma torneira aberta, se a chama do fogão não estava acesa. [Uma vez esquecera-se de desligar o ferro de engomar – e nunca mais se tinha esquecido desse esquecimento.]
Trancava a porta de entrada, tornava a destrancar, tornava a dar a volta à chave. Depois de sair do edifício voltava por vezes atrás – como nesse dia, como noutros dias – quando não tinha a certeza de que havia, de facto, fechado o apartamento.
Desembocava na escola para dar as aulas do dia. Entrava na sala de aula e sentava-se. Falava sempre com o mesmo tom, baixo e pausado, e com a mesma postura – de olhos baços e alheados e colados no topo da parede do fundo da sala. Os alunos, de quem nunca sabia os nomes, levantavam-se, saíam da sala, entravam, falavam alto, jogavam papéis e outras coisas, insultavam-no. Não interessa a disciplina que ministrava – assim como assim, nada transmitia ou ensinava este professor, nada aprendiam os alunos.
No fim das aulas dirigia-se para a saída principal, sem dirigir a palavra a colegas, alunos ou funcionários. Quando interpelado, forçava um sorriso e respondia de forma educada, apressada e lacónica. Era imperioso sair da escola.
Era imperioso chegar à tasca. Sentava-se ao balcão, com um cumprimento vago e cordial aos presentes. O tasqueiro tratava-o com reverência, chamando-o de “Sr. Professor”, e dava início ao cortejo de imperiais. À quarta ou quinta cerveja, o tasqueiro aproveitava para lhe relembrar o rol do fiado que guardava a memória de dezenas de outras cervejas. O homem respondia, vagaroso e cordial, que nada estava esquecido. [Após principiar o rol, na verdade, nunca se lembrava da obrigação de saldar esta dívida. Ao contrário de outros esquecimentos, deste esquecimento nunca se recordava.]
Assim era ele – irmanado com a sua dependência. O álcool: tomou-lhe o lugar dos livros; inundou-lhe o lar; incinerou-lhe a família e os amigos num lume escarninho e incessantemente vivo; sepultou-lhe a vontade; plantou-lhe o medo; rasurou-lhe a história; tragou-lhe a alma.
Saía do estabelecimento nunca antes de a noite descer e nunca antes de se certificar, por três ou quatro vezes, se tinha esquecido a pasta ou, por obra do destino, as chaves de casa. [Esquecera-se uma vez das chaves e, resignado, foi obrigado a sentar-se durante a madrugada – a pasta sobre o colo – num banco de jardim.] Cambaleava, enfim, com a dignidade e a concentração possíveis, até casa.
Ninguém há-de contar a história deste homem.

[Crónica publicada no JM, 16-IV-2016, p. 2.]

sábado, 2 de abril de 2016

Crónica 45 [Verdade e Mentira]

Encontrou-me ele ontem e disse-me do alto da sua idade provecta, coroada de poucos cabelos. Eu preparei-me.
«Então, ‘tás bom, Fernando?
[...]
«Ok, certo. Então temos um dia das petas, ou das mentiras, não é? Mas isso não quer dizer que todos os outros sejam dias da verdade.
[…]
«Eu explico-te, Faustino...
[…]
«Ou isso. Mas já reparaste que nós pensamos sempre na mentira de uma forma demasiado moralista, como se fosse principalmente um pecado? Mas a mentira tem outras raízes, também fundas, e ‘tá em todo o lado – mais do que a verdade. A mentira, a falsidade, a imprecisão, a ilusão… – são elas a norma. É uma questão de acção – ou, enfim, de falta de acção ou de método. E depois é uma questão, vá lá, de amor – primeiro pelo erro, e depois pela exactidão, pelo facto, pelo empírico, pelo que se pode verificar e comprovar. Percebes, Fernão?
[…]
«Não, pá. Amor pelo erro, sim. Mas não é um amor incondicional ou, vá lá, romântico. É um amor que abandona a coisa amada – o erro – quando ela muda – ou morre –, ou quando nós mudamos – ou morremos. É assim, Firmino.
[...]
«Não tem nada a ver com filosofias, com essas coisas que dizes – empirismos, racionalismos, positivismos, enfim… Ou melhor, até pode ter. Tem a ver, parece-me, com a forma como nós nos vemos no mundo e como nos vemos com os outros. Ninguém aprecia, propriamente, a verdade como uma coisa bela em si. Bela. Não sei se compreendes, Fabiano...
[…]
«Estética? Eu percebo lá disso ou do que dizem os filósofos… Pode ser, como digo, simplesmente uma questão de método, de amor, de beleza – e depois de esforço e de desprezo pelo poder. Imagina uma conversa como a que eu ouvi há dias. Dois amigos falavam e falavam. Pior – falavam de política. Pois é, quando se trata de política e futebol... Bem, a certa altura, discordaram quanto a uma coisa pequena – um facto. Não uma interpretação, uma opinião, uma análise – mas um facto. Tinha a ver, se bem me lembro, com o ano em que um determinado partido chegou ao poder, etc. Usavam os dois daqueles telemóveis todos artilhados, que acho que são bons p’ra procurar coisas e tal. Mas nenhum deles se preocupou em procurar. Que fizeram eles então? Deitaram-se a adivinhar, a especular, a discordar. Um amigo disse que pensava que era de uma forma – e logo concluiu que de certeza era assim; o outro amigo disse que se calhar era o inverso, p’ra não dar o braço a torcer – e logo arrematou que era certamente assado. E assim andaram, de palavras em palavras, uns bons minutos, até se desentenderem e mudarem de conversa. “Ficas na tua e eu fico na minha” – disse a certa altura um deles. O outro concordou. Entendes, Fabrício?
[…]
«Não, rapaz. Não arredaram o pé do poço em que se meteram porque isso dava muito trabalho. E, quando discordaram, o que interessou a cada um deles foi teimar – teimar em vencer. Vencer uma discussão. Se a discussão era estéril, ou se nada tinha a ver com a verdade, o que é que isso lhes interessava? Com certeza que já sabes a resposta.
[...]
«Bem, mas quanto à verdade, é isto – enquanto sociedade, nós falamos de cor e fazemos de conta. Dá-nos conforto, poder – e dá pouca maçada.
[…]
«Humor? O que é que o humor tem a ver com isto? Isto não tem piada nenhuma. Acho que andas a falar demasiado com aquele teu primo, o Juvenal. Diz-lhe p’ra deixar de beber senão ele não chega à minha idade. Bem, vou andado, Dinarte. Cumprimentos à família.»

[Crónica publicada no JM, 02-IV-2016, p. 2.]

sábado, 19 de março de 2016

Crónica 44 [O Humor]

«Há vários temas tabus na nossa sociedade, mas há um de que não se fala.
[...]
«Pode parecer insólito, uma redundância, mas... É o humor. O humor – o riso, a gargalhada, a graça, a ironia… É verdade, não se fala dele.
[...]
«Está bem: não se fala do humor na mesma medida em que, como se costuma dizer, explicar uma anedota é fazê-la perder a piada. Mas isso é um comentário óbvio e previsível – como tu. Não se fala do humor porque, sendo tão importante, mais importante se torna mantê-lo implícito, desapercebido, como um alquimista cujo vulto não se vê. Se o víssemos e à sua pedra filosofal – se dele tivéssemos a mínima percepção racional –, o alquimista ficaria despojado das suas fórmulas, tornar-se-ia um comum e mortal humano, ganharia vergonha – ou raiva – e fugiria.
[...]
«Certo. Então o que é? O humor, o supremo humor, é – repara! – a resolução do embaraço que nós sentimos face ao absurdo. É o que acontece quando tomamos noção da realidade no que ela mais tem de ilógico e contraditório – a realidade que, quanto mais verdadeira, mais difícil é de aceitar como tal.
[...]
«A realidade é uma convenção, uma pretensão, um pacto social… Está bem, como queiras. Posso continuar?
[...]
«Enfim, isso leva-me a dizer que o humor, o supremo humor, acontece quando existe a exposição da verdade. E rimos porque, tornando-nos conscientes do que é a verdade, rimos para desvalorizar, para nos tornarmos inconscientes, para voltarmos a mergulhar na nossa vidinha.
[...]
«Por exemplo: acontece quando alguém fala com um amigo, ou vai ao psicólogo ou ao psicanalista, e começa a contar, num acto de introspecção – de redenção –, a sua vida, a sua realidade, a sua verdade. Se essa pessoa não rir do absurdo em que está – em que a gente está – mergulhada, restam-lhe outras soluções para além do humor, nenhuma delas necessariamente melhor: desconforto, tristeza, raiva, desespero, enfim... Soluções de quem quer, à força, mudar a realidade.
[...]
«Pois, por isso é que o humor é atributo de pessimistas e de trágicos.
[...]
«Atributo, sim – ao mesmo tempo privilégio e fardo. E pessimistas e trágicos, também. Pode parecer estranho, mas a verdade é que os optimistas – os contentados – estão sempre demasiado ocupados – ocupados em serem sérios ou moralistas.
[...]
«Onde li o que estou a dizer? Eu tenho lá tempo para ler! Ou bem ver – e matutar nas coisas –, ou bem ler. Já sabes, primo, eu ponho-me em casa, ao fim do dia, com um copo com aguardente e meio maço de tabaco, a olhar para as paredes, e saem estas coisas, estas frases, loucas.
[...]
«Sim, humores e piadas há muitos, obviamente. Queres falar de coisas mais comezinhas, não é? Vê, por exemplo, essa grande instituição – a dita piada amarela. Digo-te uma coisa: uma boa forma de conhecer uma pessoa é contar-lhe uma piada amarela. Contar-lhe a sós – e depois num grupo. Se souberes medir as reacções, vais conseguir perceber: quem te aprecia, quem te despreza; quem é bondoso ou é falho de carácter; quem calcula e não calcula; o narcisista, e quem não o é; quem é frívolo...
«Espera, estás aí com esse sorriso amarelo... Vais usar esta conversa numa crónica, não vais? Que tristeza – vais cometer a proeza de escrever sobre o humor sem teres graça nenhuma. A verdade, também, é que nunca tiveste muita piada. Bem, então põe lá, na crónica, que fui eu, teu primo, o Juvenal, quem te disse estas coisas. Só não ponhas aquilo da aguardente e do fumo. Diz que são cada vez mais...
[...]
«Sim, tabus. Cada vez mais.»

[Crónica publicada no JM, 19-III-2016, p. 2.]

sábado, 5 de março de 2016

Crónica 43 [Balança]

«Bem que se pode, se pensarmos nisso, representar uma sociedade através de uma balança. De um lado, num dos pratos, pões penas; do outro lado também. Só isso – penas. [Não se trata da Pesagem das Almas do Antigo Egipto. A não ser que falemos de uma alma colectiva.] Se juntares milhares apercebes-te que os pratos vão começar a ficar cheios – e que a balança vai começar a pender para um dos lados.
«Penas, que é como quem diz: pequenas coisas – das mais pequenas; coisas em que ninguém repara, mas que são, de resto, os compassos quase imperscrutáveis que marcam o ritmo de uma comunidade.
«Um lado e o outro lado, portanto, um prato e o outro prato – silenciosos e leves ao início, vociferantes e pesados no fim. Dois lados sempre concorrentes.
«Queres exemplos? Eu dou-te dois – que passam entre as malhas, cada vez mais lassas, da rede da nossa observação e do nosso discernimento. Porque há coisas que nos deviam chocar; e que nos deviam enlevar – atitudes de descaso e de apoucamento; acções de generosidade. Mas ninguém olha para elas. Cá fora, fora dos pixels e dos padrões das redes sociais, já ninguém tropeça em nada que não seja óbvio – seja bom, seja mau. Bem.
«Dois velhos jantavam – sobre a mesa uma garrafa de vinho, vertido em copos feitos para sumo, e frango assado comido à força de dedos. Ao lado deles um adolescente, que os conhecia. A certa altura um dos velhotes vira-se para o rapaz e diz-lhe algo assim: “Vocês, pequenos, hoje não sabem tantas coisas como a gente da minha altura. Diz-me: quantos são X vezes Y?” O rapaz, solícito e respeitoso, respondeu pronta e acertadamente. O velho inquiridor, não desarmando – e borrifando-se afinal para a resposta –, desinteressa-se do jovem, vira-se para o outro velho e diz: “Pois, mas, no nosso tempo, o que se aprendia na escola era mais do que estes pequenos agora aprendem.”
«O rapaz ficou assim, desiludido, a olhar para o tempo. Percebes o que aqui se passou?
«Ao invés... Entraram uma mãe e uma filha num bar. A mãe pede cigarros e paga com uma nota de 20 euros – depositada com hesitação, algum sentimento de culpa porventura, sobre a mesa. A filha, uma menina que teria uns 10 anos, com voz baixa implora um chocolate – desses que são sorteados quando se inserem, numas máquinas, 50 cêntimos; uma fita de cor dentro de uma bola que é devolvida pela máquina anuncia a qualidade e o tamanho da guloseima. A mãe, não dando ouvidos, sai porta fora. A menina, vencida, segue-a cabisbaixa. Eu e o barman, que é meu amigo, ficámos a observar esta cena. Daí a 30 segundos volta a criança, com 1 euro, e pergunta – como é que fazia para tirar o chocolate. O meu amigo diz-lhe: “Espera, filha, isso não é 1 euro, são 50 cêntimos. Deixa-me trocar o dinheiro.” Vi depois que saíra um desses chocolates pequenitos, que nem a vista alegravam. Intuí o que o meu amigo – ele, a quem já vi dar de comer e beber a gente sem dinheiro – iria fazer. Deu à menina, sem alarde, um chocolate enorme – um bloco rectangular de 12 por 30 centímetros, pouco mais ou menos – que não correspondia ao resultado poucochinho do sorteio da máquina. A menina saiu a correr do bar, no encalço da mãe, felicíssima. Eu virei-me para ele e disse-lhe: “Eu sabia que tu ias fazer isso.” E ele sorriu.
«Não é preciso muito, enfim, para encher os pratos desta balança. E não é preciso muito para que um dos pratos vença, inexoravelmente, o outro.»

[Crónica publicada no JM, 05-III-2016, p. 2.]

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Crónica 42 [Palavra e Acção]

Ele foi um jovem vivaço – de olhos que brilhavam e pernas inquietas, sobretudo quando sentado nos bancos de escola. Desde sempre que tinha a cabeça povoada de ideias. Toda a gente – os pais, a família, os professores, até os colegas – lhe vaticinava um grande futuro – um futuro de projectos e concretizações.
Porque projectos tinha – desde sempre. Iria construir o avião mais veloz que alguma vez existiu; seria um pugilista em competições mundiais; escreveria romances como grandes cartapácios; seria, enfim, tudo o que sonhasse… E para esses planos concebia as estratégias mais minuciosas e pormenorizadas. E a toda gente explicava tais pormenores.
Os adultos achavam-lhe piada, até que ele, entretanto, foi também cumprindo, lentamente, a maldição de se tornar adulto. Na fronteira entre a juventude e a vida adulta, pensou em cursar Filosofia, Estudos Literários, etc. Iria ser um académico versado em Wittgenstein ou Padre António Vieira...
Na hora H, de tanto pensar na escolha do curso universitário, não conseguiu se decidir. Ficou a trabalhar, por diligências de um tio, no secretariado de uma pequena empresa – e por aí foi ficando, com um desempenho mediano e, amiúde, medíocre.
Mesmo assim, as ideias não se lhe estancavam no bestunto. Tudo parecia possível. Continuou a planear – e a explicar os seus muitos planos a qualquer interlocutor que se lhe atravessasse no caminho. Dois minutos bastavam para isso. Dizia que sabia exactamente o que fazer – e como fazer. Uma hora era um modelo de construção de casas económicas que iria revolucionar o ramo; outra hora era uma indústria de alimentos gourmet que iria conquistar o mercado internacional; no dia seguinte, ou nos dias seguintes, era… outra coisa.
Na sua cabeça estava tudo resolvido e delineado. Todavia, se em jovem lhe achavam piada, em adulto, pois, sobretudo após chegar à cifra severa dos trinta anos, começaram a vê-lo como aborrecido, frívolo – como um saco roto de imaginações, de devaneios, de “histórias”. Diziam-lhe que, se quisesse fazer alguma coisa, já era a altura de calar e de passar aos actos.
Os seus olhos só brilhavam, agora, quando falava dos projectos; de resto, sobretudo nas manhãs, após a inclemente avaliação do fim do dia anterior e a noite de sono – ou de insónia –, os seus olhos eram de um baço ressequido.
Um amigo, que tinha lido umas coisas e visto uns vídeos no youtube, tentou dizer-lhe que não devia falar tanto acerca do que planeava realizar. Não pelos outros, mas por ele próprio. Dizia-lhe que, enfim, no que tocava a ambições e a projectos futuros, verbalizá-los constantemente poderia criar verdadeiros alçapões – para ele mesmo. Isso era da psicologia: quando se fala demasiado no que se vai fazer, a mente acaba por se convencer de que, efectivamente, tudo já está feito. Por vezes, instava o amigo, temos de calar – e fazer.
Este diálogo não surtiu efeito. O amigo, antes de desistir de ajudá-lo – e porque desistiu – ofereceu-lhe um livrinho do Padre António Vieira, onde estava o Sermão de Santo António aos Peixes. Se a psicologia não funcionava, talvez um pouco de sabedoria...
Ao falar dos defeitos dos peixes, o Padre António Vieira atribui esta prática ao roncador: «O muito roncar antes da ocasião é sinal de dormir nela.» O amigo sublinhou, com tinta carregada, estas palavras. 
Ele disse ao amigo que achava que compreendia – mas que cada vez mais lhe custava adormecer.

[Crónica publicada no JM, 20-II-2016, p. 2.]

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Crónica 41 [Então Quem Foi?]

Hoje, caro leitor, quero falar de uma expressão que considero fascinante. Já a tenho ouvido ser dita por vários indivíduos, em diversas ocasiões. [Até por mim, presumo – ainda que não me lembre agora de uma circunstância em especial.] Não me posso assegurar do facto de ser madeirense – no sentido de ser típica, característica, idiossincrática. Na verdade, não tenho forma de comparar com outras regiões do país, mas a intuição – apenas uma singela intuição, ou um singelo exagero – diz-me que, pelo menos, é uma expressão usada nesta nossa Ilha da Madeira. 
Vejamos esta história. Não tem muito tempo que, estava eu a fazer uma compra num pequeno estabelecimento comercial – assim uma mercearia com snack-bar –, ouvi um diálogo entre o funcionário da caixa registadora e o que parecia ser um zelador, ou vigilante, do condomínio. Este disse àquele que uma zona comum estava alagada. O funcionário replicou que compreendia – que era verdade, que também o tinha constatado –, mas que não tinha sido ele o responsável. E, nesta sequência, disse logo o vigilante: “Não? Então quem foi?”
E pronto. Fiquei a matutar. Como disse, já tinha ouvido aquelas palavras, em contextos semelhantes, mas desta vez um rastilho foi accionado na minha cabeça.
Vejamos o contexto a partir do qual brota a expressão – e, depois, o caminho que ela trilha.
Em termos esquemáticos, tudo começa com uma transgressão – pequena ou grande, não interessa. Pequena ou grande – isso dependerá da avaliação de quem irá acusar, avaliação que está, por sua vez, directamente relacionada com manutenção ou busca de poder. Depois, este acusador tem uma suspeita – ou uma certeza, forjada com poucos ou nenhuns factos. Todavia, não quer enfrentar, de peito aberto, o suspeito – ou os suspeitos. Vai então falar com a pessoa, ou as pessoas, de quem desconfia. Relata a transgressão em tom que, na aparência, soa como simplesmente informativo, mas que – quer pela voz empregue, quer pela linguagem corporal, quer ainda pelos apartes – indicia que o interlocutor é acusado e culpado. Este, por sua vez, proclama a sua inocência, dizendo, por exemplo: “Não fui eu.” O acusador, nesta dança, coloca o réu entre a espada e a parede, retorquindo: “Então quem foi?”
De forma dissimulada, esta última expressão afirma basicamente duas coisas. Em primeiro lugar, que a declaração de inocência, e o correspondente arrazoado apresentado, não convencem – e que, portanto, o acusado continua a ser suspeito ou culpado. Em segundo lugar, e ainda que não haja consciência disso, o suspeitoso, não se assumindo culpado, vê-se obrigado a ser um delator. Portanto, se não for culpado, tem de ser no mínimo um bufo. E aqui temos: ou a espada – a culpa –, ou a parede – a delação.
No fim de contas, é uma expressão que contém o seu quê de denúncia velada, o seu bocado de desconfiança, a sua parte de apoucamento dos factos, o seu tanto de acusação, a sua parcela de dissimulação, a sua quota de obrigação à delação – o seu, enfim, quinhão de cobardia.
Espero que um dia esta expressão acabe – que um dia deixe, por tudo o que parece significar e transmitir, de ter livre curso nas bocas e nas mentes deste meu povo. Porque, na verdade, todos nós já a proferimos. [Agora penso que também um dia a disse. Quer dizer, não estou certo – estou a ficar velho e a memória já me vai falhando.] Ai não, caro leitor? Nunca usou esta expressão? Então quem foi?

[Crónica publicada no JM, 06-II-2016, p. 2.]

domingo, 31 de janeiro de 2016

Crónica 40

Telefonaram-me do cemitério, Pai, nessa sexta-feira, dia 08-I-2016. Eu tinha pedido – queria ser informado de quando o iriam exumar. A sua campa foi a n.º 1 do cemitério de S. Gonçalo, no tabuleiro superior, perto do cipreste mais rarefeito e magro que lá existe. [Talvez ali a terra não seja tão fértil; talvez o cipreste tenha sido plantado depois dos outros ciprestes.]
Bem, por um telefonema deram-me a notícia – deixei lá o meu número de telemóvel por duas vezes, pelo menos – que a terra iria ser revolvida. Perguntaram-me se podia estar no cemitério nesse mesmo dia. Mas era dia de trabalho, Pai.
Fui no dia seguinte. Antes, acabei a sexta-feira – e iniciei o sábado – num convívio familiar, já no rescaldo da Festa. Cheguei a casa depois da meia-noite – cheguei a casa, também, algumas bebidas depois. Recebi no início dessa madrugada, antes de me deitar, um telefonema de um número privado. Atendi mas ninguém respondeu.
No sábado de manhã fui ver os seus ossos, Pai. Pensei que iria observar os coveiros desenterrarem os seus vestígios. Mas a terra já havia sido removida. Um quadrado perfeito, de paredes bem aprumadas, estava cravado no solo, e, de entre os dois cadáveres cobertos com o respectivo forro do caixão, o Pai era um deles – no lugar n.º 1.
Fui com a Bruna, que quis ir comigo. Correu tudo bem, Pai. Esperámos pelo coveiro – um homem magro, tisnado, que só deveria aguentar o ofício com uns vinhos secos ao fim do dia – ou até durante. O Pai sabe como é. A gente sabe como é.
Ele entrou no buraco e levantou o véu. Tudo o que de si, Pai, era músculo, nervo, órgãos, pele – tudo o que não era rígido – tinha sido consumido pela humidade da terra. A sua roupa estava intacta, com excepção da camisa, uma boa camisa, que estava em farrapos. Lembro-me da sua gravata, intacta, em tons de roxo.
O coveiro começou a recolher os ossos, limpos, pardos, bem delineados. As meias estavam também completas – e dentro delas os ossos dos seus pés, bem divisados. A sua roupa foi uma peneira perfeita. [Com excepção da camisa em farrapos – uma boa camisa; como eu a vi, parecia que ainda não tinha saído da agulha da bordadeira ou do tear.]
O coveiro, acocorado, suspirava e bufava. Pareceu-me que o osso nasal havia se precipitado para dentro. Não tenho a certeza. O crânio tinha, aqui e acolá, um tom enegrecido. Não quis pedir ao coveiro para ver melhor – o osso nasal e as cores. Ele já tinha feito um molho com o véu - o forro - do caixão. Não vi sinais de madeira. Perguntei ao coveiro, antes do terminado o processo, sobre qual seria o destino dos ossos. Seriam, pois, enterrados na mesma terra que os havia limpado – que a si, Pai, havia consumido parcialmente. O coveiro levou a sua roupa para um vazadouro próximo, e ouvi-o tossir muito. Fumei um ou dois cigarros enquanto lá estive. Viemos, depois, embora.
Escrevo isto, Pai, porque um dia hei-de me esquecer dos pormenores – de todos os pormenores – de tudo. O Pai faleceu a 29-V-2008. A terra onde o seu corpo caiu foi escancarada mais de sete anos depois – a 08-I-2016. Eu estive lá, Pai, no dia seguinte, a 09-I-2016.

sábado, 23 de janeiro de 2016

Crónica 39 [As Setas]

Quando a memória não chega – ou quando a realidade, seja o que isso for, é demasiado semelhante –, usemos a ficção. Como no monólogo que se segue.
«Nesse ano, já no século passado, aluguei um quarto. Nos primeiros tempos foi assim: tudo calmo, nada a reportar. Até que, um dia, apercebi-me que, no percurso que fazia a pé de regresso a casa, em todos os postes de iluminação, semáforos e sinais de trânsito, em todas as canalizações exteriores dos prédios, havia setas pintadas. Sim, setas – que apontavam na direcção do meu trajecto. Cheguei a contá-las mas não me lembro de quantas eram. Eram muitas. Só me lembro que, ao contá-las, e distraído, choquei uma vez com um mal-encarado. Ele prometeu que, se voltasse a acontecer, me rebentava todo – ele e o bando dele. Comecei a ver a vida a andar para trás – no sentido das setas, mas a andar para trás.
[...]
«Cala a boca. Deixa-me terminar a história. O que é que me encalacrou nisto tudo? A última seta ficava imediatamente antes da porta da minha casa. Pois, ‘tás a ver – agora descalça esta bota! O que é que isto podia significar? A verdade é que comecei a caminhar na rua com um medo dos diabos. A cada dia que passava, eu...
[...]
«Posso continuar? Andar armado? Mas eu sou algum Stallone, ou quê? Bem, ainda precisas dos restantes caracteres para acabar esta crónica, ou não?
[...]
«Quase 2000 caracteres. Pois, com espaços. Pronto. Um dia voltava eu, pé ante pé como um gato medroso – já viste um gato com medo? eu nunca vi, mas era assim que eu estava – e, chegado à porta de casa, aí mesmo onde a última seta acabava, vejo um tipo... careca, de barba desgrenhada e olhar um pouco estrábico. Assim como tu. Talvez mais velho ou mais novo, não sei. Tem calma, não te chateies. Ora bem, ao peito tinha ele uma tabuleta e na mão direita um sino. Na tabuleta vi escritas estas palavras: “Lázaro Aforista”. Lázaro, sim – ou leproso. Acho que já lhe tinha caído o nariz. Em todo o caso, ao lado das palavras, lá estava uma seta. Ele tangeu uma vez o sino e disse: «Saber o segredo é antecipar a morte.» Devia ser isto um aforismo. Temi pela minha vida.
[...]
«Tinha de temer, não? Segredo? Morte? Se estivesses lá tu... Bem, ele tocou o sino mais uma vez e pregou, como uma esfinge, outro aforismo – pensei eu: “Aprender pressupõe esta coisa: o amor pelo erro. Mas é um amor não incondicional, não romântico, não narcisista. É um amor que abandona a coisa amada quando ela muda – ou morre –, ou quando nós mudamos – ou morremos.”
«Uma coisa marada. Aprender? Amor? Erro? Para desanuviar, pensei em lhe dar uma moeda. Talvez fosse isso que ele quisesse. Quando levei a mão à carteira, o sino tocou de novo. Era de madrugada e ainda pensei que algum vizinho se manifestasse por causa do barulho. É que o sino e a voz do homem faziam estremecer a rua. Talvez não fosse má ideia se um vizinho chamasse a polícia. Pedi-lhe que me dissesse, afinal, o que queria. Disse-me ele: “No que verdadeiramente importa, se tens de pedir é porque não mereces – ou porque não és considerado merecedor.”
«Bem, já eram altas as horas e eu estava cansado. Era altura de acabar com isto. Tornei a perguntar, a gaguejar, se ele precisava de umas moedas para uma sopa. Ele encolheu os ombros e esfumou-se.
«No dia seguinte as setas tinham desaparecido. Mas a tabuleta apareceu-me no chão do quarto.»

[Crónica publicada no JM, 23-I-2016, p. 2.]

sábado, 9 de janeiro de 2016

Crónica 38 [A Elite]

No meu 9.º ano de escolaridade, com década e meia de idade, trabalhava eu, terminadas as aulas, no bar do meu pai. Ia ajudá-lo e render o meu irmão.
Um dia entrou no bar um cliente habitual, à beira dos 60 anos, de calças de sarja, casaco de Verão e sapatos de vela – todo este trajar, pareceu-me na altura, também roçava os 60 anos. Ajeitou o lencinho enramado que lhe aconchegava a garganta, pousou o capacete em cima do balcão – tinha uma mota, uma “vespa”, que já acusava o passar do tempo, e na qual se arrastava com a mulher – e mandou vir uma imperial com groselha. Dei-lhe tremoços para “dentinho”. Deu um primeiro gole na imperial e pediu-me para encher o espaço deixado vazio no copo.
«Porquê? Que falta de respeito é essa? A cerveja que vais deitar agora é p’ra compensar a groselha que deitaste no fundo do copo. E aproveita – p’ra além dos tremoços, desmancha esse filete de espada e dá-me um bocado p’ra “dentinho” também.
[...]
«Qual é o teu clube?
[...]
«Então não dás grande atenção ao futebol? Mas tens de ter um clube!
[...]
«O quê? Credo, rapaz, esse clube não. Tu não sabes que esse clube é considerado o clube da ralé? O clube da elite, ah, o clube da elite, sabes qual é? É o [...]. [Não interessa especificar.] Por isso, se quiseres ter um clube, tens de escolher esse, como eu escolhi. Tens de pensar de outra forma.»
O meu interlocutor continuou a falar, não me lembro hoje sobre o quê. Sei que pediu, depois, meia bola de Bell's com bastante gelo e ainda mais “dentinho”. Eu pus-me a fazer contas de cabeça – contas ao lucro. Mas um cliente – sobretudo da elite – tem sempre razão. Entretanto, chegaram outros clientes da mesma espécie. Talvez mais nenhum fosse simpatizante de um determinado clube ou usasse lencinho ao pescoço, mas eram, declaradamente e com alarde, membros da elite.
O homem à beira dos 60 anos faleceu alguns anos depois. A mulher, que se sentava à mesa do bar, discreta, com outras mulheres de homens da elite, a beberricar café com leite [nunca muito escuro ou claro, nunca muito quente ou frio; enfim, dependia do dia e do humor], não me pareceu ter feito luto rigoroso – ou aliviado. Posteriormente recordo-me de vê-la “bem-posta” – e aliviada.
Outros clientes havia, pois, da mesma espécie. Um em particular, sempre muito pronto a nos ensinar o ofício de tasqueiro, sempre déspota e sôfrego em dizer que era da elite e em assumir comportamentos que, supostamente, o diferenciavam da “plebe” – tudo valia, na verdade, como por exemplo falar de um filme comercial como se encerrasse verdades e doutrinas absolutas, ou discutir política partidária de alcofa e intriga com a gravidade de quem tinha a solução para todos os problemas do mundo –, um cliente em particular, dizia eu, insultava-me quando eu não lhe respondia pronta e servilmente. Um cliente – sobretudo o da elite – tem, jamais nos esqueçamos, sempre razão. Anos depois, alguém me apresentou esse homem e perguntou-lhe se não me conhecia. Ele, que sabia que eu – o filho do tasqueiro – tinha entretanto estudado na universidade, disse, servilmente, de cabeça baixa e sorriso amarelo, que "Sim, claro" – que se lembrava do "Senhor Dr."

[Crónica publicada no JM, 09-I-2016, p. 2.]

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Crónica 36 [A Festa]

O Natal na Madeira, ou a Festa – assim mesmo, com éfe grande, como ainda é designada, sobretudo nos meios rurais, a quadra que por estes dias se inicia, e que vai das Missas do Parto até os Reis ou, melhor, o Santo Amaro.
O nome “Festa” tem sido cada vez mais substituído pela denominação “Natal”. Mas o que é madeirense é a Festa. E de que é feita? Todos nós o sabemos.
Das casas limpas como só nesta época, e abertas aos visitantes, que perguntam se “O Menino Jesus mija” – ou seja, se há algo para molhar a garganta; das Missas do Parto; da Missa do Galo – da eucaristia no espaço do templo e do divertimento no espaço do adro; dos licores de vários sabores e cores; das broas de diversos sabores e feitios; do bolo de mel; do perfume das tangerinas; das searinhas; da carne de vinho e alhos; das lapinhas – as rochinhas com papel pardo ou as escadinhas com o Menino Jesus no topo; da lapinha que, como escreveu em 1957 Antonino Pestana, um escritor da nossa terra, «é pejada de anacronismos, mas […] alegre, viva, rica de verdura, farta de frutos […]; [e] traduz a beleza da nossa terra e a alma da nossa gente»; dos sapatinhos; do pinheiro a enfeitar as casas; das gambiarras; da exuberância das luzes nas ruas do Funchal; e de muito mais. [Já agora, uma sugestão de leitura: o relevante artigo de Nelson Veríssimo, «Natal madeirense», na revista Povos e Culturas, n.º 11, 2007, pp. 79-86, e disponível online.]
A Festa, pois, feita: de mudanças; de permanências; e de memórias, em especial da infância.
Também tenho as minhas. Ajudar a enfeitar a lapinha, inserindo nela, junto de um elenco já de si feito de uma mescla de figuras sagradas e profanas, os meus bonecos de acção G. I. Joe – acto criticado, mas tolerado como só às crianças se tolera. Comprar as prendas com a minha mãe – incluindo os brinquedos. Ouvi-la contar como o Natal, quando ela era criança, compreendia sempre uma ida à mercearia para comprar o que não se podia consumir no resto do ano: uma bola de queijo, cacau em pó e alguns – mas parcos – doces. As sandes de galinha e a canja oferecidas pelo meu pai, no seu bar, aos clientes que saíam da Missa do Galo na capelinha de S. Paulo, na Carreira. Acordar no dia de Natal e saborear uma sandes de carne de vinho e alhos para o pequeno-almoço. Ver o filme Die Hard 2, ou Assalto ao Aeroporto, de 1990, com o actor Bruce Willis, e adormecer a ouvir cantar a música final, “Let It Snow”, cantada por Vaughn Monroe: “Oh, the weather outside is frightful, / But the fire is so delightful. / And since we’ve got no place to go, / Let It Snow! Let It Snow! Let It Snow!”. [O que seria da minha geração sem televisão?]
E ouvir, hoje e na minha meninice, as pessoas dizerem: “Já lembra o Natal”; ou “Já lembra a Festa”. Esta expressão integra, pelo menos, dois significados, dois fenómenos, duas atitudes. Em primeiro lugar, a lembrança do Natal tal qual era vivenciado na infância e na juventude – naquele tempo em que não havia horários, em que o tempo não era regateado. E, depois, o estabelecimento de um marco de festividade no tempo cíclico anual, suspendendo, tanto quanto possível, a rotina e as agruras de que foi feito o ano que termina – e que passou depressa – e de que será feito o ano que começa – e que ainda mais depressa passará.

[Crónica publicada no JM, 12-XII-2015, p. 2]

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Crónica 35 [Negativos]

É difícil tomar o pulso ao quotidiano, à rua. É difícil, por vezes, dizer alguma coisa que possa dissipar o caos, destrinçar o relevante do irrelevante. Tarefa delicada esta – a de captar até fuscos negativos da realidade.
Por exemplo.
Uma mulher que anda, apressada, pela manhã, de rosto distorcido de consternação. Outra mulher que corre, ao fim da tarde, de rosto distorcido de cansaço e preocupação.
Uma jovem que caminha para o trabalho; um cão com coleira, sozinho, escolta-a ao longo do caminho, e interpõe-se entre ela e outro cão que surge. Aquele cão não é da jovem mulher.
Um amigo que me diz: “Tenho de organizar a minha cabeça.” Outro que confidencia: “Tenho de organizar o meu dinheiro.” Outro, ainda, que confessa: “Tenho de me organizar.”
Meia dúzia de amigos sentados a uma mesa de café, cada qual hipnotizado pelo visor do telemóvel – janela e espelho particulares em mundos estanques.
Meia dúzia de pedreiros, à hora de almoço, que descansam numa esquina, a olhar para as mulheres que passam – os piropos afogados nos olhos.
O tasqueiro que apoia as mãos abertas no balcão, preocupado com a fuga de clientes. Um cliente à porta a fumar um cigarro. Um bêbedo precoce que pede mais um vinho seco pequeno.
Uma criança sentada no passeio, de lágrima a cair pelo rosto, com um adulto que a olhava, de pé. Dois homens de barba rija, um com um bebé ao colo, embevecidos com o recém-nascido. Uma mãe que acompanha e vigia o filho até à porta da escola.
À hora de ponta, pessoas que ocupam os passeios como se os outros fossem invisíveis. [Também os passeios têm hora de ponta.] Os invisíveis são obrigados a dividir a estrada com os automóveis. Tanta conversa sobre direitos individuais, sobre Direitos do Homem, e, afinal, há pessoas a quem nem se reconhece o elementar direito a um lugar de passagem no passeio.
Um casal de turistas que olha para a igreja, para o mapa, de novo para a igreja, de novo para o mapa. E um transeunte, que antecipa uma pergunta inoportuna por parte dos turistas, que passa ao largo.
Dois homens que discutem política e partidos: “É uma aberração. O Costa, que perdeu, então forma governo?” “Ele perdeu mas entendeu-se com os outros.” “Mas então os outros, os comunistas e os do Bloco, não tinham de ir para o governo também?” “Ah, mas esses cá são mais espertos, não querem se sujar.” “Não vai dar bom.” “É capaz de dar.” “A União Europeia...” “P’rá União Europeia é igual. Eles é que mandam.” Evocaram-se, há dias, os 40 anos do 25 de Novembro de 1975. [Ou não se evocaram – já não sei.]
Um casal jovem, numa esplanada, em silêncio – acendem ambos, em simultâneo, um cigarro colhido no mesmo maço de tabaco. Um rapaz olha para as moedas que guarda na mão, à porta de uma tabacaria. No outro lado da estrada, encostado à parede, um homem olha para um letreiro de néon com uma letra falecida. Um homem que grunhe, no quintal da sua casa, para a mulher.
Um choque entre dois automóveis – nada de grave, não houve feridos, só chapa ligeiramente amolgada – que acontece à frente da esquina onde, semanas antes, um amigo me asseverou que tudo o que eu fazia era relevante. Que era, se bem me lembro, até mais do que isso.
Nada de grave, portanto, não há gente ferida, somente couraças amolgadas – e dias que passam.

[Crónica publicada no JM, 28-XI-2015, p. 2]

sábado, 14 de novembro de 2015

Crónica 34 [Três Histórias]

Contou-me ele. [Passou-se nos anos 70.]
«Vê só. Há alguns anos, quando eu era mais novo, eu tinha uma prima, perto de onde a gente morava... Bem, o meu tio, o pai dela, era um homem... Andava sempre com uma foice ao ombro – assim. Uma foice afiada – até cortava papel. Sim, uma foice. E ele era um estupor. Bem, se ele apanhasse um bicho – um gato, um cachorro – dentro de casa, nem imaginas. Uma vez, então, entra um gato dentro da casa desse meu tio. Ele chegou e reparou que ‘tava ali o gato. “Espera aí que eu já...” – deve ter ele pensado. Vai daí, não faz mais nada: pega na foice e... zás, a foice a zunir no ar, e apanha o gato – metade p’ra um lado e metade p’ró outro. O que é que ele faz depois? Não faz mais nada – chega ao pé da minha prima e diz-lhe: “Agora vai limpar.” Se tu visses... A rapariga – uma rapariguinha; era, como se diz hoje, uma adolescente –, lavada em lágrimas, a limpar o sangue e o debulho do bicho espalhados pela sala. Imagina o que não foi p’ra ela.»
Contou-me ela. [Passou-se nos anos 80.]
«Os meus avós eram muito unidos. Já eram velhinhos mas andavam sempre juntos. Apoiavam-se muito. A minha avó, repara, já não via bem. Ninguém daquela idade estava habituado a ir ao médico, mas a certa altura alguém leva a minha avó ao oftalmologista. Afinal, já praticamente ‘tava cega há anos. O médico receitou-lhe uns óculos e foi como se a mulher tivesse nascido de novo. Lá ‘tava ela toda contente com os seus novos olhos. Mas durou pouco. Logo que começou a usar óculos, o meu avô chega ao pé dela e disse-lhe: “Não gosto de te ver com isso. Tira isso da cara.” E ela tirou. Imaginas?»
Conto eu. [Passou-se nos anos 90.]
Venho do fim de um dia de trabalho na fazenda, com o meu tio. Pergunta ele: “Vai-se tomar um café?” Era eu ainda um adolescente, cheio de aspirações – aspirações de que hoje só guardo farrapos –, contente do cansaço de um dia de trabalho. Chegámos à tasca e vejo um homem, com a idade que hoje tenho, nos meados dos trintas. Este homem falava com um outro homem e tentava ser assertivo – mas mostrava nervosismo, apreensão e uma cólera reprimida. O outro homem era mais velho, talvez muito mais velho. O que lhe era dito era algo como isto: “O senhor não acha que podia mandar cortar aquela árvore? Quer dizer, eu sei que ‘tá no seu terreno, é por isso que eu ‘tou a falar consigo. Já viu se ela cai? Ela ‘tá perigando de cair. Já viu se ela cai em cima da minha casa? Imagine, senhor, se a árvore cai de noite e eu tenho a minha mulher e o meu filho em casa. Se cair e eles morrerem, como é?” Antes de dar uma resposta, que foi imediata, a expressão na cara do velho... Ainda hoje parece que a vejo. E ainda hoje – ou desde sempre – não a consigo descrever. Responde, enfim, o velho: “Se isso acontecer, eu tenho dinheiro p’ra pagar a morte.” Imaginam?
Não é preciso agredir, gritar, ameaçar, insultar com palavras simples e desonestas. Há violência – e há violências, na família e fora dela. Haja olhos e ouvidos: os olhos e os ouvidos certos para reparar na violência subterrânea, indizível, inescrutável – e para fazê-la soar, como sinos em cortejo fúnebre. Haja imaginação para reconhecer a violência – porque, para ela existir, basta existir poder.


[Crónica publicada no JM, 14-XI-2015, p. 2]

sábado, 31 de outubro de 2015

Crónica 33 [Uma História]

[Disse-me o homem de mãos sujas e olhos azuis numa cara de pele tisnada, durante o intervalo do amanho de um pequeno bocado de terra.]
«Isto não dá nada, por agora vai dando, mas mais daqui a uns tempos não vai dar nada. Vai-se limpando, cavando, vai-se fazendo como se pode, mas agora também nem se pode usar remédio como dantes.»
[...]
«Sim, remédio. Eles vendem, mas já não é o remédio que antes havia, é mais fraco. O remédio que antes havia era bom, mas também era forte, e eles já não vendem.»
[...]
«Ora porquê? Porque as pessoas... As pessoas, depois, pegavam no remédio p’rós bichos... e tomavam...»
[...]
«Tomavam. P’ra se matarem. P’ra se darem caminho. Há uns tempos aconteceu com um primo meu, um bom bocado mais novo do que eu, mas aconteceu.
«Cheguei a casa e passei numa tasca que tem lá perto. Vi lá esse meu primo, que ‘tava lá. Ele perguntou-me se eu queria tomar alguma coisa. Eu mandei vir um copo de vinho. E depois ele disse-me: “O primo o que ‘tá a beber é a última coisa que bebe da minha mão”. E eu disse-lhe: “Ah, homem, não tem problema nenhum. Eu ainda ganho p’ra pagar um café ou um copo de vinho p’ra mim.”
«Isto passou-se. Daí a bocado, na casa dele, começou a haver uma gritaria, uma gritaria. O que foi que tinha acontecido? Tinha tomado remédio, e ficou ali mesmo. Encontraram ele já com espuma na boca, a estrebuchar no chão. Olhe, é assim, percebe?
«A mulher contou-me depois que ele tinha ido p’ra casa e que chamou ele p’ra jantar. Depois disse-me que a resposta dele foi: “Vocês que vão jantando que eu já ‘tou a arranjar jantar p’ra mim.” O jantar foi o remédio.»
[...]
«Sabe como é. O rapaz, esse meu primo, não tinha trabalho, vivia com a mulher e tinha uma filha pequena, um bebé, mas vivia com a família da mulher. E sabe como é. Um diz isto, outro diz aquilo, um lava daqui, outro torce dali. Depois há muita bilhardice, e as pessoas não se compreendem. Os pais dela, da mulher, mandavam vir com ele. A mulher tomava o partido da mãe e do pai dela. Não havia paz. Sabe como é. As pessoas quando não têm trabalho, não têm dinheiro, não têm a sua casa... ninguém se compreende.
«Isto ‘tá difícil por aí afora. A quantidade de gente que... O senhor sabe lá o que vai por aí afora por essas zonas. Há dias um homem que eu conheço foi regar uma fazenda, longe do caminho da levada. Olhe, ele encontrou outro que ‘tava lá pendurado há bastante tempo. Ele nem tinha dado com ele se não tivesse sentido o cheiro e não tivesse ido ver o que era.
«Eu cá também divorciei-me, sim. Mas uma pessoa tem de ter calma, tem de viver. A mim, graças a Deus, já tenho esta idade, mas não me falta trabalho. Graças a Deus, o meu patrão arranja sempre trabalho p’rá gente. Um dia aqui, outro dia acolá. Uma fazenda de bananeiras, um jardim... Ganha-se pouco, sim. Ganho o ordenado mínimo p’ra tanto trabalho. Mas um homem tem de viver. Fumo um cigarrinho de vez em quando...
[...]
«Olhe, obrigado. Fuma-se um de vez em quando. Às vezes toma-se um copinho de vinho, quando dá. Mas é preciso saber viver, é preciso largar a bilhardice, o falatório, todas essas coisas. Quanto mais se fala menos se faz, menos se vive.»

[Crónica publicada no JM, 31-X-2015, p. 2]

sábado, 17 de outubro de 2015

Crónica 32 [O Líder]

Passou ele a ler para a sua pequena plateia desconfiada.
«O líder, nesta sociedade, é o indivíduo a quem ninguém ousa criticar [ou maldizer] na presença – apenas na ausência. [Sim, o mesmo se aplica a um louco. E sim, quem fizer o contrário é considerado louco – ou leproso. Adiante.]
«Quando um indivíduo critica o líder na presença deste, é de pronto abandonado por aqueles que, até à véspera, o acompanhavam nas críticas ao líder ausente.
«Há indivíduos, que lideram, a quem, mesmo quando ausentes, dificilmente se admite uma crítica: isto acontece quando são vitoriosos e, logo, cobertos de uma aura de omnisciência e divindade – difícil nesta sociedade individualista, mas não impossível. Todo este jogo muda, como é óbvio, quando à vitória sucede a derrota.
«Depois, não o esqueçamos, há indivíduos que, não sendo chefes ainda, se apresentam – e são considerados – como líderes futuros, inevitáveis, messiânicos: também a crítica a estes é considerada uma heresia.
«O reconhecimento de um indivíduo como líder – no presente ou no futuro – é um processo composto de aprovações unânimes, tácitas e, por vezes, emocionais e inconscientes [quase silenciosas, portanto] – das quais o mínimo desvio é considerado um pecado. Estas aprovações, após a unção do líder, são por vezes seguidas de desaprovações desiludidas, unânimes, racionais e conscientes [quase silenciosas, porém] – das quais o mínimo alarde é uma grave transgressão. Este é um mundo onde as atitudes implícitas, vigiadas e eivadas de regras são mais poderosas do que as atitudes explícitas. Nenhuma plateia acredita em declarações gongóricas e golpes de teatro. Quando se trata do poder, toda a plateia sabe que o mais importante se passa nos bastidores.
«Como é óbvio, nesta sociedade não há coesão social mínima sem líderes – sem o reconhecimento de alguns homens enquanto líderes incontestados [ou – como temos visto – contestados de modo surdo]. Convém, a bem de uma maior coesão social, que a unção de um novo líder seja feita pelo anterior – enquanto este for forte ou vitorioso. Se tal não acontecer – e amiúde não acontece –, o sucessor, para bem do sistema, deve, como dissemos, se apresentar como um messias – e um messias é sempre incontestável [ou contestável somente de modo surdo].
«Isto dito, importa referir aqueles indivíduos que, ainda que presumivelmente talhados para liderar, nunca o farão. Mais do que as características inerentes, temos de ver as atitudes que um indivíduo desta natureza suscita nos outros. Se ao que será – ou é – líder ninguém ousa criticar na sua presença [somente na sua ausência, e em condições muito periclitantes], ao que nunca será líder, por assim dizer, sobejarão críticas ditas no seu rosto e encómios proferidos nas suas costas. E assim voltamos ao início.»
“Que tal?” – Disse ele, voltando-se para quem o ouvia.
“Arrevesado. Confuso.” – Disseram todos, com pequenas diferenças de palavras, num murmúrio gaguejante. Todos – menos um.
“E tu?”
“Qual foi aquele adjectivo que usaste?”
“Adjectivo? Não sei. Unânime? Tácito? Inconsciente? Consciente?”
“Sim, tudo muito lindo. Não, depois disso. De modo…”
“Surdo?”
“Isso. Também devias ter usado, aí pelo meio, a palavra «mudo».”

[Crónica publicada no JM, 17-X-2015, p. 2]

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Crónica 31 [A Doença]

Ele é homem, é mulher; ele é velho, é novo. Ele é uma legião de homens, mulheres, velhos e novos – todos de costas viradas, divorciados dos rostos e dos hálitos dos outros.
Quando entra na sala – na casa – no mundo –, ninguém ouve, ninguém vê, ninguém repara, ninguém toca. Nada – não existem essas possibilidades, não se tomam essas oportunidades. É o diálogo sem diálogo. É o monólogo que se alimenta de todas as deixas, de todas as palavras – de todos os silêncios, e acidentes, entre as palavras.
É a palavra pé-de-cabra, a palavra fogo-de-artifício. É uma cela, uma ilha cercada de medos. É uma venda nos olhos, umas luvas de couro – ou de pelica. É uma armadilha de lobos, um camartelo, uma tenaz. É uma mira vigilante – um projéctil desgovernado. É uma arma de destruição massiva. É um campo de batalha a preto e branco, uma lápide com epitáfios sempre repetidos, nunca enfadados de si próprios – ano após ano, era após era.
Está no homem que o recusa para se ilibar. Está no homem que o aceita para se justificar. Está em quem o detesta para, em ilusão, tentar se curar. Está em quem o adora para tentar se iludir. Está, enfim, no homem que de si fala para tentar se distrair da existência.
No seu reino não há partilhas: não se partilha porque nada se quer receber; não se recebe porque nada se quer dar – e nada existe para dar.
É uma doença de milénios – hoje mais veloz, mais persecutória, mais inquisidora. É uma doença de bípedes – cujos pacientes, hoje, estão em estado comatoso. É uma doença que não precisa de vírus – apenas de hospedeiros, de incubadoras. Não oferece possibilidade de contenção – teria de haver tantos cordões sanitários, e tantos lazaretos, quantos nós somos.
É um púlpito de voz cavernosa e enfadonha; é a tribuna das verdades sectárias alcandoradas a doutrinas universais; é o megafone de um homem só, para a plateia dele mesmo; são milhões de megafones a encher as ruas de cacofonias tocadas em uníssono; é uma peça de piano onde somente se usam as teclas brancas; é uma nota pedal sibilante, até não se descortinarem outros sons com que se possa cismar.
É uma crónica de jornal à espera de leitura sedenta, como quem traz o único e verdadeiro método para se matutar nas engrenagens dos dias.
É a anulação da ironia – é o cinismo militarizado. É uma assinatura falsa – é uma assinatura falsificável. É a incapacidade de saber o nosso contributo para o que nos rodeia. É a incapacidade de conhecer o nosso potencial destrutivo.
É o poder simples, que não sai do seu caminho: de tanto estudar Maquiavel esquece Maquiavel; de tanto louvar a Deus esquece Deus; de tanto soletrar a razão esquece-a – ou usa-a como munição.
É o mundo do Dorian Gray – de Oscar Wilde – no qual os «caprichos de Dorian são leis para toda a gente, excepto para ele».
O Eu proclama a irmandade universal nos defeitos – e a excepcionalidade nas virtudes. A Voz proclama-se, destarte, independente e moralmente irrepreensível – procurando, porém, apenas colo, compreensão e liberdade sem freios e com esporas.
É o oitavo pecado mortal – é, ao mesmo tempo, o berço e o braço armado dos restantes pecados.
O que é? Quem é? O egocentrismo – ou o ego locupletado.

[Crónica publicada no JM, 19-IX-2015, p. 2]

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Crónica 30 [Quando]


Quando houver verdadeira consideração pela propriedade pública, pelos bens públicos. Quando se deixar de pensar: “O que é meu é meu; o que é teu é teu; o que é nosso é meu”. Quando os madeirenses deixarem de manifestar o orgulho que sentem pela beleza da sua terra através de actos como atirar uma embalagem vazia para dentro de uma ribeira – ou uma beata para o chão. [Deus me perdoe.]
Quando a geração que pôde usufruir da generalizada melhoria de condições de vida, e do acesso à liberdade, após o 25 de Abril, compreender os anseios, as circunstâncias e os sentimentos das gerações posteriores. [E vice-versa – sim, um pouco também vice-versa.]
Quando houver liberdade de criação – quando o que se fizer e disser, em liberdade e dentro da lei, não revogar amizades e criar inimizades e tentativas de anulação e sabotagem.
Quando este povo, religiosa e culturalmente cristão, passar a ser mais Cristo – e menos Sinédrio.
Quando este povo perder o preconceito de superioridade – e, sobretudo, o preconceito de inferioridade.
Quando a política deixar de se imiscuir em tudo – na família, nas amizades, no trabalho, na vida privada. Quando a política deixar de confundir tudo – ou as pessoas deixarem de confundir tudo por causa dela.
Quando pertencer a um partido não for um elemento fulcral para o futuro profissional e pessoal. Quando não pertencer a um partido não for um elemento funesto para o sucesso profissional e pessoal. Quando pertencer a um determinado partido for um elemento fulcral / funesto [risque-se o que não interessar] para a concretização profissional e pessoal.
Quando houver verdadeiros projectos – económicos, empresariais, políticos, culturais, sociais, associativos… – e não meros projectos pessoais de poder. [Repita-se: projectos pessoais de poder.]
Quando discutir política regional não consistir, no conjunto, em falar da vida interna – das redes, das quezílias, das parcerias – do partido maioritário [e depois, mas só muito depois, dos partidos da oposição].
Quando se deixar de reproduzir chavões, conceitos e adjectivos políticos forjados há 40 anos. Quando se deixar, 40 anos depois, de acreditar em homens providenciais [com mais ou menos maquilhagem política].
Quando nos deixarmos de boas intenções alardeadas que anulam o discernimento e as tomadas de posição.
Quando o medo não for um problema público, ou uma desgraça pública.
Quando se souber que o meio é pequeno, por vezes claustrofóbico – e que assim é pelas atitudes de algumas das suas gentes.
Quando deixarmos de ser convencionais e moralistas – quando deixarmos, por exemplo, de pensar e dizer – e escrever – “quando”.
Quando… Quando? Não sei. Mas, a despeito do que muita gente poderá defender, considero que esse “quando” não é hoje – não é a Madeira do ano da graça de 2015.
[Referi-me, nesta crónica, somente a aspectos culturais e políticos – a mentalidades e psicologia colectiva. Nem por um momento se me varre da mente as adversas condições económicas e sociais por que passa o arquipélago da Madeira – e Portugal, no seu conjunto. Essa, porém, é outra crónica.]

[Crónica publicada no JM, 08-IX-2015, p. 2]

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Crónica 29 [Política na Madeira]

Hoje, este vosso aprendiz de cronista – um humilde observador, interessado nas coisas da nossa terra – traz um assunto inédito: Política [na Madeira].
Não estou a brincar. Perdão, é claro que brinco. Muito se fala e se escreve – nas crónicas deste periódico, por exemplo – sobre política na Madeira. E, à semelhança do que ocorre no restante Portugal, ainda que com características mais perversas, a política é discutida na Madeira sob o prisma quase exclusivamente partidário. Os responsáveis políticos têm a prática – e têm o discurso. José Gil disse que os políticos «fazem o discurso e o metadiscurso». [Fica sempre bem uma citação, diga-se, sobretudo quando vem a propósito.]
Daí decorre que não haja verdadeira discussão – apenas a construção e manutenção de barricadas partidárias, com a constante contagem de espingardas e o recorrente esforço no recrutamento de tropas e no aprovisionamento de munições. Uma guerra, portanto. [Não era necessário dizê-lo, mas fica dito.]
Não há discussão, pois. E não há análise – informada e ensaística, se quisermos, e não imbuída de agendas e objectivos político-partidários explícitos [ou implícitos]. Por outro lado, uma análise de cariz sociológico ou politológico ou não existe, ou fica refém de jargões que circulam em circuito fechado, ou não deixa de servir interesses partidários.
Afora este facto, interessa olhar mais um ou dois fenómenos relacionados com o comportamento político dos madeirenses.
Como este: discutir política na Madeira consiste em discutir a vida interna do partido maioritário – do PSD-Madeira [é necessário frisar que isto se aplica, não a todos, mas à maior parte dos madeirenses?]. Este fenómeno é a consequência última da ocupação de todos os espaços de poder no arquipélago por parte do PSD. [E este arquipélago, após o advento da autonomia político-administrativa, assistiu a uma proliferação de espaços de poder – mas esta é outra conversa.] Este partido acabou por ocupar, com incomparável peso e tamanho, o horizonte político-mental do povo madeirense e tornou-se sinónimo do próprio conceito de poder. [Devo notar que pretendo aqui simplesmente constatar e analisar. Sim, é preciso fazer notar.]
No presente, com a corrida à liderança do PSD, esta tendência é propensa a agudizar-se. Dir-se-á que o PSD está em baixa maré. Mas como, se, à boleia das rivalidades internas, ocupa cada vez mais espaço mediático, e cobra cada vez mais atenção? Qual o madeirense que, nos últimos tempos, nunca participou em diálogos acerca da corrida à liderança do partido maioritário, defendendo a sua “dama” ou execrando o seu “demónio”, ou simplesmente prevendo vencedores e vencidos. As opiniões, neste particular, nunca necessitam de grande fundamentação ou suporte empírico. Afinal, em terra tão pequena toda a gente se conhece. E conhece-se sempre alguém que disse que sabe que vai acontecer isto e aquilo, porque conhece fulano de tal, que é íntimo de beltrano, etc. e tal.
A política mostra o lugar que a Madeira é – e o lugar onde a política a deixou ficar: uma paróquia.
E o lugar das oposições? No conjunto, na opinião dos madeirenses as oposições existem para ocupar o lugar que lhes deu o PSD: quer dizer, existem para serem apoucadas e mofadas [sim, mofadas]. Poderíamos alvitrar, até, que algumas interiorizaram esse estatuto. [Também esta é outra conversa.]
Para terminar, um outro fenómeno existe, conectado com o anterior: discutir política na Madeira – em Portugal? – é mormente um exercício de previsão. Não no que concerne ao sucesso ou fracasso de políticas económicas, por exemplo [deixemo-nos de coisas], mas de novo no que respeita aos resultados – unção dos vencedores; imolação dos vencidos – dos jogos de poder intestinos [no interior dos partidos].
É verdade: somos bons videntes e bons ilusionistas; e adoramos palhaços, trapezistas e contorcionistas. Um circo, portanto. [Não era necessário dizê-lo, mas fica dito.]

[Crónica publicada no Diário de Notícias – Madeira, 05-IX-2014, p. 10.]

Crónica 28

Falta o mínimo; e a quem nem esse pouco sobra, resta-lhe adormecer – pensou o homem que acabava de despertar.
Nunca será demais encarecer o valor das coisas indizíveis e invisíveis – cogitava ele, quando cuspiu para a pia.
Não sei se a casa é um manicómio ou uma prisão [uma câmara frigorífica ou um forno], ou se esta porta é uma fronteira aquém ou além da sanidade – disse ele, a lutar, pela sexta vez, com a fechadura perra.
A beleza terrífica do que se extingue – concordou ele depois de olhar um ninho abandonado e antes de tropeçar e cair de nariz no asfalto.
O sono ainda não tinha esvaído por completo; o sono nunca se esvai. Ao estacionar a um balcão, pediu uma bica curta; serviram-lhe uma bica cheia – havia pedido bica curta, esclareceu ele; que tomasse o que quisesse, esclareceram. [Tomasse o que quisesse – de café ou de vigília.]
[…]

O esquecimento pode ser uma benção – ou uma maldição [é igual – não interessa]; entre o trilho de ida e o trilho de volta, o que existe mais? – perguntou ele, antes de chegar ao destino, depois de abandonar o destino [é igual – não interessa].

[…]
Em quem confiaríamos? Nos homens que precisam de adormentadores da consciência – da realidade? Nos homens para quem a consciência e a realidade estão sempre de boa saúde? – considerou ele estas perguntas e pediu meia bola de uísque, logo a transpor a porta da tasca; foi-lhe servido o equivalente a uma bola; achou que era generosidade do taberneiro; ao pagar, exigiram-lhe o dinheiro de uma medida – havia pedido meia bola, esclareceu; que tinha sido servida uma bola, disseram-lhe. [Tomasse o que quisesse – de uísque ou de realidade.]
Que fazem de um homem? Quem sou eu? Um bobo amarelado – um ogre arreganhado – um bonifrate de ossos. O quê? – pensou quando uma criança atenta ao seu vulto, sobre o tratuário, virou a cabeça cúmplice para a mãe; e depois, quando um cão distraído que deu pela sua passagem – um faro apurado, num silêncio mais apurado – principiou a ladrar com ameaça.
O quarto é um cubo oco; dos quatro cantos superiores, um é iluminado pelo candeeiro, outro habitado por uma aranha; nenhum ponto de fuga existe – apercebeu-se ele antes de apagar a luz e derrubar um livro que estava sobre a mesa-de-cabeceira.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Crónica 25

Deitado de borco estava um homem. Ora cruzava as mãos nas costas, ora entrelaçava os dedos em resguardo da nuca. As lágrimas – ou o suor – humedeciam o pó do solo; e os soluços, que tornavam o abdómen um fole, eram a espaços o culminar de um frémito que lhe percorria todo o corpo. Por vezes, virava a cara para a direita e era como se desejasse ter perdido a capacidade de ver – os olhos numa suspensão baça e aguda.
À direita estava, a cerca de três metros, um outro homem de cócoras – nos olhos uma suspensão de lâmina. Os beiços estavam colados um ao outro, mas ou o vento, ou uma outra fonte imperscrutável, originava um rumor sibilante – uma vaga que, num volume constante, saturava e precipitava o ar.
Quem observasse este cenário diria que eram homens gémeos; um de pele humana, de tez morena – outro de pele anfíbia, de uma alvura baça; o positivo – o negativo; a afirmação – a negação. De resto, eram iguais em tudo, até no trajar.
Os movimentos de um e a imobilidade de outro duraram o tempo necessário para que um pintor – ou um deus – os gravasse numa tela – ou num apocalipse.
A imobilidade acometeu enfim o primeiro homem. Nesse momento, alonga o pescoço o segundo homem, num movimento que, para o sósia, tão ruidoso era de tão velado.
O primeiro homem principia a erguer-se, tomando o cuidado de nunca voltar o peito e o rosto à terra – como se esta fosse um reduto de que não quisesse se apartar. Como animal quadrúpede fica suspenso, a fitar o solo, durante um minuto – ou uma hora. Por fim, e com lentidão, levanta-se. O corpo fica voltado para sul. O pé direito, quase independente, traça uma linha que a terra poeirenta deixou gravar, e volta a suster metade do peso do corpo. Ao seu poente permanecia imóvel o outro homem.
Este levanta-se, sem denunciar o momento em que o fez. Agachado estava – erecto ficou. Os olhos adquiriram, agora, uma tonalidade de suspensão indiferente. A lâmina não precisava de mais fio.
O primeiro homem, finalmente, volta-se para poente, encarando o segundo. Dir-se-ia serem homens iguais, cópias – dois exemplares saídos do mesmo molde. Na fonte direita do primeiro pulsava uma veia escarlate; a pele escurecia com o ocaso do dia. Na fonte esquerda do segundo mais nítido ficava um veio azul; a camada superficial da pele tornava-se translúcida e mais aquosa.
Dir-se-ia serem os opostos – os contrários – os avessos. De resto, permaneciam iguais.
O segundo homem precipita-se sobre o primeiro e, num amplexo, uma sombra enredada logo os apagou. O rumor sibilante havia cessado.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Crónica 24

Anda-me este cheiro a enxofre debaixo do nariz…
Acordo. Levanto-me. Acordo. Surpreendo manchas na testa que se escapam para debaixo dos olhos, nestas manhãs ao espelho. As mãos acometem a cara à procura dos sinais; a boca de aparvalhado; o dia que se inicia.
Fumo. Visto-mo. Saio. Fumo. Oscilo entre uma indagação incompetente do contentamento e… uma constatação competente, sem dúvida, do resto. Sorrio. [Escassos indícios existem como este da aceitação cansada do absurdo.]
Vou. Diz-me o Mestre João, adiante, que a “vida é uma merda”, juízo que já estou – não estava, mas já estou – pronto a subscrever, a bem da realidade ontológica e escatológica. Mestre João disserta sobre os tempos vazios; diz ele que são estes a fonte de todo o mal. Felicidade! – diz-me ele. Ouço. Invento. Penso. Não me lembro do mais que disse o homem. Pouco uso teria para as palavras, fossem quais fossem. [Enfim, qualquer coisa sobre manter a cabeça ocupada.]
Mas sei o que penso – a consciência imprime toda a realidade em letra redonda na minha mente. Redonda. Simples. Quer dizer – elimino as arestas; simplifico; faço petrificar. Uma criança a correr, contente, é apenas uma criança a correr, contente. É verdade, poderia também haver gafanhotos – e relva. À parte isso, não sei. Não me lembro. [Um corvo que me entre em casa, por outro lado, já será mais do que um corvo que entre em casa – não é?]
Acciono ontem e hoje [o caminho é longo; não tenho que temer o tempo] um crivo de análise [das impressões da realidade] cheio de pó e de gordura. Quer dizer – irrompe enxofre entre o caos, no devir da ordem. Profundo, não é? Ordem, devir, caos, crivo, fumo, pó – enxofre. O método é este – um facto é arrumado em categorias prévias; as categorias são encerradas em compartimentos da mente; a mente é fechada ao exterior. [Anda-me este cheiro a...]
O Sr. Visconde do Faial, mais adiante, debita experiências de descaminho – qualquer coisa sobre o imperativo do desprendimento das coisas e dos comodismos e dos sentimentos e das noções de outrem. [Mais escutasse, mais imaginaria eu.] Pergunto. Sei. Pergunto na mesma, ao Sr. Visconde, se as impressões da realidade merecem tanta relevância, e o vetusto homem diz-me que hei-de arrepender-me por perder o sal da vida à conta destas frivolidades. Na verdade, tenho tensão arterial alta.
O Mestre João e o Visconde do Faial juntam-se por vezes, na volta do caminho, para falar de mulheres e de álcool. [Não nos admiremos – são temas igualitários.] Imagino. Escuto. Imagino. Interrompi-os, em certo momento, e disse uma necedade – “Não cheirais, caros cavalheiros, este enxofre?”
Sorriram. Disseram. Cuspiram. “Deixa lá essas coisas e vai buscar outra garrafa de rótulo preto! Aproveita e traz mais um copo p’ra ti.”
Fui. Lembro-me. Não me lembro. [Talvez fosse rótulo vermelho.]

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Crónica 21

1.
Os dois acontecimentos haviam eclodido há já muito tempo, separados por um parêntesis de dez anos. Ambos constituíram duas portas – a entrada; a saída – de uma antecâmara do destino. O primeiro acontecimento assaltava-lhe por vezes a memória. O pai, na voragem do desenlace do divórcio, ao abandonar o lar, culpou-o a ele, somente a ele – o filho do meio, entre os vários irmãos. Lembrou-se de se ter interposto entre o pai quase agressor e a mãe quase vítima – o pai tentando vergar-lhe os braços perante o desespero da mãe. Mas todo ele foi força bruta e orgulho – e os braços como troncos ilesos. Tinha 15 anos. O segundo acontecimento reencontrava-o por vezes magoado. A mãe, na voragem de um enlace amoroso, e sofrendo a desaprovação da conduta do parceiro por parte deste filho – ânimo justo; orgulho –, fugiu de casa. Numa manhã estava; à noite não estava. Tinha ele 25 anos, era o filho do meio entre todos os filhos – e a sentença de culpado ditada pela mãe.
2.
Nesse momento, há um lustro portanto, tomou uma decisão. A de compor um repertório – num caderno de linhas de capa preta, pouco maior do que uma folha A5, de páginas numeradas no canto inferior direito, com entradas datadas no canto superior direito – de factos, dados, acontecimentos, palavras e expressões, ou seja, de todos os insultos, de todas as desconsiderações, de todos os abusos, de todos os desprezos, de todas as injustiças, de todas as violências, dos quais era, não a origem, mas o destinatário. Era esse, desde há um lustro, o seu destino. De tanto arrolar, encheu-se-lhe o caderno. Na realidade, ninguém podia imputar-lhe mau carácter; era tanto amável e justo quanto exigente com os outros, com os amigos – numa refrega constante de procura de afectos e de proximidades. Usava de uma correcção e de uma sabedoria precoce muito consideradas, com efeito, mas ninguém o queria por perto – uma refrega constante, afinal, feita de debandadas, de desconsiderações e de insultos. De tanto escrevinhar, pois, encheu-se-lhe o caderno.
3.
Nesse ensejo, comprou um obscuro folheto de um também obscuro autor: Aforismos para o Dia Seguinte. Folheou várias vezes. Nada lhe fazia sentido – cinco euros mal empregues. Quando os seus miolos ensanguentados redecoraram a parede da sala, o magro volume ficou aberto na página 30, onde se podia ler o «Aforismo 127»: «Ser injustiçado não é uma sucessão de acasos; é uma condição e um signo – ambos atribuídos e, o que não é despiciendo, assumidos.»