sábado, 23 de junho de 2018

Crónica 103 [Explicações]

“Explicação do Poeta”,
de Daniel Faria

«Pousa devagar a enxada sobre o ombro
Já cavou muito silêncio

Como punhal brilha em suas costas
A lâmina contra o cansaço»


Explicação do cronista, em tempos de futebol, a olhar para o computador: segura a duas mãos a enxada; levanta-a; deixa-a cair para trás. Explicação da enxada: começa de novo; levanta os dedos em ângulo recto sobre o teclado; deixa-os cair – mas evita dar erros sublinhados a cor de sangue. Explicação do sangue: há que mantê-lo fluido; há que calafetar as veias. Explicação do calafate: tapa bem os buracos da tua casa; cerra as entradas de lagartixas; fecha as saídas de oxigénio; persegue o ideal de autarcia.
A autarcia: se não começar pelos desejos, não começa por lado nenhum. O oxigénio: mistura-o a teu gosto; com fumo de cigarro, por exemplo; não o mantenhas demasiado puro. O cigarro: não há dias sem marcos, sem ritmos, sem balanços – sem pontos de entrada e de saída. O dia: pesa-o de acordo com os teus pesadelos. O pesadelo: se um peixe falar esperanto enquanto fuma uma cigarrilha – tudo bem; se um homem comum tomar uma simples navalha e atacar, comum e simplesmente, alguém – tudo mal. A navalha: lembra-te do ‘Chavelha’, quando a enterrava no bucho de alguém – “Guarda-me esta até amanhã”; usa-a marinada em metáfora; substitui-a por algo que fira e que cicatrize logo – uma memória, por exemplo, colhida aonde te levem os pés. A colheita: um pão azedo, vindo da nossa eira, traz um conduto doce; se não, deita-lhe vinho. O vinho: deita mais, ou menos, enxofre – como queiras; fizeste o vinho, terás de bebê-lo. O imperativo: bate o pé – na dança, na opinião, na perversidade; no que for, bate o pé – há gente que tem pés mais pesados do que os teus.
A opinião: em caso de encurralamento, defende-te; depois, no rescaldo da refrega, não mintas a ti próprio – e penitencia-te; por vezes, ou sempre, estás – apenas e tão-só –, errado. O curral: deita, no meio dos encurralados, opiniões bastantes e terminantes; afasta-te e deixa cozer; volta quando estiver pronto a servir. A perversidade: veja-se, para melhor dilucidação, a explicação seguinte. A política: a arte de mudar de posição; a arte de mudar consoante a posição. A posição: contra factos e argumentos, há poder. O poder: subestima, sobrestima, defende, ataca – como quiseres; não o percas – se perderes, prepara-te para pagares pelos teus erros e para saldares as tuas dívidas. O erro e a dívida: foge à primeira oportunidade; manobra os ruídos certos. [A ironia: não te canses; não descanses; não t’importes; não uses parênteses.]
O ruído: é necessário preencher os vazios entre os silêncios. O silêncio: o veneno que não mente. A mentira: um pântano é simultaneamente alfobre de morte e fonte de vida. A vida: quem procura terra firme deve começar por drenar o seu próprio paul. O paul: um corpo, uma mente, as mãos. As mãos: uma caneta; um teclado; uma enxada; uma navalha. O início: há que cair e voltar a levantar-se. A criação: há que tombar e erguer-se de novo. A queda: quanto mais pequenas e constantes, maior o seu valor. A constância: subverte em silêncio e em solidão. A subversão: preservação; compromisso; lentidão; quietude; o espírito frenético e plácido no corpo possante e decadente. A contradição: alfobre de morte – fonte de vida.
Segunda explicação do silêncio: conhece por dentro a tua fortaleza. Segunda explicação do ruído: conhece por fora a tua fortaleza. Explicação da fortaleza: mede todas as palavras. Explicação da palavra: a água lava tudo – disse um ancião –, mas não lava línguas bífidas de ressentimento, línguas rugosas de frivolidade, línguas gretadas de omissão. Segunda explicação da palavra: [   ]

[Crónica publicada no JM, 23-VI-2018.]

sábado, 9 de junho de 2018

Crónica 102 [Crónica Caótica]

Dois homens falavam, com os pés sobre a grade da adufa, à frente da tasca. [Semilhas, feijão, regas, madrugadas ao alto, dias tardios, pouco dinheiro, costas que doíam.] Quando se despediram, disse o que tinha a cara mais curtida do sol e do vinho: “Olha, ‘tou bastante contente... ainda bem que a gente se encontrou. Daqui a uns anos a gente encontra-se outra vez, aqui mesmo, pode ser? Se houver saúde e se ‘tivermos vivos... Sabes o que é que eu queria? Queria ir ao funeral dos meus amigos. [O ouvinte contraiu as beiças num ricto amarelado.] Percebes? Há dias diziam-me assim: não gostavas que os teus amigos fossem ao teu funeral? Eu disse que sim – e disse que também gostava de ir ao funeral dos meus amigos. Bem, foi bom este bocadinho. Força.” Entraram nos carros e foram embora.
           
Uma pessoa ouve, lê, pasma. Ele é Jack Kennedy, é George Orwell, é Churchill, é Lampedusa, é Huxley, é o Fernando Pessoa das “Pedras no caminho” [“Guardo todas, um dia vou construir um castelo”.] [Um castelo ou um pardieiro apócrifo – é igual.] Ele é citações cansadas, vindas a despropósito e a armar ao pingarelho. Enfim, parece que o “Citador” online anda a bater válvulas – e parece que há gente que só ontem começou a virar frangos, sobre lenha húmida, ou que anda a mondar silvado com mãos macias e unhas de manicura.
           
Um homem aproximou-se de outro. Meteu o dedo à frente dos olhos do receptor, olhou para a testa dele e abriu a boca: “Tu nunca mais t’atrevas a falar assim comigo, senão largo-te uma relampada na ouvideira que ficas a zunir até ao ano que vem, ‘tás a compreendestes?” O outro deixou correr uns segundos – e ripostou: “Da próxima vez que falares assim comigo, largo-te uma batata na tampa da cabeça que racho-te até ao forro das grãs, ‘tás a atremastes?” A seguir, ficaram fechados numa suspensão – sem ponteiros e sem perturbação do exterior. Finalmente, sacudiram-se a rir, de costas curvadas e palmas a bater umas nas outras e nas pernas. “Vai-se tomar uma cerveja?” “Vai-se – mas não vai ser cerveja. Hoje ‘tou a tomar pastilhas.”
           
A nossa época criou – ou passou a valorizar – uma competência especial, uma vocação inédita, um talento sem par – a actividade permanente nas redes sociais [no Facebook]. Sem mais questionamentos, dúvidas ou hesitações, indivíduos há que são considerados relevantes – na opinião pública, no mundo da política, no clima cultural e mental – simplesmente porque estão no Facebook – e porque aí são constantes, pletóricos, cirúrgicos, em ‘posts’ e comentários e etc. Além disto – ou em relação com isto –, há indivíduos que, na construção do eu, da sua imagem, do seu perfil, têm tanta coragem, tanto denodo, tanta boa-fé, tanto aprumo moral que... precisam de um perfil falso – ou de perfis falsos – para o resto.
           
[Apenas mais um parágrafo caótico e mal-vestido – uma história de ego, porque também mereço e porque já era para a ter contado.] Um dia – lá vão muitas quinzenas –, passava eu no centro do Caniço. Saiu de dentro de um ‘snack-bar’ um homem alto – mais alto do que eu, o que é raro –, entroncado, sulcado e calejado pelo tempo. [Posso estar enganado, mas pareceu-me reconhecê-lo – era um dos homens que, nos finais dos dias da semana, estacavam às portas das tascas nas redondezas da Igreja de São Pedro.] Chegou-se ao meu pé. [Com o braço direito, empurrei a minha mulher para trás de mim e esperei.] Primeiro, falou – dir-se-ia – para um interlocutor imaginado: “Deixa-me aqui cumprimentar este senhor.” Depois, estendeu a mão e acrescentou: “Gosto muito das coisas que escreve. Muito obrigado.”

[Crónica publicada no JM, 09-VI-2018.]

sábado, 26 de maio de 2018

Crónica 101 [Down]

Ele tinha sido o último de uma longa fileira de crias. [Dois ou três anos depois de sair da mãe, ele e os irmãos foram levados a fazer pose perante a objectiva de um fotógrafo; arrumaram-nos em escadinha; e ele ficou no resto direito da fotografia – o mais novo; o mais pequeno.] Quando acabou o parto, feito de gritos e horas revolvidas, a mãe pôde ver um bebé de cabeça achatada, angular, que tinha, a guarnecer os olhos, pálpebras carnudas. Era Síndrome de Down; era, dizia o pai, ‘monguále’.
Não houve causa para alegrias: a família sobrevivia no meio de uma enxurrada por estancar de carências e aflições; eram muitas bocas para pouco pão; era muita canalha para tão pouca paciência. Mas também não foi caso para grandes tristezas: uma boca – rasgada – a mais, um crianço a mais – era o que Deus queria e seria o que Deus quisesse.
O menino cedo deu em resistir a estar quieto; corria muito, ria sem parar – fugia sempre, correndo e rindo, com a língua pendente da boca. A mãe dava os seus berros e mandava os irmãos alcançá-lo. [O pai sacudia os ombros.] Mas, enquanto fizesse barulho – de pés descalços sobre os chãos ou com gargalhadas –, sabia-se que a criança estava por perto, em lugar certo – percebida, ouvida, vigiada.
O primeiro pancume veio aos sete anos. O menino saltava, do lado de fora da janela da cozinha. De repente, parou. No quintal, ao lado de um toco de palmeira de onde agora brotavam ervas de cheiro, encontrou um melro preto; a ave estava rígida, de patas esticadas e papo para o ar; sobre as penas, que já se precipitavam em cinzento, pousavam moscas azuis e verdes; formigas entravam nas cavidades oculares e faziam as primeiras colheitas de provisões. [A morte estava fresca – mas depressa haveria de apodrecer.] O menino agachou-se e ficou deste feitio durante alguns minutos. Pegou na ave, correu até à cozinha e disse à mãe, que começava a desconfiar do silêncio: “Mã, olha.”
Foi o primeiro pancume que levou. [Partiram-lhe os dois dentes de leite que restavam.] Foi o seu primeiro – talvez único – rito de passagem.
A partir desse momento a sua crónica poderia ser contada, se houvesse alguém para contar – dia a dia, surra a surra, com rigor, em vários volumes –, tomando como capítulos as diferentes malhas. O menino sujava-se, levantava a saia às irmãs, caía e raspava os joelhos; o adolescente atacava os pratos de grão-de-bico que ficavam do almoço para o jantar, de libido danada e frenética deixava espalhados pela casa lenços húmidos, roubava umas patacas à carteira da mãe; o adulto não trazia o dinheiro inteiro dos biscates na vizinhança, roubava cigarros ao maço do pai, demorava-se na sexta-feira à noite, quando fazia coisas que os vizinhos bilhardavam, acelerados pelo desregramento moral. Fosse o que fosse, em idade mais tenra ou mais madura, sobejavam sempre razões para uma mão aberta, uma mão fechada, um vime, um bocado de pau, uma correia, um fio de luz… O pai dizia à mãe, sem variar, nas três idades: “Ah rapariga, calma, o pequeno é ‘monguále’, espera, ouve…” E podia dizer o que quisesse – na carnadura do pequeno haveria de saraivar.
O pai faleceu; depois foi a mãe. Em ambas as exéquias, os irmãos tiveram de tirá-lo logo do cemitério. De gritos roucos, agarrava cabelos, mordia canhotos, arrancava flores, jogava-se para o chão sob o féretro.

[Crónica publicada no JM, 26-V-2018.]

sábado, 12 de maio de 2018

Crónica 100 [Mães]

Nessa casa – nesse quarto – estava uma cama: um poiso nocturno de várias cabeças, de vários corpos – cinco crianças, uma mulher. [O primeiro sol do dia não entrava ainda pelas grossas gretas das paredes de blocos nus.] A mulher levantou-se, vagarosa, mas não conseguiu deixar de tocar com o calcanhar gretado na cabeça do filho mais novo. [O menino não despertou – ninguém acordou.] Tomou a sua única roupa, os sapatos ressequidos, uma mala parda – vestiu-se e municiou-se do pouco que ali havia. [Fez isto em silêncio – mas com uma pressa sôfrega.] Chegou-se à porta, abriu e tirou o cadeado, saiu; fechou a porta, colocou o cadeado por fora e fechou-o. Daí a um quarto de hora – calculou ela levantando a cabeça para os matizes da manhã anunciada – passava, lá em baixo no caminho, a camionete para a cidade. Ela ia apanhar a camionete.
Os meninos continuaram a dormir mais um par de horas. Acordaram e descobriram: que estavam sós, fechados, sem luz, sem água, sem comida. Vieram os brados, que trespassaram as paredes. A vizinhança e a família ouviram, entreolharam-se confusos e pasmados, rangeram os dentes, levantaram as mãos ao céu. Amaldiçoaram este caos moral; depois ajudaram as crianças; e esperaram, durante várias semanas, a volta da mulher.
Ela finalmente voltou; às palavras que foi sofrendo na subida do caminho, principiou de responder com rugas de embaraço; por fim, virou-se, retesou o corpo de orgulho [um tanto vacilante, diria quem pudesse reparar] e disse: “Ninguém tem nada a ver com a minha vida.”
*
A menina tinha esse mau hábito – em vendo um animal a dormir, aproximava-se no seu passo devagar, em jeito de emboscada; parava, agachava-se – e começava a afagar o bicho. Podiam ser cães, gatos, galinhas, patos, um porco num chiqueiro [uma vez]. [Quando esta história chegou a mim, lembrei-me que Jorge Luis Borges, num poema, dizia que entre os justos – entre as pessoas que «estão salvando o mundo» –, está «O que acaricia um animal adormecido.»]
A mulher que gerou esta filha, em face do perigo, nada mais podia fazer do que andar armada de vigilância constante. [Um gato arranhou, um dia, a menina; um cão tentou também mordê-la.] Repreensões não tinham efeito – nem uma desesperada palmada.
Na verdade, à filha esta mãe não poupava cuidados, atenções, carinhos e regras nutridas de boa civilidade. [Até aceitava – como ficou contado – um ou outro pequeno capricho ocasional, à laia de contraponto.] Mas nesta tarefa estava sozinha. O marido – o homem que lhe coube em sorte, num casamento contratado – não prestava os mesmos tributos à graça que Deus lhes tinha deparado. Até ver, era indiferente – e incapaz de ter amor e de mostrá-lo à filha invisível. 
De vigilante que era, a mulher tornou-se apreensiva. Algo mudara. A menina começou a acordar com pesadelos e a andar distraída, aborrecida, desobediente, desafiante. A missão educadora parecia estar a ser subvertida por algum agente do caos.
Num dia, a mulher chegou a casa – e viu. O marido – o pai – tentava forçar a filha à mais hedionda ignomínia. A mulher viu – e, resolvida e em silêncio, foi à cozinha; tomou uma faca; aproximou-se por detrás; e passou a faca na jugular do homem.
Quando as autoridades chegaram, ela estava a sossegar a filha, que finalmente adormecera. Levantou-se e disse: “Sim, fui eu. E tenho orgulho disso.”

[Crónica publicada no JM, 12-V-2018.]

sábado, 14 de abril de 2018

Crónica 99 [Desencontros]

Um homem pressiona o telemóvel contra a orelha direita; diz: “Oh pá, tem paciência, mas não falo mais com aquela gente. Não falo. Sempre que falo com eles parece que levo uma malha no juízo. Se quiseres, agora, vai lá tu e resolve.”
Um homem desce a alameda; vai pensando na altura do tratuário; um cão castanho, a farejar o ar, de olhos cobertos de capas opacas, vem do lado oposto; chocam ambos – o crânio do bicho contra a tíbia do homem. Continuam o caminho para onde iam.
Um homem entra numa tasca. O tasqueiro levanta e deixa cair o queixo, inquirindo com mudez. O freguês pede: “Um café de Setembro!” O ecrã da televisão é varrido pelas cores do filme ‘Alice no País das Maravilhas’ [ou seria ‘Alice do Outro Lado do Espelho’?], de Tim Burton. Todos os fregueses – cinéfilos involuntários – estão, ou acabam por ficar, atentos, submergidos, de boca entreaberta. Às perguntas do tasqueiro – “Mais alguma coisa?”, “Dentinho de favas ou de moelas?” – respondem os homens do lado de cá do balcão com um grunhido e um aceno de cabeça.
Na padaria, uma jovem mãe está sentada a uma mesa vazia. Põe a sua bebé sobre a coxa esquerda e enlaça-a com o braço esquerdo; estende este braço, depois o outro, agarra o smartphone e dentro dele fica perdida. A bebé vai lançando os olhinhos em redor, saltando, parando, vogando. Um homem barbudo, feio, enternecido como se alguém o tivesse puxado para outro lugar, começa a fazer caretas furtivas de brincalhão. A bebé ri.
Dois adolescentes – vagarosos, de olhos pesados e com ramelas – vão à cata de cotos de cigarros. Param num cinzeiro à porta de um edifício e começam a escolher. Levantam cinzas sopradas; tomam beatas secas, beatas com milímetros de cigarro por fumar – deitam umas ao chão, outras levam à boca e aos bolsos. Depois desta colheita, vão à procura de terreno mais fértil. 
Um homem, gordo e desconjuntado, vai em ziguezague pela estrada adiante. A cada passo fincado no chão, o maxilar inferior cai-lhe trémulo – como se estivesse na iminência de se desprender da cabeça. Para este homem nada mais existe senão o destino da sua jornada – se é que tem destino; se é que se trata de uma jornada. Não toma atenção a carros, motos, semáforos, sinais, outros peões – por onde passa tudo tem de parar, esperar, ficar suspenso. Não vê nem ouve ninguém – nem o homem que, dentro de um Toyota, o segue com atenção aguçada; nem a mulher que, dentro dum Ford, comenta para o marido: “Vê-me só aquele jeito. Há gente, mesmo, que não tem juízo.” [O marido, enfim, devolve: “Deixa ‘tar. Nã t’importes.”]
Uma mulher e um homem, conhecidos de muitos anos, encontram-se no passeio. Ela está com pressa; ele está com vontade de falar. Ele: “Então, como vão as coisas?” Ela: “Vai-se andando, e lá?” Ele [que se mete à frente de um passo fugitivo que ela deu]: “Olhe, isto é o diabo. Eu não sei p’ra onde é que isto vai. Já viu? É a saúde, o hospital, é as viagens, é os impostos. Mas isto vai mudar. [Ela parece que ouve mas está surda; um só pensamento chocalha na massa cinzenta: “Tenho de me ir embora p’ra casa pôr o comer ao lume p’rós pequenos.”] Tem de mudar – e vai mudar. Desta vez há políticos na oposição aqui – quer dizer, não é toda a oposição, já se sabe –, mas há deles que podem chegar ao poder. Mais do que podem: pela primeira vez, podem – e querem!” Ela: “Basta que sim. Bem, até à próxima.” E foge.
Assim vista – assim inventada, talvez, que vejo eu?, que sei eu? –, a realidade é feita de desencontros – de desencontros entre palavras, entre gente, entre vidas.

[Crónica publicada no JM, 14-IV-2018.]

sábado, 31 de março de 2018

Crónica 98 [Passagem]

Era um homem que só fazia o que lhe dava na gana.
Trabalhava o que havia a trabalhar – devagar, com um fio pouco amolado de brio, mal afiado de compromisso. De resto – pois, de resto, era cigarros, ganzas, noitadas, discotecas, mulheres e bebedeiras de focinho bem atacado e manhãs do dia seguinte de cabeça a pulsar como o badalo de um sino. Para um vintão, enfim, era uma vida de sonho.
A mãe dizia-lhe, a avó dizia-lhe, o tio solteiro – um valdevinos saído do mesmo molde que ele – dizia também. [O pai – o pai era morto.] Diziam-lhe: a juventude é boa, é p’ra se viver, mas cuidado – era preciso deitar sentido às coisas, pôr a cabeça no seu lugar, não descarrilhar, tomar responsabilidades. [Etc.] O tio solteiro acompanhava este discurso com sorrisos matreiros. [Era uma forma de se expressar – incompetente, sim, mas verdadeira na mensagem. O tio conhecia bem estes caminhos – porque, na verdade, nunca tinha tomado outras derrotas.]
Ele ia respondendo: “‘Tá tudo controlado. Não há problema. Não faço mal a ninguém.”
Um dia, o tio – que a espaços lançava mão do seu alforje de leituras mal digeridas – perguntou-lhe: “E neste tempo de passagem, o que vais andar a fazer? Encher as ventas outra vez, não?”. Ele: “De passagem?” O tio: “Sim, passagem, a Páscoa, crucificação de Nosso Senhor, ressurreição, passagem – de um lugar para outro, da morte para a vida.” Ele sorriu. O tio, depois de servir mais dois copos de uísque: “Tu nunca lestes a Bíblia, pois não?” Ele: “E o tio já leu? Tem lhe dado muito jeito?” – e riu-se. O tio: “Tu tens uma vida despreocupada, rapaz. ‘Tá bem. E não tens nada de que te arrependas?”
Ele ficou quieto: um estilete aguçado de memória tocou-lhe nas costas. Sem freio, contou ao parente mais velho acerca de um tormento.
Uma tia e um primo mais novo costumavam visitá-lo e à mãe. Eram pobres, tristes, nervosos, calados. A tia ficava a um canto – ouvindo as repreensões da mãe pelas escolhas mal discernidas. O primo mais novo procurava-o – entrava de manso no quarto, levado da curiosidade e da esperança de ter um amigo com quem pudesse jogar no computador. Ele, nessa sexta-feira, frustrado com qualquer frivolidade, irritado pelo incómodo, enxotou o primo com violência – fazendo-o embater, com as costas, na aresta aguçada do alumínio da janela.
“Primo?”
“Sai daqui!”
Isto contou ele ao tio. E o tio disse: “Para culpa, não é nada mau. Já é um começo.”
Era a Páscoa, de novo. Na sexta-feira, a mãe falava alto ao telemóvel. Ele perguntou: “O que é que se passa?” A mãe: “A tua tia ‘tá aflita e aos gritos. Teu primo levou p’ra casa uns gandulos – já não é a primeira vez – e ela não sabe o que fazer da vida dela.”
Ele ficou quieto. Depois levantou-se e disse: “Já venho.”
Pegou no carro, meteu-se na via rápida, virou na terceira saída, desviou-se de uma pedra e estacionou. Tocou à campainha, entrou, virou-se para o primo mais novo: “O que é isto? Não tens respeito? Manda esta gente embora.”
De repente, estava ao alcance de uma matilha de adolescentes furibundos de força mal medida – e o primo mais novo era um deles.
Uma hora depois chegava ele a casa – combalido e de lábio inchado. A mãe gritou: “Já viste o que te fizeram?” Ele deixou-se ficar quieto: “Não tem mal, mãe. Não se preocupe. Não me parece que eles soubessem o que ‘tavam a fazer.”
O sábado passou. No domingo, ele repetiu o caminho da sexta-feira. Encontrou o primo – triste, nervoso, em súplica. 
“Primo?”
“Não há problema, primo. ‘Tou aqui.”

[Crónica publicada no JM, 31-III-2018.]

sábado, 17 de março de 2018

Crónica 97 [o lar]

esta é a forja
sabes que podes ser tudo – tudo – o que te disserem para ser – o que te baterem para ser – és um entre vários – todos iguais – diferentes – os mais – ou os menos – importantes – deves confiar na identidade – no signo do martelo – que em ti forem gravados – todas as manhãs olha bem a tua testa – aí verás – assim terás – aceita todos os gestos – os trejeitos – os arremedos – são os elos sem princípio nem fim da comunhão – dentro e fora da forja – sai – mas não te esqueças de voltar – sazonal – destemperado – ao umbral da oficina – para seres retemperado pelo fogo – pela eclosão contra a bigorna – e um dia – premido entre as paredes – emparedado entre as superfícies – vais gostar do calor da fornalha – vais querer empunhar o martelo 
este é o ninho
voa – ou trepa – e entra de patas descalças e limpas – deita-te após substituíres alguns ramos podres – nunca te levantes sozinho para olhar as estrelas – desperta silencioso – cabisbaixo – lesto – sobretudo acorda igual – ao que sempre foste – ao que sempre te fizeram ser – lembra-te que não precisas de acordar como insecto couraçado para te fazerem cair – ou como larva para seres sugado – basta errares o teu lugar no ninho – ou debicares palavras – ou cresceres penas de uma outra cor
este é o cofre
confia nas aritméticas que compõem o sistema – o cifrão é emotivo e depois orçamental – ou vice-versa – mais é menos – e menos é mais – nada dá resto zero – tudo é debitado e creditado na tua folha – segredos e murmúrios – obrigações e cilícios – quartos e gavetas e celas – risos e esgares – lágrimas e sal na mesa – frustrações e facas serrilhadas – pratos esboucelados – os números misturam-se com os caracteres em moldes de cunha – e sempre chega o tempo da cobrança – no cofre – nesse cofre fechado por dentro – faz por ter as contas em dia – são caras as sete chaves – por isso ouve – ouve muito – diz pouco – ou nada digas – quando saíres – ou quando fores saindo – até tu cumprirás – não o negues – um auspicioso futuro de contabilista de sentimentos
esta é a fortaleza
levanta-te e desenha um mapa – a tracejado assinala todo o território inimigo – a fortaleza como ilha cercada por bárbaros – sobe às atalaias – vigia – se não quiseres ser tu o bárbaro ou o judas submerso nas catacumbas – insidioso de barba acobreada – limpa as facas dia sim dia não – deita-lhes sebo contra a ferrugem – contribui com pedras para a muralha – se não tiveres pedras o teu esqueleto servirá bem como substituto – os ossos afinal acabam por fossilizar e petrificar – presta tributo – presta sempre tributo – traz alimentos e vinho e água limpa – certifica-te – como competente fiel de armazém – que o aprovisionamento é basto e rápido – ou doa a tua própria carne – na fortaleza sitiada tudo acaba por ser aproveitado
esta é a casa
cada injustiça é uma desculpa para fazer injustiças – cada rancor eleva a pira dos rancores – cada grito de cria é mais uma flama a aquecer a casa – cada mecha de cabelos grisalhos é mais um espaço ocupado no lastro do poder
este é o lar
[e se assim não o for – faz de conta – há sempre benefício em ser vítima – em ser um carrasco justificado a haver]

[Crónica publicada no JM, 17-III-2018.]

sábado, 3 de março de 2018

Crónica 96 [Preconceitos]

Falemos de preconceitos – de preconceitos contra: tímidos; velhos; pilosidade abundante; calvície; gente que escapa a categorias simples; gordos; indivíduos que não são progressistas [leia-se – que não são “pá frentex”]; conservadores; indivíduos de direita; direitistas que não acrescentam logo – “Mas democrata!”; ilhéus; gente da cidade; gente dos subúrbios; indivíduos que não fazem piercings, tatuagens e colorações capilares; gente que carrega livros – e que os lê; solitários; quem não se importa com os preconceitos mais mediatizados – e mais diabolizados; quem não abomina os preconceitos mais mediatizados – e mais diabolizados; quem assume que tem preconceitos; quem mete os polegares nos bolsos; quem mete as mãos inteiras nos bolsos; indivíduos que não têm “personalidade forte” [leia-se – que não são rudes e caprichosos]; avarentos; poupados; indivíduos que assobiam em público; quem conta piadas amarelas; quem ri de piadas amarelas; quem ri com estardalhaço; corcovados; desengonçados; feios; cicatrizes; quem tem calma; quem não tem calma; quem olha nos olhos; quem olha com intensidade; desastrados; indivíduos que têm sotaque; loquazes; calados; quem não se limita a ouvir; quem não atura queixumes; gente que dá conselhos sem pedido e aviso prévios; competentes arrogantes; competentes humildes; competentes que exigem competência; enfim; católicos; melancólicos; padres; bons sermões; padres celibatários; celibatários em geral; quem defende a disciplina do celibato para os padres; a bíblia; uma biblioteca; fumadores; viciados em substâncias mortíferas e sujas; viciados em hábitos mortíferos e sujos; carne mal passada; pessoas que comem carne mal passada; pessoas que comem carne; curvas – barrigas, rabos, mamas; gente que nomeia, arrola, descreve e analisa; gente que mostra que, no comércio dos preconceitos, há vários mercados, produtos e redes de distribuição; palhaços; o horrendo; cronistas que não escrevem sobre os dias correntes; cronistas que escrevem sobre coisas estranhas e esquivas; cronistas que não fazem parágrafos; quem não se assusta; quem sorve a sopa; quem não se indigna; gente de origens humildes; pobres altivos e orgulhosos; pobres mal-agradecidos; ponderados; homens e mulheres que dizem sempre – “E quem é que vai pagar isso?”; descrentes; descrentes ou ateus plácidos e tranquilos; gente que não odeia; homens que se levantam quando chega uma mulher; mulheres que não se levantam quando chega um homem; pessoas que não dão mimos materiais a crianças; pais ordeiros; pais solteiros; indivíduos que não gostam de animais domésticos; axiomas e aforismos; quem escreve axiomas e aforismos; quem não acredita em axiomas apócrifos e disseminados nas redes sociais; indivíduos que desconfiam das redes sociais; a história – a memória – o passado; línguas mortas; mortos; gente que vai morrer [“Ave, populus, morituri te salutant!”]; a morte; preguiçosos; listas; gente que sabe – ou inventa – coisas e que as declama como listas; indivíduos que contam, dissecam e inventam histórias; gente que escolhe a barricada errada; gente que peca do lado errado; mulheres e homens que não são feministas; homens; mulheres; heterossexuais; indivíduos que não falam de sentimentos; indivíduos que não falam dos seus sentimentos; cerimónias e formalidades; indivíduos cerimoniosos e formais; indivíduos que não usam eufemismos e jargões; indivíduos.

[Crónica publicada no JM, 03-III-2018.]

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Crónica 95 [Destino]

Há um funcionário medíocre, encafuado por detrás do balcão entre impressos a esvoaçar pela repartição, de olhos vesgos e beiças brutas; amiúde, lembra-se ele do aluno brilhante que tinha sido outrora.
Há um homem levado sempre ao colo – do hospital onde nasceu aos corredores do emprego e do partido –, escondido do seu próprio demérito, à força de cunhas metidas e palavras de patrocínio; esse homem acabou por ser diligente, bondoso, afável – uma fonte de serviço útil e benfazejo aos seus pares. 
Há uma mulher que sonhou com a maternidade – mas que só pode ser mãe para os sobrinhos, os amigos, os pais, os tios.
Há um aluno que partia pernas de cadeiras, que pintava mesas e paredes com “gamses” de cores desfalecidas, que batia nos mais moços, que fugia das professoras e da mãe, umas e outra de régua e cinto na mão – e que veio a ser um empresário de sucesso, benfeitor da comunidade, parlamentar de verbo torneado e aguerrido.
Há uma família modelo – filhos que obedeciam e respeitavam, mãe que dirigia e cuidava, pai que protegia e providenciava; anos mais tarde, as fundações da família caem em ruínas para dentro da casa – um filho racha a cabeça a outro filho, por causa de dinheiros a haver e partilhas quebradas; toda a prole tem por desporto verbal predilecto jogar as culpas da vida envenenada para cima dos pais velhos divorciados de fresco.
Há um pai que bebeu, gastou, roubou, insultou, maltratou, que desapareceu – e apareceu corroído de tumores nas entranhas podres; no hospital, a filha visita-o todos os dias – constante vigilante à cabeceira; a filha junta as suas lágrimas às do pai.
Há um amigo que é amigo, que diz que é amigo, que sempre soube o que era o melhor para os seus amigos, que por eles fazia e faz tudo – mas que não tem amigos.
Outro homem, desde o início, não se importa com amigos – calcula e dispõe, selecciona e desgasta, faz dos outros instrumentos; a este homem não faltam, porém, auxílio, dinheiro, favores, refúgios de portas abertas e caminhos atapetados de escarlate. [Quem uma vez disse que este rei ia nu – que todos viam, cegos, vestes de seda dourada onde só havia nudez e artifício – foi de pronto proscrito.]
Finalmente, há um homem que cresceu numa casa onde as bebidas alcoólicas corriam mais abundantes que o leite – que a água. Pensou, decidiu-se – disse-o até, um dia, em voz alta, sozinho: nunca. Hoje emborcava – sozinho, escondido, plácido, pacífico – quase uma garrafa de uísque por dia.
De um ponto a outro ponto estende-se uma linha – o mais direita possível para que se possa extrair um sentido desta geometria, desta vida. O ponto de partida tem já em si – iludimo-nos nós, eternas crianças – o gérmen da chegada. Mas a verdade é que não: não há conclusões tiradas inscritas previamente em premissas oferecidas; não há berços dados que correspondam a caixões determinados; não se sabe aonde se vai chegar – não se sabe, por vezes, de onde é que se partiu. Pontos / linhas / direituras / sentidos / partidas / chegadas / premissas / conclusões – meras ilusões. [Ilusões e filosofia de três tostões – como a que está nesta crónica feita de pressa e frivolidade.]
A verdade é que não temos destino.

[Crónica publicada no JM, 17-II-2018.]

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Crónica 94 [Subidas e Descidas]

A procissão fúnebre descia as escadas abicadas sobre a vila.
Levava à testa um homem, que ia dizendo dos cuidados a ter nos degraus frios e sem medidas certas. Depois, iam quatro crianças – três meninas, um menino –, vestidas de branco, que na lonjura lá em cima haviam-se ajudado a um pequeno, ainda que pesado, fardo. Sobre os seus ombros equilibrava-se um caixão, branco por fora, por dentro perfumado de flores, com um menino morto – um anjinho ido para o céu.
A tarefa não era fácil: suportar uma carga era uma coisa – suportá-la com gravidade, outra. As mães disseram aos infantes que haveriam de levar o esquife: “Juízo” / “Tento na língua” / “Não façam barulho” / “Vão com respeito” / “Livrem-se de rir” / “Cuidado para o caixão não virar e cair”. Na descida da calçada feita de calhaus, porém, os pés doíam, o peso mordia os ombros, o sol abrasava, o aborrecimento entrava franqueado nas jovens mentes.
Três meninas e um menino, pois. Ele, travesso e irrequieto, afinal o irmão mais velho do bebé falecido, levado de um impulso que desafiaria qualquer compreensão adulta, experimentou descer o ombro esquerdo e empurrar devagar, com a mão direita.
O caixão virou, caiu, abriu-se, descobriu o pequeno defunto. As crianças riram-se – nenhuma reação seria, ao princípio, mais natural e instintiva. O adulto – o pai – apressou-se a compor esta descompostura, mastigou em seco e, com transtorno, contraiu a cara enxuta de lágrimas inaugurais.
Aí terminavam as escadas. Mais adiante ficava o cemitério.
*
O menino que sobreviveu ao irmão cresceu.
Saiu como saíam os homens da sua família – da mesma amassadura, da mesma fornada. Era baixo, ensocado, rijo, de pele queimada – e de apetite por zaragatas e brigas. Trabalhava com um objectivo: avaliar as cifras de dinheiro que vencia pelos copos de aguardente que podia pagar na tasca do regedor. [Se ganhasse bebia – se não ganhasse não bebia. Não queria fiados – não admitia róis. A honra é assim: eleja-se a que mais convier; feita a escolha, não há avanços ou recuos – não há subidas ou descidas.]
Não se metia com ninguém – mas dava as boas vindas a quem o apoquentasse; uma vez enterrou uma curta navalha de que era inseparável – uns cinco centímetros de gume – na barriga de um abusador, que foi para casa de mãos tensas a estancar o sangue.
Levava, na freguesia, esta vida simples, sem remorsos ou arrependimentos. 
Um dia um trastalhão – quase dois metros de altura, cento e tal quilos – entendeu em pegar com ele, na tasca. O nosso anti-herói disse: “És grande, mas não és dois.” [Por poucos minutos houve tréguas silenciosas.] Depois de sair à porta da tasca, reparou que estava a ser seguido. Desta vez, escolheu controlar o apetite e ser cauteloso – caminhou para as escadas que, da vila, subiam até ao seu sítio, lá em cima. O perseguidor ia zombando: “‘Tás a fugir? Tens medo? Não fujas!”
Ele galgou os primeiros degraus e disse: “Agora podes vir. ‘Tou aqui. Não fujo mais.” Nestes segundos, neste local, o limbo da memória abriu-se e invocou a imagem de um caixão a cair. [Seria um primeiro remorso? – um remorso inaugural?] Ele sacudiu-se. Puxou da navalha e esperou para usar da vantagem de estar em terreno mais elevado. O gigante subiu, imprudente – e ele, desviando-se de um soco, vibrou a lâmina. O outro, golpeado na têmpora esquerda, ficou estonteado, perdeu o equilíbrio, caiu, e durante as horas seguintes cobriu de sangue este trilho de subidas e descidas. 

[Crónica publicada no JM, 03-II-2018.]

sábado, 20 de janeiro de 2018

Crónica 93 [Um Diálogo]

Filipe – O que fazer, então, quando a esterilidade nos entorpece?
Dinarte – Não sei.
F. – Mas percebes o que quero dizer?
D. – Penso que sim. Não sei.
F. – Esterilidade e torpor – uma redundância. Não é?
D. – Pode ser.
F. – Se calhar ‘tás a pensar – “Este acordou com os pés de fora do ano novo”. Não?
D. – …
F. – Projectos, ideias, sonhos – tantos. Como manter a cabeça à tona?
D. – À tona?
F. – De água. À tona de água.
D. – Não sei.
F. – Como realizar, entre milhares de ideias enxundiosas, pelo menos uma, enxuta, consequente?
D. – Enxundiosas?
F. – Sim.
D. – Pois. Não...
F. – … Tu, por exemplo, há quanto tempo não escreves um verso?
D. – Tem tempo, tem algum tempo. Exactamente quando, não sei dizer.
F. – E porquê?
D. – …
F. – Não sabes dizer.
D. – Não, não sei. Quando nada há para escrever, que posso eu escrever?
F. – Pois. Há horas assim.
D. – Como esta.
F. – Como esta?
D. – Sim. Quer dizer, não sei.
F. – Amaldiçoada esterilidade de tempos de paz.
D. – Amaldiçoada esterilidade de tempos frívolos – de tempos de guerra surda.
F. – Uma maior precisão nos conceitos – muito bem.
D. – Precisão dos… É possível. Não…
F. – … Não sabes. 
D. – Não.
F. – Há alguma coisa que saibas?
D. – Ninguém sabe nada de relevante quando as perguntas estão mal formuladas.
F. – É o meu caso. A questão da esterilidade.
D. – Talvez.
F. – Esta conversa ressuma penúria.
D. – Bom sinónimo.
F. – Sinónimo?
D. – Esterilidade; penúria; infertilidade; escassez.
F. – Torpor; inércia; langor; prostração.
D. – Isso é outra coisa.
F. – Este diálogo é um beco sem saída.
D. – Não sei. Parece-me, sim, uma estrada sem fim.
F. – E então?
D. – E então – continua.
F. – P’ra onde?
D. – Não sei.
F. – Mais uma linha – mais uma deixa – mais uma inutilidade.
D. – Menos uma leitura.
F. – Não tenho lido nada.
D. – Se não leres, não te é dado o direito de escreveres.
F. – Como assim? Direito dado por quem?
D. – Não sei.
F. – Penso que percebo o que queres dizer. É assim o mundo – cheio de escritores – vazio de leitores.
D. – Bem… Não sei.
F. – Mas é interessante essa ideia – uma relação matemática entre leitura e escrita. 20 000 palavras lidas dariam direito, sei lá, a 500 ou 600 palavras escritas. Seria uma contabilidade por partidas dobradas, lançada num livro – a um lado o débito, a outro o…
D. – … ‘Tavas bem lixado, nesse caso.
F. – ?
D. – Não é essa a medida, quase 600 palavras – 3000 e tal caracteres –, de cada uma das tuas crónicas? Partindo do princípio de que são crónicas.
F. – Não são?
D. – Não sei.
F. – Estávamos ambos lixados, na verdade.
D. – Não sei.
F. – Tu fazes afirmações inusitadas, cirurgicamente inusitadas, e depois desfias um rosário de indefinições.
D. – Não sei. Talvez.
F. – Assim como o pirómano que ateia um fogo e depois fica, em deleite, a contemplar o espectáculo, negando qualquer responsabilidade.
D. – Não sei. Em todo o caso, as cinzas sempre podem ajudar a fecundar a terra – ou o papel…
F. – … Em todo o caso, aprecio estes diálogos contigo, a sério que aprecio. Temos de combinar o próximo.
D. – OK. Quando?
F. – Não sei. Depois combinamos.

[Crónica publicada no JM, 20-I-2018.]

sábado, 6 de janeiro de 2018

Crónica 92 [Palavras]

São simples, não custam nada, estão aí prontas a usar – as palavras dos últimos dias correram, e correm algumas ainda, desemaranhadas e crédulas. [Feliz – Santo – Bom – Natal / Boas – Festas – Entradas – Saídas / Feliz – Bom – Excelente – Ano – Novo.]
Com elas, com elas apenas, vem locupletada a promessa de mudança – assim pensamos, numa época que não se quer melancólica, preocupada, prosaica; e assim ficam descansados e encantados corpos, bolsos, consciências e razões.
Mas palavras há que são engodo, engano, evasão e álibi.
Eu não quereria trazer à liça a impertinente – equivocada e ilusória – destrinça entre palavras, ditas e escritas, e acções. Mas para esse caminho vão, sem cessar, os meus passos mentais – porque nunca, até hoje, alcancei mais e melhor. [E o que alcanço digo-o agora – lá está – em palavras de crónica.]
Mas parece-me que a verdade é esta: dizemos e escrevemos [– e infectamos o silêncio]; controlamos e domamos as palavras; aligeiramos, deste modo, a imperiosidade e o controlo dos actos; esquecemo-nos de fazer, de agir, quando o ar é agitado por votos e pregões beatíficos e bem-querentes; pomos ditos e escritos a fazer as honras da casa, a fazerem a vez – a serem competentes simulacros; livramo-nos de fardos que haveriam de pesar uma vida inteira no prato menos polido da balança.
Ouve-se e lê-se – ou melhor, ouço e leio – e, Deus me perdoe, não consigo deixar de pensar: que quem somente tem palavras nada mais tem – e, com efeito, de nada mais necessita; que há homens e mulheres que desfraldam muitas palavras – e cuja conduta constitui a melhor refutação para as palavras desfraldadas.
Nesta Festa – porque já vou ditando esta crónica aos dedos como quem dá a mão a Sísifo, viro aqui o meu leme – vi coisas de que quero falar.
Vi um sacerdote idoso, numa igreja, a ensaiar crianças com cordofones sobre os colos. De dedo descaído solicitava atenção, pedia a afinação de uma corda dupla, ajuizava do acerto de uma melodia tocada a solo. Falava, mas falava pouco. De velhas mãos maestras, num lado, e de dedos novos a calcar cordas e braços de madeira, no outro, haveria de brotar música.
Vi uma criança a fazer festas na cabeça e na cara de um primo mais velho – bem mais velho, à beira da uma quarentena de anos. Não era costume – não tinha sido costume nos últimos anos – e o homem ficou perplexo, incomodado até, mas não se atreveu a dissuadir o infante.
Vi outra criança que não se importou de receber uma prenda poucochinha e utilitária – duas folhas de dinheiro, simples e coloridas na sua frieza. Vi a criança agradecer como se grande oferenda fosse – e agradecer usando palavras tão-só como acrescento, como reforço.
Vi um rapaz dar um bocado de bolo de chocolate – penso que era bolo; e seria de chocolate – a um cão abandonado que abocanhou a dádiva completamente.
Palavras há que são empecilhos.
E há palavras que trazem, na Festa, advertências e alertas – como muitos sentirão – inoportunos. Escutei uma mulher dizer que as pessoas são esquecidas; e que lhes fazia bem lembrar e conhecer as fomes e os abusos de algumas elites sebosas e abrutalhadas que havia antigamente. 
[Já me ia no esquecimento – no que toca ao direito e ao dever de desejar, para mim e sobretudo para vós, também sou gente, também sou filho de Deus. Portanto – um Bom Ano Novo.]

[Crónica publicada no JM, 06-I-2018, p. 15.]

domingo, 24 de dezembro de 2017

Crónica 91 [Tempos]

Sei que sou madeirense porque penso no tempo da Festa – ou, se mais vos aprouver, do Natal – o ano inteiro. [Talvez a minha espécie esteja em vias de extinção. Não sei.] E, agora que festejamos, dei por mim a pensar em outros tempos – dentro e fora da Festa.
Com efeito, volta e meia, é isto que acontece: a minha infância dá de caras com este eu bojudo, barbudo e careca. E não sei o que dizer. Quero falar, o menino que fui também quer falar, mas parece que não nos entendemos – porque não falamos já a mesma língua, porque fazemos as perguntas erradas, porque ficamos emaranhados num jogo de culpas dadas e arrancadas.
“O que andas fazendo, Mascarilha? Andas esquecido de mim?”
“O que estás a fazer, Fantasma? Deixa-me da mão!”
Na segunda metade da década de 80, um menino ficava horas – horas, sim, digo-o sem hipérbole – de olhos colados a uma montra no final da Rua Ivens. Via e estudava e comparava uns bonecos de acção, paradigmas de estilo e de bravura bélica – concentrados em pouco menos de 10 cm de altura e petrificados em invólucros de cartão e plástico transparente. Mais tarde, quando pôde, o rapaz foi usando a semanada completa para comprar um ou outro ‘G. I. Joe’. Depressa, porém, fugiu-lhe o entusiamo por entre os anos da idade que ia a galope. E a esta fuga juntou-se uma tristeza inexorável – que o rapaz tentou mitigar interrogando as caras mumificadas dos bonecos. Era uma tristeza de quem chega tarde.
A meados da década de 90, um adolescente regressava a casa, numa noite, após um dia de escola e de trabalho. Ia sentado, numa das cadeiras de plástico do fundo solitário do autocarro amarelo, moldando o corpo aos solavancos. Deu por si a pensar no dia, na noite, na vida. [O que pensou ficou-lhe sulcado na mente – como se de repente um prelo tivesse começado a imprimir ou uma chama tivesse lavrado uma queimadura; por isso, quando quer, quando não quer, este jovem é sugado de volta a essa noite.] Pensava que estava cansado, combalido, que estava sozinho – e que havia graça e bondade em estar cansado e em estar sozinho para desfrutá-lo. Pensou que era merecedor de um resto de noite de descanso, que havia contentamento apesar de descontentamento – e que, no futuro, voltaria às curvas cada vez mais difusas desta Estrada do Visconde Cacongo, a caminho do Jardim Botânico, a caminho de uma casa que hoje está soterrada.
Coloca-se a ficha na tomada e surgem as vestes luminosas do pinheiro de Natal. São as luzes de 2017 que olhamos – e são as luzes de 1987 que nos olham de volta. Os olhos piscam com as gambiarras e com a luz do filme na televisão – e rapidamente ficam cansados. [É uma maçada.] Desligamos o pinheiro até acabar o filme. Ligamos. Desligamos quando o sono desmerecido sobeja – há que poupar na conta da luz porque, na verdade, a vida está difícil. [Em 1987, em 1997, as luzes ficavam a fazer companhia ao Menino Jesus no presépio.]
Passam os anos, passam as Festas [ou os Natais]. Mudam os marcos do tempo, muda a substância do tempo – tiramo-lo de um lado para pôr noutro, subtraímo-lo além, acrescentamo-lo aqui. Mas o resultado deste cálculo parece ter um destino inexorável: diminuir, chegar a zero, desaparecer – assim como vi desaparecerem os entusiasmos, os contentamentos, de outrora.
“O que andas fazendo, Mascarilha? O que estás a fazer, Fantasma?”

[Crónica publicada no JM, 23-XII-2017, p. 17.]

sábado, 9 de dezembro de 2017

Crónica 90 [Reencontro]

A mulher jovem ouviu a chuva miudinha cair sobre o colmo – um reencontro após poucos dias. Ela foi até o umbral, viu o pó do terreiro afogar-se, lento, na água, aconchegou o abafo e voltou para dentro.
Saiu à porta logo depois, de cabeça descoberta, desimportada da chuva. Virou a esquina da casa, estremeceu os ombros de frio, e começou a subir a vereda lamacenta. Ia descalça.
No corpo o orvalho ia-lhe pousando – àquela luz da manhã peneirada por uma malha de névoa, parecia que lhe cresciam pérolas brilhantes no rosto e nos cabelos. A bebé que levava nos braços – uma pequenina larva, dir-se-ia, comprimida como um casulo no melhor pano de linho que havia – contraía as pálpebras e as bochechas tenras ao toque das gotículas que caíam.
Ela calcou a fofa terra de um poio, no alto, e parou. De olhos – e lábios – deitados a um fundo precipício, olhou a bebé e apertou-a contra si – corpinho contra peito, carinha contra cara e ombro. Ajoelhou-se e aconchegou o recém-nascido dentro de um rego entre camalhões. Levantou-se, foi até o poço que ficava próximo do bardo e olhou para o fundo. Naquele momento, a água enfeitada de auréolas irrequietas furtou-lhe um último reconhecimento. Não importava – sabia que era dormência, dor pasmada, cabeça vazia de cismar; fora isso, ela não era nada, não reconhecia consolo, não se reconhecia.
Deixou-se cair ao poço.
A bebé acabou por abrir os olhos de avelã – que se esquivavam, o melhor que podiam, à chuva. Depois, um pequeno cão – uma cadelinha velha –, de quadris escalvados de sarna e faro experimentado, achegou-se. Cheirou o tubinho amortalhado de carne humana quente que estava na terra, virou a cabeça e deitou-se ao seu lado. Quando a bebé começou a chorar, a cadela lambeu-lhe a testa e as fontes.
Um outro cão – um canzana imundo, faminto – rondou, de faro confundido pela chuva, e arreganhou todos os dentes. A cadela rosnou – e bastou pôr-se sobre as patas para que o outro cão escondesse os caninos e fosse embora com um ganido submergido.
Oitenta anos depois, uma avó falava à neta. Ainda que sabendo das histórias que sempre correram na família e na terra, falava-lhe da sua origem, da sua agrura primordial, da sua mãe desaparecida.
«É verdade, filha, foi assim. [A neta contraía as pálpebras para que as lágrimas não corressem.] Não tem mal, filha. A vida é como é. Eu fiz o que pude – crescendo sem mãe. As pessoas contavam – contaram-me de como foi. Sei que foi num poço – e depois as pessoas falaram de um cachorro que estava ao pé de mim quando o meu pai me encontrou. A minha mãe... – como é que se diz hoje? Deve ter tido uma depressão – uma depressão depois do parto. Ninguém deve ter compreendido. Sabes como é, naquele tempo, a minha mãe teve-me sozinha, agachada no palheiro, sem nada, sem ajuda, sem cuidados… Aquilo era uma miséria. E logo no dia a seguir era preciso fazer a vida, andar na fazenda. A dor tomou conta dela – e ela não sabia dizer, e ninguém ia saber ouvir. Coitada da minha mãe… Não importa, filha, não chores. Eu fui – eu penso – boa filha para o meu pai, boa mulher para o teu avô, boa mãe, boa avó. [A neta soluçou.] Eu criei uma família de gente boa. Eu estou orgulhosa. Agora, só peço a Nosso Senhor que me leve – eu estou cansada, filha, Nosso Senhor que me leve. Eu penso que fui uma pessoa recta. Acho que mereço o céu. Eu só quero, depois de morrer, dar um abraço e um beijinho à minha mãe.»

[Crónica publicada no JM, 09-XII-2017, p. 15.]

sábado, 25 de novembro de 2017

Crónica 89 [Salvação]

O homem estava sentado, de queixo pregado ao peito. Uma mulher, de gadelha cor de prata que brilhava no escuro, cingia completa, de corpo e sombra, este homem – sobre ele lançava fumos, rezas, cânticos e esgares. No fim desta liturgia semanal, disse a velha pagã com voz cava e prenhe de salvação: “Vai. Está tudo bem. Não vais voltar ao que estavas.”
O médico batia com o punho na testa, com arremessos crescentes. Naquela noite, assim como nas últimas noites, virava páginas, lia com sofreguidão, tirava outros livros das estantes, esventrava-os com furor. Mas nada encontrava. Disse: “Foda-se, que raio de doença é que aquele estupor tem?” No cume da fúria, varreu a mesa de trabalho com o braço direito, atirou-se aos dois armários de madeira e lançou-os ao chão. [A mulher encontrou-o, depois, encalhado entre manuais de anatomia e fisiologia.] Semanas e meses haviam rodado – mas nada sabia sobre aquela doença. Não tinha diagnóstico – e não tinha cura. Na manhã seguinte, saiu do gabinete para falar com a família do seu doente. Disse, subindo os braços como quem desiste, como quem tenta lançar um pássaro ferido ao voo: “Não sei. Nunca vi coisa igual. O melhor, de facto, o melhor será vocês levarem-no.” O doente foi levado a uma velha de cabelo cor de prata.
O homem doente deu entrada no hospital e logo ficou agrilhoado à cama. Na noite anterior, na primeira vez que sentiu as vísceras a arder, jogou-se para o chão e começou a esticar e a contrair o corpo como se fosse um peixe a quem roubaram o oceano. Os familiares ficaram horrorizados – rogaram a Deus e aos santos, agarraram-no, abraçaram-no, protegeram-lhe a testa, tentaram deitar-lhe pela garganta abaixo infusões e chás. Mas nada resultou. No hospital, o homem entrou num processo – incógnito, impenetrável – de consumpção centrípeta. Definhava, sumia, mingava, secava, mirrava – e a pele, cada vez mais pregada às dobras dos ossos, ia de trigueira a pálida, de amarelada a lívida. Tornou-se um cadáver que, por enquanto, respirava. O médico que ficou responsável – um dos melhores daquela terra – fez o melhor que pôde para estancar esta sorvedura de ânimo vital.
O homem olhou para o relógio e disse: “Bem, por hoje já dá.” [Um colega acrescentou: “É verdade – a gente vai-se embora deste mundo e ainda fica aí tanto trabalho p’ra fazer.”] Sacudiu à chapada o pó das calças e da camisa, pousou o capacete e saiu do estaleiro. Ao chegar ao pé do carro, encontrou uma antiga namorada. Ficou agastado – e desconfiado. [Tinha sido ele a terminar o namoro.] A rapariga cumprimentou-o, perguntou-lhe pelas andanças da vida, ajuntou mais umas palavras e disse que ia dali para casa. Ele – “boa pessoa, uma jóia de rapaz”, diziam os amigos –, dissipada a desconfiança, ofereceu-se para levá-la a casa. [Afinal, ficava a caminho.] Chegaram: ela saiu do carro; ele quis arrancar logo. Ela parou-o e ofereceu-lhe um refresco. Ele recusou. Ela insistiu. Ele hesitou. Ela disse que não havia nada de mal – que águas passadas não moviam moinhos. Ele entrou em casa dela, bebeu o refresco [uma aguadilha amarelada e xaroposa], agradeceu e foi-se embora. Quando descia, naquela hora parda em que os coelhos saem da toca, não pensava em nada de específico. Antes de chegar a casa lembrou-se, porém, do que dissera à rapariga no fim do namoro: “Não te quero nem p’ra minha salvação.”
No dia seguinte, a família levava o homem, a estrebuchar, para o hospital.

[Crónica publicada no JM, 25-XI-2017, p. 17.]

sábado, 11 de novembro de 2017

Crónica 88 [Memórias]

Dizia o pai: “Vou-te dar uma malha que eu vou-te lavar com vinagre.”
E o rapaz ficava arregalado e entontecido por um cheiro azedo que lhe subia pelas narinas até aos mistérios esconsos da massa aprendiz do cérebro. Imaginava também que ficava, numa picota armada no quintal da casa, de pulsos amarrados e enredados acima da cabeça, a sentir o corrimento do vinagre que o pai lhe esfregava, com diligência de cartógrafo, nas costas descobertas e coaguladas de vergões. [Anos mais tarde, alguém movido de piedade explicou-lhe o propósito: o vinagre serviria para aliviar e limpar a pele da dor e dos hematomas.]
Em abono da verdade, diga-se, nunca aconteceram – nem a malha; nem o posterior banho caridoso de vinagre.
Mas a ameaça, nos anos que se seguiram, rebentava-lhe nos ouvidos e trepava-lhe o nariz nas situações mais inesperadas: quando conduzia; quando passava a esfregona, torcida em água com lavanda, pela casa; quando olhava para uma criança irrequieta. Enrugava as pálpebras, passava a mão esquerda sobre a omoplata direita, abria depois os olhos e procurava, combalido, uma cadeira. Sentava-se; esperava; respondia com grunhidos a quem lhe falava do lado de lá da cortina de som; levantava-se; sacudia a cabeça; e ia à sua vida.
Era um sobressalto costumeiro – que foi, porém, esmorecendo, perdendo força como quaisquer memórias da juventude, escarificadas dos anos, cansadas de serem, afinal, assaltos nas horas mais inesperadas.
Ele, outrora jovem, agora adorava vinagre – comprava-o de sidra com extracto de rosas, por exemplo; tomava três ou quatro gotas diluídas num copo de água, em jejum, pela manhã; encharcava saladas e a carne de vinho e alhos.
*
O homem tinha uma bancada de fruta, no centro da cidade, e esperava, mastigando com enfado, clientes complacentes. À hora de ponta, algumas senhoras compraram pêssegos e uvas. Outra exigiu tabaibos bem descascados: o homem levou a mal, cortou a direito um dos frutos, separando mais carne que casca; a senhora irritou-se, despejou o que já estava no saco transparente e saiu dali.
O homem suspirou, concorrendo em entoação com os travões hidráulicos de um dos horários que passavam.
Pousou as mãos sobre as laranjas e esperou o próximo cliente. Outro homem aproximou-se e disse: “Olha, amigo, dás-me um pêro?” Ele olhou, filtrou os olhos, julgou o aspecto do ente que lhe havia surgido do outro lado da barricada – um boné dos ‘Chicago Bulls’ e nada mais de insólito –, tomou um pêro gordo e pesou-o. “É tanto.” O outro disse: “Não, amigo, dás-me? Não tenho dinheiro. Tenho fome.” Ele disse: “Tem paciência, pá. Não posso oferecer.”
O pedinte desfez-se em ameaças: que lhe rebentava com a barraca; que lhe dava uma malha; que lhe partia os ossos tão rapidamente que nem sequer iria ouvi-los estralar. Prometia – e, enquanto prometia, afastava-se, andava, fugia, corria. Quanto mais longe estava, maiores eram as desgraças prenunciadas – as quais contemplaram, inclusive, o término da vida do ameaçado.
O resto do dia passou. O vendedor, confuso, chegou a casa, sentou-se à mesa e esperou o jantar. A mulher serviu-lhe atum de escabeche. Ele olhou, cheirou, tocou com o garfo e disse: “Desculpa. Não tenho fome.”
Foi-se deitar. Uma noite inteira e não conseguiu dormir: os olhos arregalados de memórias iluminaram, sozinhos, o quarto de escuridão.

[Crónica publicada no JM, 11-XI-2017, p. 17.]

sábado, 28 de outubro de 2017

Crónica 87 [A Escrava]

Quando as labaredas saltaram, naquela casa de perdidos, do fogão gordurento para os lençóis da enxerga, nela estava deitado um menino. O fumo declarou-se através das grossas frinchas da porta sem tranca; alguns vizinhos entraram, levantaram a braços a criança – a quem o fumo não acordou –, saíram, encostaram a porta e deixaram aquelas paredes arder.
A mãe não estava ali – estava longe, na folgança, participando de uma vertigem danada de copos de vinho, a meio de vultos sedentos – quanto mais emborcavam, mais sede tinham para emborcar.
Interveio o Estado. O filho foi retirado à mãe. A mãe foi encerrada numa instituição para doentes mentais. [E o pai – na verdade, o pai não existia; era um qualquer, segundo a mãe que o dizia sem comoção.]
Na casa de saúde fizeram-lhe um diagnóstico – deram-lhe uma sentença como um estigma, gravado nela com um ferrete. Primeiro disseram: era incapaz, negligente, no cumprimento dos deveres parentais – em poucas palavras, má mãe. E depois acrescentaram: era promíscua, ninfomaníaca – e, nessa época, fora e dentro dos muros dessa prisão asséptica, ser ninfomaníaca equivalia a ser louca, privada de asserto, daninha, pecadora, endemoninhada. Portanto, ela era o diabo personificado – e de saias.
[Cá fora, antes e depois, os vizinhos diziam o mesmo, ainda que por palavras de lama e de lodo. Por vezes é isto que acontece: a ciência não acrescenta nada – e só confirma estereótipos e julgamentos e condenações sociais.]
Surgiu uma alternativa. Ou ficavam mãe e filho presos na máquina fria e concentracionária da assistência estatal – ele órfão; ela louca; ou ambos ficavam à guarda de uma família tutora – que, para manter sempre vivo o seu louvável espírito de caridade cristã, teria o prosaico incentivo de receber um subsídio. Optou-se pela segunda via.
A partir daí começou a escravatura.
Todos os dias ela começava pela cozinha, na madrugada fresca, e preparava a primeira refeição, depois de varrer e esfregar. Comia depois de todos os outros comerem. Passava aos quartos de dormir da família – pais e filhos, um magote de gente a ordenar e para servir – e limpava, arrumava, brunia. Assim ia, enfim, de quarto em quarto, compondo e lavando, antes do almoço. Fazia o almoço – e só comia, na cozinha, sozinha, depois de toda a gente comer. A tarde era gasta em outras tarefas, dentro e fora de casa. Por exemplo: era preciso acartar sacos de cimento para vestir paredes – e ela ajudava-se à carga; era preciso mudar a fralda e dar banho a uma idosa da família – também para isso estava ela ali. Não tinha tempo para se sentar, para uma apara de conversa, para alguns minutos de televisão. Não tinha tempo para o filho – a quem proibiram de a chamar de mãe; a quem ensinaram a olhar a mãe, agrilhoada na mesma casa, como uma estranha. No fim do dia, podia finalmente ver a telenovela com a família acolhedora – e via, sentada no chão da sala.
Os erros desta mulher justificaram tudo: o trabalho de escrava; o desrespeito e a zombaria – por adultos e jovens incitados por adultos; os maus tratos e a violência – por todos.
Um dia – entre outros dias –, o chefe de família, um madraço que vivia de engajar apostadores no jogo do bicho, acusou a escrava da falta de algumas moedas. Não esperou por palavras de defesa – acto contínuo, os canhotos eriçados dele arrancaram um baque surdo do osso maxilar dela, sob a pele lassa e enegrecida.
Há vidas que não têm – nunca terão – carta de alforria.

[Crónica publicada no JM, 28-X-2017, p. 19.]

sábado, 14 de outubro de 2017

Crónica 86 [Pela Madeira Adentro]

Numa esplanada um homem, de nariz atacado de rubor, tira um gole de uma garrafa de cerveja. Há muitos desta igualha, pela Ilha adentro, naufragados em terra – com um copo ou uma garrafa como âncoras. São homens desocupados, ou em intervalos de tempo, de pele carbonizada, de frases decepadas e berradas, de andrajos ao deus-dará. São homens perros oleando-se com álcool. [Esta frase, diga-se, é inspirada no poema “Homens que são como lugares mal situados”, de Daniel Faria.]
Reparamos em mulheres de outra estirpe – andarilhas nos caminhos, pressurosas nos trabalhos, risonhas e falastronas nos snack-bars, a contar o dinheiro para o café e para as compras, com outro sentido sobre as coisas e sobre os dias.
É uma Ilha em duas ilhas – uma Ilha dividida por sexos.
Num restaurante, um gato preto e branco aproxima-se das mesas. Vai lento, insinuante. Está doente – assim vemos os olhos remelosos e pesados. Quer estar entre os humanos, entre as suas pernas, sob o toque de talheres em pratos. As pessoas enxotam-no; ele esquiva-se; ele retorna. Ao lado de uma mesa, o gato senta-se e espirra; ouve-se uma pieira saída das narinas felinas.
As primeiras ondas, na maré baixa, de uma praia de calhaus e areia preta, estão sulcadas de aprendizes de desportos marítimos. A um homem estranho à aprendizagem – um intruso em águas ocupadas – um dos instrutores avisa: “Aí há corrente.” Ele ufana-se e diz, de si para si, que ali foi a banhos a sua ascendência – e que a ele ninguém diz ou avisa sobre os perigos dessas águas. A verdade, porém, é que suou para sair do mar – as ondas subiam para a areia; mas por debaixo das ondas a corrente arrastava-o para o oceano. Quando pisou basalto seco, acendeu um cigarro e pôs-se a pensar. [Lembrou-se que aquela praia já teve a fama, segundo os antigos, de ceifar incautos e aventurosos.]
A praia está suja – há tocos queimados e plásticos descolorados, farpas de canas e folhagens esventradas, beatas sobreviventes e pontas de ferro zarcãs de ferrugem. Assim está a praia – e assim estão também outras pequenas praias e falésias, baldios, adros de igrejas, bermas de estradas. Há mãos despreocupadas e aleivosas na forma como se tratam os apêndices – os despojos – da natureza e da civilização.
Pela Madeira adentro há ruínas: palheiros, solares, engenhos; casas de pedra aparelhada – com lintéis ajoujados e ocas de tecto a receber o sol, as lagartixas, os ratos, o lixo, o silvado. Por vezes, ao lado destas paredes onde homens outrora respiraram, levantam-se mastodontes angulosos de blocos e cimento com demãos garridas – já traídos pela humidade e pela passagem de um tempo rápido e sem memória.
Há vilas a viver, durante a semana útil, sob o ritmo cardíaco dos transportes e dos pés dos turistas. Há restaurantes onde se ouve o frigir do peixe-espada, de outro pescado, de carne vermelha para pregos. Os turistas chegam, fotografam, mergulham, comem, falam nas suas línguas, gesticulam, põem-se ao sol, pagam, vão-se embora.
Com olhos nómadas, motor rasante e pena descuidada na escolha das palavras, estas paisagens foram recolhidas em vilegiatura. Percorremos a Madeira rural no final da liturgia eleitoral, eivada de imagens de gente sorridente, e nos dias seguintes, quando a Ilha voltou, cansada, ao normal.
Por que caminhos vais, minha terra? Qual é o teu destino?

[Crónica publicada no JM, 14-X-2017, p. 15.]

sábado, 30 de setembro de 2017

Crónica 85 [A Velhota]

Numa das mesas da padaria, um velho falava, com alarve acentuação nas palavras. Estalava a língua nos dentes, como se tangesse as letras pela primeira vez, como se revivesse a primeira infância da comunicação. Ou tinha dentes novos, ou uma nova dentadura – fosse como fosse, a luta entre este homem e a sua cremalheira mostrava-se patética.
Noutra mesa estava um casal de velhos. Ele sondava as outras mesas com olhos de cinza e beiços descaídos; ela segurava a duas mãos um jornal e lia, mexendo os lábios inaudíveis, uma crónica de um rapaz de barba a puxar o grisalho, que escrevia sobre África, amores, perdas, desilusões, redenções, saudades.
Quem nestas coisas reparou foi uma velhota, sentada a um canto da padaria. Ela esperou que o jornal vagasse – também apreciava os escritos do cronista, os quais lia após fazer um varrimento pelas letras gordas –, mas a demora acabou por fazê-la desistir.
Levantou-se, pagou o garoto clarinho que tinha tomado, comprou também dois papo-secos e saiu. [Nunca esperava que os restos do café ficassem ressequidos na chávena.]
Dantes, ainda tinha – ou melhor, ainda tolerava – companhia neste ritual matinal na padaria. A ela se juntavam umas vizinhas, todas velhas, que encetavam um campeonato de exibições de fotografias nos telemóveis, de elogios aos caprichos dos netos [ausentes] e de queixumes em relação aos filhos, às filhas, aos genros e às noras [também ausentes]. Ela, sem filhos e sem netos, e negando a frivolidade de redes sociais e de gente que tentava enganar uma perfeita solidão, rapidamente se enfadou.
[Na verdade, trazia-lhe confusão este mundo de gente – novos e velhos; sobretudo velhos – agarrada a ecrãs luminosos. Confusão foi, com efeito, o que sentiu quando, pela primeira vez, viu uma outra senhora, em plena missa, atender o telemóvel. Depois, só alcançou sentir alguma piedade.]
E assim, nos últimos tempos, entrava no estabelecimento e recusava os convites para se juntar a outras mesas – dizia que não ia se demorar, que só queria tomar o café e ver o jornal, que tinha um bolo em casa no forno, que tinha de ir bordar uma toalha para parentes que a iriam visitar no domingo seguinte. [Havia verdade e mentira nestas declarações – era boa cozinheira, era uma doceira de lei, era uma bordadeira mestra; mas não bordava para ninguém; e nenhum familiar remoto a visitava.]
Nos fins de semana, que passava sozinha no asseio da casa – um santuário de ordem e de brilho – e no cuidado de orquídeas, antúrios, de uma miríade de flores feitas da vasta paleta de Deus, por vezes recebia uma visita.
Era uma vizinha, uma jovem mãe, que levava o seu menino. Com ela partilhava segredos de jardim, de cozinha, de agulha e linhas, de vida.
Nesse domingo à tarde, a velhota serviu fatias de um bolo de laranja húmido – cujo aroma beatífico se propagou do forno a toda a pequena moradia –, deitou dois copinhos de licor de nêspera e fez um sumo para a criança. Na sala, instruiu a aprendiz atenta no ponto de richelieu, deixou-a a bordar e sentou-se no sofá.
Fechou os olhos. O menino trepou-lhe para o colo. [A mãe da criança viu e sorriu.] A velhota teve um leve sobressalto, acomodou o menino sobre as pernas e abraçou-o. Ambos dormiram e sonharam um breve descanso.

[Crónica publicada no JM, 30-IX-2017, p. 17.]

domingo, 17 de setembro de 2017

Crónica 84 [Ensaio sobre o Medo]

“Filho… olha. Filho, olha p’ró pai.”
O rapaz, conquanto de coração oprimido na garganta, respondeu à segunda interpelação e levantou a cabeça para o pai. Pensou que ouviria uma frase imperativa e lapidar, em todos os sentidos ditos e entrelinhados, e assim, por breves momentos, arrostou o medo – como se caminhasse até à beira de uma falésia precipitada na escuridão. Sem este gesto – sem esta suspensão do medo, que fez crescer em coragem o pai –, a voz escassa que queria falar não teria cortado o silêncio – e não teria sido escutada.
“Meu filho… não tenhas medo.”
Três semanas passaram – três semanas apaziguadas – e o pai desceu os seus sete palmos de terra, num dia afogado de calor e de humidade colada nos corpos e nos cabelos.
Durante e após o luto, o rapaz teve muito em que pensar – e em que cismar –, no redemoinho dos seus quinze anos. [Quinze anos – e era já maciço como um arpoador de baleias.] Tão pouco ouviu o pai falar, na célere passagem dos anos, que não sabia o que fazer com o pouco que tinha escutado. [Por vezes é assim, a relação entre gerações. Agarremo-nos ao que temos.] Sobretudo, aquela sentença tinha ficado a pairar, dentro de casa, fora de casa, como um outro sentido a peneirar a percepção das coisas e a tecer a convivência com os homens.
A vida continuou, pois, na aparência pouco diferente, na verdade nada igual.
“Não tenhas medo”, pensava – ou ouvia – o rapaz, quando se aproximava, dia após dia, dos portões da escola. Nessa manhã, porém, foi com um sentido mais apurado que percebeu o farejar da matilha de “bullies” que o esperavam. Repetiu, entre dentes: “não tenhas medo” – e, agarrando nesse arpão, aprumou as costas e levantou a cabeça. Tornou-se a imagem do poder, da ausência de medo. Os agressores, como cães, fungavam de facto todos os movimentos do rapaz, à procura de eflúvios de temor que contagiassem o ar. Dia após dia, foram ficando mais mansos, quietos, desviando o olhar e desintumescendo os focinhos. Um deles, interpretando mal os seus próprios instintos de bicho, certa feita atreveu-se – e, abandonado pelos restantes, levou um pontapé no rabo e fugiu.
Sem o rapaz se aperceber, uma coisa que demandava resolução ficou, destarte, resolvida. Sobrava outra.
A sua casa, outrora com quatro viventes, agora compunha-se da mãe, da irmã mais nova e dele. [Uma mulher, uma criança, um adolescente; nenhum homem.] Portanto, ainda hoje – como se hoje, com efeito, fosse diferente de ontem –, esta casa tornou-se, aos olhos de outros, uma casa vazia de poder patriarcal – vazia de um poder a servir de marco, de fosso, de muralha, no teatro de guerra civil entre família e vizinhos. Em face disto, pouco tempo decorreu até que ele, com voz brava, expulsasse de casa tios e tias, primos e primas, que ali iam, sem respeito, dar livre curso a frustrações, vazando-as sobre quem parecia indefeso. [Encontrou coragem adicional para isso quando, cheia de aflição, a irmã pequenita gritou com um tio que tinha cingido, com a pata imunda, o braço da mãe.]
“Não tenhas medo”: nestes tempos – em todos os tempos –, o que de melhor pode dizer – e ensinar – um pai a um filho? Quantos filhos precisam de ouvir estas palavras? E quantos pais precisam de dizê-las?
[Poderá não vir ao caso, mas apetece-me acrescentar: escrevo estas linhas pelos dias em que completo os meus trinta e sete anos. Olhai: 37 – um número feito de arestas e vértices, de lâminas e pontas.]

[Crónica publicada no JM, 16-IX-2017.]

sábado, 2 de setembro de 2017

Crónica 83 [Pais e Filhos]

A mesa era pequena – e as bases dos copos de imperial molhavam o plástico encardido. A dois cigarros, tirados de um maço de ‘King Size’ [‘Rothmans’], deu-lhes a ignição o mesmo isqueiro. O meu pai, quando sentado, acabava sempre por ficar debruçado sobre a mesa – as costas num declive de vale escorregadio, o cotovelo pousado em ângulo fechado, a mão esquerda que desaparecia sob o cabelo preto, da testa à nuca. [Já me disseram que eu, por mais que tente endireitar as arcas, acabo por ficar na mesma posição – até a mão penteando o cabelo mais ralo.]
Contou o meu pai: «Uma vez, o pai tinha cinco anos, mais ou menos, ia mais teu avô [um homem enfezado, de alcunha o ‘Cachimbo’] numa vereda, lá dentro, no Porto da Cruz.
«Aparece um gajo na vereda e pede a teu avô um cigarro – “Oh Cachimbo velho, dá-me um cigarro!” Teu avô disse que não tinha, ‘tás a ver, era uma miséria, não havia dinheiro p’ra nada. Olha, o estupor não faz mais nada – larga uma bolachada em teu avô. Ele virou de cangalhas, caiu p’ra lá, ficou a sangrar.
«Eu era pequeno, comecei a chorar, mas fiquei ali, não larguei a mão de teu avô [e mostrou o punho em sinal de firmeza – uma mão tenra a amparar uma mão madura]. Olha, a gente sai dali, chega a casa, tua avó [uma mulher esguia, de apelido a ‘Cachimba’] arranja lá umas coisas quaisquer p’ra tratar de teu avô, umas ervas, p’ra parar o sangue.
«Bem, isto passou-se.
«Eu nunca me esqueci. Anos depois, venho de Angola, o sangue a ferver [apontou com o indicador da mão direita para a própria cabeça] daquela coisa toda, e um dia vou ao Porto da Cruz. Entro numa tasca da vila e quem é que eu vejo? – Ele. Eu disse p’ra mim – “Nem é tarde nem é cedo, é agora.” Cheguei ao pé dele e disse – “O senhor não se lembra há uns anos, assim assim, o que fez?” Ele olhou p’ra mim, começou a frisar os olhos e fez-se de desentendido. Eu não deixei ficar. Voltei a perguntar. Ele disse – “Ah, isso eram outros tempos.” E eu – “Ah, eram outros tempos?” Olha, vai dali, não fiz mais nada, puxei a mão atrás [falava com narinas e sílabas cheias – e levantou e fez recuar o punho direito, como se uma flecha fosse engatada num arco até ao limite da tensão da corda]. Larguei-lhe uma batata, duas, mais até. Foi uma zaragata e o diabo. Vieram os outros clientes, gente da vila, veio a família toda por aí abaixo – todos p’ra meter calma. Calma, o quê? Eu disse a eles – “Vocês não sabem o que ele fez.”
«O filho dele, que era da minha idade, veio logo falar comigo. Perguntou se eu achava certo. E eu disse – “E achas certo o que ele fez há uns anos? Mas olha, se quiseres continuar, por mim não há problema”. E ele ficou assim, não houve mais nada.»
A máquina da memória é insondável – tanto nos esquecemos, tanto nos lembramos, tanto queremos esquecer como queremos lembrar. Não estou seguro das palavras. Não estou seguro da cadência da confidência de um pai a um filho adulto. Mas devo dizer isto: esta história [a minha 50.ª crónica para o JM], porventura simples, de violência e de vingança, é afinal um elo, tenso como a corda de um arco, entre pai e filho – entre pais e filhos, entre idos e vivos.

[Crónica publicada no JM, 02-IX-2017.]

sábado, 19 de agosto de 2017

Crónica 82 [[palavras?]]

palavra de honra que não sei o que dizer
não sei se não seria melhor que esta minha crónica ficasse em branco – que ficasse a metade de uma página deste jornal a encher os dedos e a boca e os olhos de silêncio – que todo o ruído escrito ou falado fosse filtrado por uma rosácea muda – que houvesse apenas uma reverência e uma homenagem cabisbaixas – aos inocentes martirizados
palavra de honra que não sei – mas escrevo por revolta – por espanto – por estupefacção – por torpor fremente – perante o absurdo – e a estupidez desta morte – pelo que aconteceu na terça-feira – absurdo – absurdo – absurdo – devia encher este escrito da palavra absurdo – repetida – absurda – até sempre
o que escrever? – que este ano tem 365 dias – 8760 horas – 525600 minutos – 31536000 segundos – e que foi naqueles segundos – naqueles – naqueles – naqueles – segundos – que a morte veio derramada – pesada – cavernosa – no corpo secular de uma árvore
uma árvore – um símbolo de vida
a morte caiu como se leite materno fosse conspurcado
a morte caiu no dia da padroeira – da Mãe – da Ilha – consagrada protectora depois da aluvião de 1803 – consagrada na esperança nascida há mais de dois séculos – a morte caiu quando se vivia de mãos em concha sob o coração – num tempo de gratidão por graças concedidas – caiu quando se acreditava num outro dia – melhor – mais beatificado – mais lauto – de devoção limpa – de benquerença – de olhos confiantes sobre o porvir amado
uma árvore desabou sobre promessas feitas – sagradas – esperançosas – e é como se a puta da morte usasse a vida em lenho para esmagar a vida prometida
palavra que não se percebe – que não se consegue traçar uma linha de ordem – de sentido – de paz – de desígnio – sobre o mapa da dor impresso no chão do Largo da Fonte
não sei se algum dia uma criança acreditaria que uma árvore – de copa fresca – testemunha de brincadeiras – de risos – de folias – de palavras de carinho e de acerto – de juras – de folhas falando com o vento – não sei se a criança que eu fui acreditaria que uma árvore caísse e traísse quem protegeu – que traísse quem viu chegar – prometer – sair – subir para se ajoelhar e rezar a Nossa Senhora – crescer – amadurecer – envelhecer – uma árvore que abençoou crianças – casais prometidos – amigos gargalhados – famílias de braços enganchados – idosos cambaleantes – ébrios confusos – visitantes a ouvir a harmonia da água corrente – devotos a perscrutar o crepitar das chamas das velas e o escorrer inaudível da cera
uma árvore – e homens – porque os homens já levantam os dedos em riste – em acusação – em defesa – lançam mão de papéis – de argumentos – de testemunhos – de coisas recentes e vetustas – para que se saiba quem – quem – quem – quem foi – quem devia – quem há de ser culpado – e de ser ilibado – homens falíveis – todos – acabrunhados – arregalados – numa outra vertigem
palavra de honra que não sei o que mais escrever – uma dor perplexa desceu sobre o Monte – sobre a Ilha – como um manto nebuloso em pleno ardor de agosto – e o sufoco não deixa os sobreviventes – todos nós – respirarem como dantes
palavra que… – palavras – tão pequenas – que uso têm elas agora?

[Crónica publicada no JM, 19-VIII-2017.]

sábado, 5 de agosto de 2017

Crónica 81 [A Casa Vazia]

O velho abriu um livro – um policial, de Rex Stout – e preparou-se para passar as horas. Os últimos anos tinham sido deste feitio: acordar na casa vazia; televisão; almoço; passeio – agarrado à bengala, ou a bengala agarrada a ele –; um ou dois vinhos brancos; regresso; jantar; dois tostões de leitura; cama; alguns versos de Manuel António Pina – o único poeta que lia –; dormir.
Vários anos deste feitio. Nesse ano, porém, um vago parente – de uma ou duas gerações abaixo – ligou-lhe para casa e anunciou, com voz arrastada como a da lotaria na televisão, que havia um convívio familiar – e que, portanto, estava convidado. Ele ouviu, enfadado, pediu para repetir a informação e então decidiu: “‘Tá certo, meu filho. Obrigado. Venham-me buscar… Sim, pode ser a essa hora.”
Vestiu-se com aprumo, esperou na estrada, entrou no carro. Chegou à festa e conduziram-no a uma mesa, de onde não se levantou. Dali presenciou um desfile de vultos vagos, de aparições alvacentas, de gente indistinta que se debruçava para cumprimentá-lo. [A juventude – toda igual: pequenos e pequenas – passava-lhe ao largo, como se se desviassem da lepra.] À frente puseram-lhe água, um prato de arroz e frango assado, sobremesa, meia bola de digestivo. Uma mulher sentou-se ao lado e disse: “Tio, o que é que vai ser da sua casa depois de…” – e o velho, sorrindo, deixou os ouvidos ficarem surdos de ruído. Quando saiu, distinguiu apenas mais uma voz: “Aquele homem… deve ser cá uma solidão.” Ele deu por si a escavar dentro da palavra – solidão – e não encontrou nada. [Solidão; e memória – outra palavra que, para ele, também não tinha significado, também era uma casa vazia.]
No dia seguinte, o velho voltou à rotina. Com a lentidão que o tempo lhe ia dando de presente – e era um presente pesado, ainda que silencioso –, depois do almoço, aproximou-se da passadeira que ficava após a dobra do caminho. Se o semáforo dos peões mostrava – e apitava – vermelho ou verde, não se lembrava ele. [Não interessará agora ao caso, mas estava vermelho.] De modo que andou, pisou o asfalto que nesse momento lhe estava vedado, e um carro novinho em folha roçou o corpo escangalhado à altura da coxa. No chão, os olhos do velho apagaram.
Quando acenderam – confundidos pelo néon e pelas cores falecidas dos quadros aparafusados a granel nas paredes –, ele estava deitado numa cama. O acidente não tinha sido grave – disse-lhe uma enfermeira do hospital, que depois apertou os lábios. A verdadeira má notícia deu-a o médico: “Sim, não foi nada de mais. Mas quando fizemos exames descobrimos que o senhor tinha cancro.”
Cancro – disse ele para ele próprio, e suspirou de fastio, imaginando apenas que, desta vez sim, algum lugar lazarento das suas entranhas tinha dado de si. [Há algum tempo que vinha sentindo uma pressão no esterno; talvez tivesse começado aí].
Do hospital já não saiu. Dormente de analgésicos, sentiu chegar a última noite – e então lembrou-se de uma jovem mulher que lhe afastava a pura franja encaracolada da fronte. [A casa da memória encheu-se pela última vez]. E, antes de morrer, na casa perdida da solidão, pediu uma folha de papel e caneta e escreveu algumas palavras.
O parente que foi recolher os despojos do velho, no hospital, encontrou a folha. Olhou, apalermado, para as palavras, amarrotou o papel e deitou-o no balde do lixo.

[Crónica publicada no JM, 05-VIII-2017, p. 13.]

sábado, 22 de julho de 2017

Crónica 80 [A Escolha]

A estrada para casa estava fechada, ao princípio, numa única treva. A custo, os olhos das crianças, piscando por detrás dos estores da janela da sala, iam dissipando esta escuridão e destrinçando matizes. Ali viam o cinzento longínquo da iluminação pública; aqui o rasto efémero da sombra de um gato; naquele lado o fio de luz de um carro, que por pouco não usava o gato como calço; neste lado, ao pé do muro da casa, um vulto que crescia.
Crescia o vulto – primeiro via-se uma cabeça, depois os ombros angulares, neles os braços aparelhados e trôpegos a procurarem, porém, uma cadência certa; enfim, uma possante e lenta aparição. Vinha ele – e crescia o temor ofegante, na garganta embargada, das crianças.
A resfolegar como um porco, o vulto abriu a porta. Um odor peçonhento de álcool e suor inundou a casa como uma enxurrada. Ele olhou para a família com órbitas vazias e senis, mastigou duas ou três sílabas e foi para a cozinha. Algo que não estava de feição – o jantar frio, a despeito de estar num tupperware envolvido por uma toalha grossa; outro pretexto qualquer; não valerá, pois, a pena darmos mais corda à imaginação; o que tinha de acontecer haveria de acontecer –, algo, enfim, fez o homem saltar a barreira para o pântano da violência. A família, na sala, ouviu cerâmica a cortar o ar e a partir, metal a tinir, punhos contra madeira – um arraial de cacos, de berros, de colisões.
A seguir, caiu o silêncio. Para aquela noite, bastava.
Ele veio até à sala. A tristeza e o terror nos olhos da família fizeram-no estremecer. [Por momentos ficou paralisado como se uma faca lhe rasgasse as costas de um só golpe. Sentiu isto – mas ninguém se apercebeu. Sem cacos, berros, colisões, algo tinha desmoronado dentro dele – no lugar onde, nos últimos anos, ele só entrava se fosse guiado, de mão dada como uma criança confusa, pelo álcool.]
Decidiu que as noites assim bastavam. Trocou caminhos que desaguavam em tascas e patuscadas por trilhos que desembocavam em clínicas e na casa de um amigo. [Um amigo apenas, a quem disse que, do tempo anterior à dependência do álcool – antes do álcool lhe ter adormentado a realidade –, nada conseguia trazer à memória, nada parecia ter permanecido. O amigo respondeu-lhe que esse esquecimento poderia ser misericordioso – ou mortífero; e que ele teria de escolher.]
Passaram-se semanas. Um dia, louco do vício por aplacar, ele deitou uma garrafa de aguardente em peça numa taça branca, lançou com fúria as mãos em concha ao líquido e esfregou-o na cara. Algumas gotas encontraram um caminho livre entre as rugas precoces da pele e forçaram, na orla que separava os lábios, a entrada. Ele levantou a cabeça e cuspiu – cuspiu, o corpo todo sacudindo, como se quisesse expulsar um veneno que tivesse tomado o lugar da saliva, do sangue, de todos os fluidos corporais.
Depois, limpou as mãos e a cara com uma toalha branca – a toalha ficou encardida – e sentou-se pesadamente, no chão, com as costas demolidas de exaustão. Estava sozinho – não houve ali ninguém para servir de testemunha do que havia feito, mas ele agarrou na cara de jeito a que ninguém a visse, do jeito de quem queria desaparecer para sempre.
A filha mais pequena entrou, em silêncio [ele não se apercebeu], e pôs-lhe a mão na cabeça. Ele destapou a cara – e lembrou-se que não era a primeira vez que a menina o confortava desta maneira.

[Crónica publicada no JM, 22-VII-2017.]

sábado, 8 de julho de 2017

Crónica 79 [O Abismo]

No fim das escadas, ao alto, encostado à parede – o filho assim esperou. O pai apontou-lhe, cá de baixo, o cinto cingido pelo punho esquerdo, e subiu. [Um degrau mal medido fê-lo tropeçar, mas logo se pôs direito. Havia uma imagem e uma autoridade a preservar; naquela casa, porém, qualquer autoridade que alguma vez tivesse existido já se havia corroído.]
Nem sempre tinha sido assim. O começo – bem, não sabia o filho que começo tinha sido. Talvez fosse melhor falar em começos, pequenas desaprovações, silenciosas incompreensões, coisas que se insinuam e que não se medem. Coisas que – no reinado da família – se conhecem e medem apenas nos efeitos – não nas origens, não nas causas.
A entrada do rapaz na puberdade tinha trazido, pois, um rumor de sismo. Houve mudanças de humor e de palavras. O que antes era dito era, agora, ou silêncio, ou grunhido, ou berro. 
A casa começou a ser inundada de barulhos “do inferno”. Eram acordes de distorção, vozes guturais, vagas “dessa maldita música metálica”, como lhe chamava a mãe. O filho fechava a porta do quarto, mas isso não impedia que toda a casa tremesse. O pai foi-lhe dizendo: “Já me ‘tás a azedar.” Um dia entendeu o rapaz em comprar uma guitarra eléctrica e um amplificador de válvulas de 100 watts. O pai, saturado enfim, quis afogar de uma vez estes sons “do demónio”, fazendo o que lhe parecia certo, sensato, quase honrado – partiu o braço da guitarra. 
Os amigos da vizinhança pobre – “pequenos da ribeira”, como lhes chamava o pai – passaram a ter livre acesso a esta casa, onde a penúria nunca morava. Um dia, dois ou três foram expulsos pelo chefe de família, que depois se virou para o filho e cuspiu: “Para a próxima vais com eles.”
O filho vestia-se como um “pelintra” e tinha comportamentos que petrificavam a mãe e metiam raiva ao pai. “Quem ver isso vai parecer que nunca te demos educação!” O pai berrava estas palavras – e outras, como sabemos – e, a dado momento, julgou-as vãs e sem préstimo. Portanto, um dia tirou o cinto e segurou-o de maneira a poupar a fivela. 
No dia seguinte, o filho voltava pela vereda ao lado da casa. [Ali havia muitos eucaliptos; por causa do cheiro que exalavam, com frequência o rapaz se recordava que a mãe lhe punha, à cabeceira, folhas destas árvores para apaziguar a tosse e a respiração. Recordava e desejava que estes gestos nunca tivessem cessado. Não tinha maleita física – mas nesta idade às vezes custava-lhe respirar.] Bem: a mãe, que observava sorrateira, viu-o esconder algo num buraco na terra. Deixou-o entrar, ignorou-o – como já era costume – e foi apanhar o que era suposto ficar oculto. Quando o pai chegou, ela mostrou-lhe uma revista, suja e enrolada, e disse: “Vê as poucas vergonhas que esse estupor anda a ver.” O pai tirou o cinto – e dessa vez decidiu não poupar a fivela.
[Voltemos ao início.]
No fim das escadas, ao alto, encostado à parede: o filho esperou, tremendo, como em face de um perigo mortal – ou, pior, de uma profanação. O pai subiu. O filho empurrou-o pelas escadas abaixo.
O corpo caiu, arrastado, colidindo como se fosse regido pelo ritmo de uma marcha militar. Nesta eternidade, ao filho, que não conseguiu pestanejar nem virar a cabeça, cresceu-lhe uma náusea que lhe ensurdeceu os ouvidos. A claustrofobia negra e sôfrega alojada neste coração era agora completa. O abismo viu, finalmente, o seu fundo.

[Crónica publicada no JM, 08-VII-2017, p. 2.]