sábado, 31 de outubro de 2015

Crónica 33 [Uma História]

[Disse-me o homem de mãos sujas e olhos azuis numa cara de pele tisnada, durante o intervalo do amanho de um pequeno bocado de terra.]
«Isto não dá nada, por agora vai dando, mas mais daqui a uns tempos não vai dar nada. Vai-se limpando, cavando, vai-se fazendo como se pode, mas agora também nem se pode usar remédio como dantes.»
[...]
«Sim, remédio. Eles vendem, mas já não é o remédio que antes havia, é mais fraco. O remédio que antes havia era bom, mas também era forte, e eles já não vendem.»
[...]
«Ora porquê? Porque as pessoas... As pessoas, depois, pegavam no remédio p’rós bichos... e tomavam...»
[...]
«Tomavam. P’ra se matarem. P’ra se darem caminho. Há uns tempos aconteceu com um primo meu, um bom bocado mais novo do que eu, mas aconteceu.
«Cheguei a casa e passei numa tasca que tem lá perto. Vi lá esse meu primo, que ‘tava lá. Ele perguntou-me se eu queria tomar alguma coisa. Eu mandei vir um copo de vinho. E depois ele disse-me: “O primo o que ‘tá a beber é a última coisa que bebe da minha mão”. E eu disse-lhe: “Ah, homem, não tem problema nenhum. Eu ainda ganho p’ra pagar um café ou um copo de vinho p’ra mim.”
«Isto passou-se. Daí a bocado, na casa dele, começou a haver uma gritaria, uma gritaria. O que foi que tinha acontecido? Tinha tomado remédio, e ficou ali mesmo. Encontraram ele já com espuma na boca, a estrebuchar no chão. Olhe, é assim, percebe?
«A mulher contou-me depois que ele tinha ido p’ra casa e que chamou ele p’ra jantar. Depois disse-me que a resposta dele foi: “Vocês que vão jantando que eu já ‘tou a arranjar jantar p’ra mim.” O jantar foi o remédio.»
[...]
«Sabe como é. O rapaz, esse meu primo, não tinha trabalho, vivia com a mulher e tinha uma filha pequena, um bebé, mas vivia com a família da mulher. E sabe como é. Um diz isto, outro diz aquilo, um lava daqui, outro torce dali. Depois há muita bilhardice, e as pessoas não se compreendem. Os pais dela, da mulher, mandavam vir com ele. A mulher tomava o partido da mãe e do pai dela. Não havia paz. Sabe como é. As pessoas quando não têm trabalho, não têm dinheiro, não têm a sua casa... ninguém se compreende.
«Isto ‘tá difícil por aí afora. A quantidade de gente que... O senhor sabe lá o que vai por aí afora por essas zonas. Há dias um homem que eu conheço foi regar uma fazenda, longe do caminho da levada. Olhe, ele encontrou outro que ‘tava lá pendurado há bastante tempo. Ele nem tinha dado com ele se não tivesse sentido o cheiro e não tivesse ido ver o que era.
«Eu cá também divorciei-me, sim. Mas uma pessoa tem de ter calma, tem de viver. A mim, graças a Deus, já tenho esta idade, mas não me falta trabalho. Graças a Deus, o meu patrão arranja sempre trabalho p’rá gente. Um dia aqui, outro dia acolá. Uma fazenda de bananeiras, um jardim... Ganha-se pouco, sim. Ganho o ordenado mínimo p’ra tanto trabalho. Mas um homem tem de viver. Fumo um cigarrinho de vez em quando...
[...]
«Olhe, obrigado. Fuma-se um de vez em quando. Às vezes toma-se um copinho de vinho, quando dá. Mas é preciso saber viver, é preciso largar a bilhardice, o falatório, todas essas coisas. Quanto mais se fala menos se faz, menos se vive.»

[Crónica publicada no JM, 31-X-2015, p. 2]

sábado, 17 de outubro de 2015

Crónica 32 [O Líder]

Passou ele a ler para a sua pequena plateia desconfiada.
«O líder, nesta sociedade, é o indivíduo a quem ninguém ousa criticar [ou maldizer] na presença – apenas na ausência. [Sim, o mesmo se aplica a um louco. E sim, quem fizer o contrário é considerado louco – ou leproso. Adiante.]
«Quando um indivíduo critica o líder na presença deste, é de pronto abandonado por aqueles que, até à véspera, o acompanhavam nas críticas ao líder ausente.
«Há indivíduos, que lideram, a quem, mesmo quando ausentes, dificilmente se admite uma crítica: isto acontece quando são vitoriosos e, logo, cobertos de uma aura de omnisciência e divindade – difícil nesta sociedade individualista, mas não impossível. Todo este jogo muda, como é óbvio, quando à vitória sucede a derrota.
«Depois, não o esqueçamos, há indivíduos que, não sendo chefes ainda, se apresentam – e são considerados – como líderes futuros, inevitáveis, messiânicos: também a crítica a estes é considerada uma heresia.
«O reconhecimento de um indivíduo como líder – no presente ou no futuro – é um processo composto de aprovações unânimes, tácitas e, por vezes, emocionais e inconscientes [quase silenciosas, portanto] – das quais o mínimo desvio é considerado um pecado. Estas aprovações, após a unção do líder, são por vezes seguidas de desaprovações desiludidas, unânimes, racionais e conscientes [quase silenciosas, porém] – das quais o mínimo alarde é uma grave transgressão. Este é um mundo onde as atitudes implícitas, vigiadas e eivadas de regras são mais poderosas do que as atitudes explícitas. Nenhuma plateia acredita em declarações gongóricas e golpes de teatro. Quando se trata do poder, toda a plateia sabe que o mais importante se passa nos bastidores.
«Como é óbvio, nesta sociedade não há coesão social mínima sem líderes – sem o reconhecimento de alguns homens enquanto líderes incontestados [ou – como temos visto – contestados de modo surdo]. Convém, a bem de uma maior coesão social, que a unção de um novo líder seja feita pelo anterior – enquanto este for forte ou vitorioso. Se tal não acontecer – e amiúde não acontece –, o sucessor, para bem do sistema, deve, como dissemos, se apresentar como um messias – e um messias é sempre incontestável [ou contestável somente de modo surdo].
«Isto dito, importa referir aqueles indivíduos que, ainda que presumivelmente talhados para liderar, nunca o farão. Mais do que as características inerentes, temos de ver as atitudes que um indivíduo desta natureza suscita nos outros. Se ao que será – ou é – líder ninguém ousa criticar na sua presença [somente na sua ausência, e em condições muito periclitantes], ao que nunca será líder, por assim dizer, sobejarão críticas ditas no seu rosto e encómios proferidos nas suas costas. E assim voltamos ao início.»
“Que tal?” – Disse ele, voltando-se para quem o ouvia.
“Arrevesado. Confuso.” – Disseram todos, com pequenas diferenças de palavras, num murmúrio gaguejante. Todos – menos um.
“E tu?”
“Qual foi aquele adjectivo que usaste?”
“Adjectivo? Não sei. Unânime? Tácito? Inconsciente? Consciente?”
“Sim, tudo muito lindo. Não, depois disso. De modo…”
“Surdo?”
“Isso. Também devias ter usado, aí pelo meio, a palavra «mudo».”

[Crónica publicada no JM, 17-X-2015, p. 2]

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Crónica 31 [A Doença]

Ele é homem, é mulher; ele é velho, é novo. Ele é uma legião de homens, mulheres, velhos e novos – todos de costas viradas, divorciados dos rostos e dos hálitos dos outros.
Quando entra na sala – na casa – no mundo –, ninguém ouve, ninguém vê, ninguém repara, ninguém toca. Nada – não existem essas possibilidades, não se tomam essas oportunidades. É o diálogo sem diálogo. É o monólogo que se alimenta de todas as deixas, de todas as palavras – de todos os silêncios, e acidentes, entre as palavras.
É a palavra pé-de-cabra, a palavra fogo-de-artifício. É uma cela, uma ilha cercada de medos. É uma venda nos olhos, umas luvas de couro – ou de pelica. É uma armadilha de lobos, um camartelo, uma tenaz. É uma mira vigilante – um projéctil desgovernado. É uma arma de destruição massiva. É um campo de batalha a preto e branco, uma lápide com epitáfios sempre repetidos, nunca enfadados de si próprios – ano após ano, era após era.
Está no homem que o recusa para se ilibar. Está no homem que o aceita para se justificar. Está em quem o detesta para, em ilusão, tentar se curar. Está em quem o adora para tentar se iludir. Está, enfim, no homem que de si fala para tentar se distrair da existência.
No seu reino não há partilhas: não se partilha porque nada se quer receber; não se recebe porque nada se quer dar – e nada existe para dar.
É uma doença de milénios – hoje mais veloz, mais persecutória, mais inquisidora. É uma doença de bípedes – cujos pacientes, hoje, estão em estado comatoso. É uma doença que não precisa de vírus – apenas de hospedeiros, de incubadoras. Não oferece possibilidade de contenção – teria de haver tantos cordões sanitários, e tantos lazaretos, quantos nós somos.
É um púlpito de voz cavernosa e enfadonha; é a tribuna das verdades sectárias alcandoradas a doutrinas universais; é o megafone de um homem só, para a plateia dele mesmo; são milhões de megafones a encher as ruas de cacofonias tocadas em uníssono; é uma peça de piano onde somente se usam as teclas brancas; é uma nota pedal sibilante, até não se descortinarem outros sons com que se possa cismar.
É uma crónica de jornal à espera de leitura sedenta, como quem traz o único e verdadeiro método para se matutar nas engrenagens dos dias.
É a anulação da ironia – é o cinismo militarizado. É uma assinatura falsa – é uma assinatura falsificável. É a incapacidade de saber o nosso contributo para o que nos rodeia. É a incapacidade de conhecer o nosso potencial destrutivo.
É o poder simples, que não sai do seu caminho: de tanto estudar Maquiavel esquece Maquiavel; de tanto louvar a Deus esquece Deus; de tanto soletrar a razão esquece-a – ou usa-a como munição.
É o mundo do Dorian Gray – de Oscar Wilde – no qual os «caprichos de Dorian são leis para toda a gente, excepto para ele».
O Eu proclama a irmandade universal nos defeitos – e a excepcionalidade nas virtudes. A Voz proclama-se, destarte, independente e moralmente irrepreensível – procurando, porém, apenas colo, compreensão e liberdade sem freios e com esporas.
É o oitavo pecado mortal – é, ao mesmo tempo, o berço e o braço armado dos restantes pecados.
O que é? Quem é? O egocentrismo – ou o ego locupletado.

[Crónica publicada no JM, 19-IX-2015, p. 2]

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Crónica 30 [Quando]


Quando houver verdadeira consideração pela propriedade pública, pelos bens públicos. Quando se deixar de pensar: “O que é meu é meu; o que é teu é teu; o que é nosso é meu”. Quando os madeirenses deixarem de manifestar o orgulho que sentem pela beleza da sua terra através de actos como atirar uma embalagem vazia para dentro de uma ribeira – ou uma beata para o chão. [Deus me perdoe.]
Quando a geração que pôde usufruir da generalizada melhoria de condições de vida, e do acesso à liberdade, após o 25 de Abril, compreender os anseios, as circunstâncias e os sentimentos das gerações posteriores. [E vice-versa – sim, um pouco também vice-versa.]
Quando houver liberdade de criação – quando o que se fizer e disser, em liberdade e dentro da lei, não revogar amizades e criar inimizades e tentativas de anulação e sabotagem.
Quando este povo, religiosa e culturalmente cristão, passar a ser mais Cristo – e menos Sinédrio.
Quando este povo perder o preconceito de superioridade – e, sobretudo, o preconceito de inferioridade.
Quando a política deixar de se imiscuir em tudo – na família, nas amizades, no trabalho, na vida privada. Quando a política deixar de confundir tudo – ou as pessoas deixarem de confundir tudo por causa dela.
Quando pertencer a um partido não for um elemento fulcral para o futuro profissional e pessoal. Quando não pertencer a um partido não for um elemento funesto para o sucesso profissional e pessoal. Quando pertencer a um determinado partido for um elemento fulcral / funesto [risque-se o que não interessar] para a concretização profissional e pessoal.
Quando houver verdadeiros projectos – económicos, empresariais, políticos, culturais, sociais, associativos… – e não meros projectos pessoais de poder. [Repita-se: projectos pessoais de poder.]
Quando discutir política regional não consistir, no conjunto, em falar da vida interna – das redes, das quezílias, das parcerias – do partido maioritário [e depois, mas só muito depois, dos partidos da oposição].
Quando se deixar de reproduzir chavões, conceitos e adjectivos políticos forjados há 40 anos. Quando se deixar, 40 anos depois, de acreditar em homens providenciais [com mais ou menos maquilhagem política].
Quando nos deixarmos de boas intenções alardeadas que anulam o discernimento e as tomadas de posição.
Quando o medo não for um problema público, ou uma desgraça pública.
Quando se souber que o meio é pequeno, por vezes claustrofóbico – e que assim é pelas atitudes de algumas das suas gentes.
Quando deixarmos de ser convencionais e moralistas – quando deixarmos, por exemplo, de pensar e dizer – e escrever – “quando”.
Quando… Quando? Não sei. Mas, a despeito do que muita gente poderá defender, considero que esse “quando” não é hoje – não é a Madeira do ano da graça de 2015.
[Referi-me, nesta crónica, somente a aspectos culturais e políticos – a mentalidades e psicologia colectiva. Nem por um momento se me varre da mente as adversas condições económicas e sociais por que passa o arquipélago da Madeira – e Portugal, no seu conjunto. Essa, porém, é outra crónica.]

[Crónica publicada no JM, 08-IX-2015, p. 2]

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Crónica 29 [Política na Madeira]

Hoje, este vosso aprendiz de cronista – um humilde observador, interessado nas coisas da nossa terra – traz um assunto inédito: Política [na Madeira].
Não estou a brincar. Perdão, é claro que brinco. Muito se fala e se escreve – nas crónicas deste periódico, por exemplo – sobre política na Madeira. E, à semelhança do que ocorre no restante Portugal, ainda que com características mais perversas, a política é discutida na Madeira sob o prisma quase exclusivamente partidário. Os responsáveis políticos têm a prática – e têm o discurso. José Gil disse que os políticos «fazem o discurso e o metadiscurso». [Fica sempre bem uma citação, diga-se, sobretudo quando vem a propósito.]
Daí decorre que não haja verdadeira discussão – apenas a construção e manutenção de barricadas partidárias, com a constante contagem de espingardas e o recorrente esforço no recrutamento de tropas e no aprovisionamento de munições. Uma guerra, portanto. [Não era necessário dizê-lo, mas fica dito.]
Não há discussão, pois. E não há análise – informada e ensaística, se quisermos, e não imbuída de agendas e objectivos político-partidários explícitos [ou implícitos]. Por outro lado, uma análise de cariz sociológico ou politológico ou não existe, ou fica refém de jargões que circulam em circuito fechado, ou não deixa de servir interesses partidários.
Afora este facto, interessa olhar mais um ou dois fenómenos relacionados com o comportamento político dos madeirenses.
Como este: discutir política na Madeira consiste em discutir a vida interna do partido maioritário – do PSD-Madeira [é necessário frisar que isto se aplica, não a todos, mas à maior parte dos madeirenses?]. Este fenómeno é a consequência última da ocupação de todos os espaços de poder no arquipélago por parte do PSD. [E este arquipélago, após o advento da autonomia político-administrativa, assistiu a uma proliferação de espaços de poder – mas esta é outra conversa.] Este partido acabou por ocupar, com incomparável peso e tamanho, o horizonte político-mental do povo madeirense e tornou-se sinónimo do próprio conceito de poder. [Devo notar que pretendo aqui simplesmente constatar e analisar. Sim, é preciso fazer notar.]
No presente, com a corrida à liderança do PSD, esta tendência é propensa a agudizar-se. Dir-se-á que o PSD está em baixa maré. Mas como, se, à boleia das rivalidades internas, ocupa cada vez mais espaço mediático, e cobra cada vez mais atenção? Qual o madeirense que, nos últimos tempos, nunca participou em diálogos acerca da corrida à liderança do partido maioritário, defendendo a sua “dama” ou execrando o seu “demónio”, ou simplesmente prevendo vencedores e vencidos. As opiniões, neste particular, nunca necessitam de grande fundamentação ou suporte empírico. Afinal, em terra tão pequena toda a gente se conhece. E conhece-se sempre alguém que disse que sabe que vai acontecer isto e aquilo, porque conhece fulano de tal, que é íntimo de beltrano, etc. e tal.
A política mostra o lugar que a Madeira é – e o lugar onde a política a deixou ficar: uma paróquia.
E o lugar das oposições? No conjunto, na opinião dos madeirenses as oposições existem para ocupar o lugar que lhes deu o PSD: quer dizer, existem para serem apoucadas e mofadas [sim, mofadas]. Poderíamos alvitrar, até, que algumas interiorizaram esse estatuto. [Também esta é outra conversa.]
Para terminar, um outro fenómeno existe, conectado com o anterior: discutir política na Madeira – em Portugal? – é mormente um exercício de previsão. Não no que concerne ao sucesso ou fracasso de políticas económicas, por exemplo [deixemo-nos de coisas], mas de novo no que respeita aos resultados – unção dos vencedores; imolação dos vencidos – dos jogos de poder intestinos [no interior dos partidos].
É verdade: somos bons videntes e bons ilusionistas; e adoramos palhaços, trapezistas e contorcionistas. Um circo, portanto. [Não era necessário dizê-lo, mas fica dito.]

[Crónica publicada no Diário de Notícias – Madeira, 05-IX-2014, p. 10.]

Crónica 28

Falta o mínimo; e a quem nem esse pouco sobra, resta-lhe adormecer – pensou o homem que acabava de despertar.
Nunca será demais encarecer o valor das coisas indizíveis e invisíveis – cogitava ele, quando cuspiu para a pia.
Não sei se a casa é um manicómio ou uma prisão [uma câmara frigorífica ou um forno], ou se esta porta é uma fronteira aquém ou além da sanidade – disse ele, a lutar, pela sexta vez, com a fechadura perra.
A beleza terrífica do que se extingue – concordou ele depois de olhar um ninho abandonado e antes de tropeçar e cair de nariz no asfalto.
O sono ainda não tinha esvaído por completo; o sono nunca se esvai. Ao estacionar a um balcão, pediu uma bica curta; serviram-lhe uma bica cheia – havia pedido bica curta, esclareceu ele; que tomasse o que quisesse, esclareceram. [Tomasse o que quisesse – de café ou de vigília.]
[…]

O esquecimento pode ser uma benção – ou uma maldição [é igual – não interessa]; entre o trilho de ida e o trilho de volta, o que existe mais? – perguntou ele, antes de chegar ao destino, depois de abandonar o destino [é igual – não interessa].

[…]
Em quem confiaríamos? Nos homens que precisam de adormentadores da consciência – da realidade? Nos homens para quem a consciência e a realidade estão sempre de boa saúde? – considerou ele estas perguntas e pediu meia bola de uísque, logo a transpor a porta da tasca; foi-lhe servido o equivalente a uma bola; achou que era generosidade do taberneiro; ao pagar, exigiram-lhe o dinheiro de uma medida – havia pedido meia bola, esclareceu; que tinha sido servida uma bola, disseram-lhe. [Tomasse o que quisesse – de uísque ou de realidade.]
Que fazem de um homem? Quem sou eu? Um bobo amarelado – um ogre arreganhado – um bonifrate de ossos. O quê? – pensou quando uma criança atenta ao seu vulto, sobre o tratuário, virou a cabeça cúmplice para a mãe; e depois, quando um cão distraído que deu pela sua passagem – um faro apurado, num silêncio mais apurado – principiou a ladrar com ameaça.
O quarto é um cubo oco; dos quatro cantos superiores, um é iluminado pelo candeeiro, outro habitado por uma aranha; nenhum ponto de fuga existe – apercebeu-se ele antes de apagar a luz e derrubar um livro que estava sobre a mesa-de-cabeceira.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Crónica 25

Deitado de borco estava um homem. Ora cruzava as mãos nas costas, ora entrelaçava os dedos em resguardo da nuca. As lágrimas – ou o suor – humedeciam o pó do solo; e os soluços, que tornavam o abdómen um fole, eram a espaços o culminar de um frémito que lhe percorria todo o corpo. Por vezes, virava a cara para a direita e era como se desejasse ter perdido a capacidade de ver – os olhos numa suspensão baça e aguda.
À direita estava, a cerca de três metros, um outro homem de cócoras – nos olhos uma suspensão de lâmina. Os beiços estavam colados um ao outro, mas ou o vento, ou uma outra fonte imperscrutável, originava um rumor sibilante – uma vaga que, num volume constante, saturava e precipitava o ar.
Quem observasse este cenário diria que eram homens gémeos; um de pele humana, de tez morena – outro de pele anfíbia, de uma alvura baça; o positivo – o negativo; a afirmação – a negação. De resto, eram iguais em tudo, até no trajar.
Os movimentos de um e a imobilidade de outro duraram o tempo necessário para que um pintor – ou um deus – os gravasse numa tela – ou num apocalipse.
A imobilidade acometeu enfim o primeiro homem. Nesse momento, alonga o pescoço o segundo homem, num movimento que, para o sósia, tão ruidoso era de tão velado.
O primeiro homem principia a erguer-se, tomando o cuidado de nunca voltar o peito e o rosto à terra – como se esta fosse um reduto de que não quisesse se apartar. Como animal quadrúpede fica suspenso, a fitar o solo, durante um minuto – ou uma hora. Por fim, e com lentidão, levanta-se. O corpo fica voltado para sul. O pé direito, quase independente, traça uma linha que a terra poeirenta deixou gravar, e volta a suster metade do peso do corpo. Ao seu poente permanecia imóvel o outro homem.
Este levanta-se, sem denunciar o momento em que o fez. Agachado estava – erecto ficou. Os olhos adquiriram, agora, uma tonalidade de suspensão indiferente. A lâmina não precisava de mais fio.
O primeiro homem, finalmente, volta-se para poente, encarando o segundo. Dir-se-ia serem homens iguais, cópias – dois exemplares saídos do mesmo molde. Na fonte direita do primeiro pulsava uma veia escarlate; a pele escurecia com o ocaso do dia. Na fonte esquerda do segundo mais nítido ficava um veio azul; a camada superficial da pele tornava-se translúcida e mais aquosa.
Dir-se-ia serem os opostos – os contrários – os avessos. De resto, permaneciam iguais.
O segundo homem precipita-se sobre o primeiro e, num amplexo, uma sombra enredada logo os apagou. O rumor sibilante havia cessado.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Crónica 24

Anda-me este cheiro a enxofre debaixo do nariz…
Acordo. Levanto-me. Acordo. Surpreendo manchas na testa que se escapam para debaixo dos olhos, nestas manhãs ao espelho. As mãos acometem a cara à procura dos sinais; a boca de aparvalhado; o dia que se inicia.
Fumo. Visto-mo. Saio. Fumo. Oscilo entre uma indagação incompetente do contentamento e… uma constatação competente, sem dúvida, do resto. Sorrio. [Escassos indícios existem como este da aceitação cansada do absurdo.]
Vou. Diz-me o Mestre João, adiante, que a “vida é uma merda”, juízo que já estou – não estava, mas já estou – pronto a subscrever, a bem da realidade ontológica e escatológica. Mestre João disserta sobre os tempos vazios; diz ele que são estes a fonte de todo o mal. Felicidade! – diz-me ele. Ouço. Invento. Penso. Não me lembro do mais que disse o homem. Pouco uso teria para as palavras, fossem quais fossem. [Enfim, qualquer coisa sobre manter a cabeça ocupada.]
Mas sei o que penso – a consciência imprime toda a realidade em letra redonda na minha mente. Redonda. Simples. Quer dizer – elimino as arestas; simplifico; faço petrificar. Uma criança a correr, contente, é apenas uma criança a correr, contente. É verdade, poderia também haver gafanhotos – e relva. À parte isso, não sei. Não me lembro. [Um corvo que me entre em casa, por outro lado, já será mais do que um corvo que entre em casa – não é?]
Acciono ontem e hoje [o caminho é longo; não tenho que temer o tempo] um crivo de análise [das impressões da realidade] cheio de pó e de gordura. Quer dizer – irrompe enxofre entre o caos, no devir da ordem. Profundo, não é? Ordem, devir, caos, crivo, fumo, pó – enxofre. O método é este – um facto é arrumado em categorias prévias; as categorias são encerradas em compartimentos da mente; a mente é fechada ao exterior. [Anda-me este cheiro a...]
O Sr. Visconde do Faial, mais adiante, debita experiências de descaminho – qualquer coisa sobre o imperativo do desprendimento das coisas e dos comodismos e dos sentimentos e das noções de outrem. [Mais escutasse, mais imaginaria eu.] Pergunto. Sei. Pergunto na mesma, ao Sr. Visconde, se as impressões da realidade merecem tanta relevância, e o vetusto homem diz-me que hei-de arrepender-me por perder o sal da vida à conta destas frivolidades. Na verdade, tenho tensão arterial alta.
O Mestre João e o Visconde do Faial juntam-se por vezes, na volta do caminho, para falar de mulheres e de álcool. [Não nos admiremos – são temas igualitários.] Imagino. Escuto. Imagino. Interrompi-os, em certo momento, e disse uma necedade – “Não cheirais, caros cavalheiros, este enxofre?”
Sorriram. Disseram. Cuspiram. “Deixa lá essas coisas e vai buscar outra garrafa de rótulo preto! Aproveita e traz mais um copo p’ra ti.”
Fui. Lembro-me. Não me lembro. [Talvez fosse rótulo vermelho.]

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Crónica 21

1.
Os dois acontecimentos haviam eclodido há já muito tempo, separados por um parêntesis de dez anos. Ambos constituíram duas portas – a entrada; a saída – de uma antecâmara do destino. O primeiro acontecimento assaltava-lhe por vezes a memória. O pai, na voragem do desenlace do divórcio, ao abandonar o lar, culpou-o a ele, somente a ele – o filho do meio, entre os vários irmãos. Lembrou-se de se ter interposto entre o pai quase agressor e a mãe quase vítima – o pai tentando vergar-lhe os braços perante o desespero da mãe. Mas todo ele foi força bruta e orgulho – e os braços como troncos ilesos. Tinha 15 anos. O segundo acontecimento reencontrava-o por vezes magoado. A mãe, na voragem de um enlace amoroso, e sofrendo a desaprovação da conduta do parceiro por parte deste filho – ânimo justo; orgulho –, fugiu de casa. Numa manhã estava; à noite não estava. Tinha ele 25 anos, era o filho do meio entre todos os filhos – e a sentença de culpado ditada pela mãe.
2.
Nesse momento, há um lustro portanto, tomou uma decisão. A de compor um repertório – num caderno de linhas de capa preta, pouco maior do que uma folha A5, de páginas numeradas no canto inferior direito, com entradas datadas no canto superior direito – de factos, dados, acontecimentos, palavras e expressões, ou seja, de todos os insultos, de todas as desconsiderações, de todos os abusos, de todos os desprezos, de todas as injustiças, de todas as violências, dos quais era, não a origem, mas o destinatário. Era esse, desde há um lustro, o seu destino. De tanto arrolar, encheu-se-lhe o caderno. Na realidade, ninguém podia imputar-lhe mau carácter; era tanto amável e justo quanto exigente com os outros, com os amigos – numa refrega constante de procura de afectos e de proximidades. Usava de uma correcção e de uma sabedoria precoce muito consideradas, com efeito, mas ninguém o queria por perto – uma refrega constante, afinal, feita de debandadas, de desconsiderações e de insultos. De tanto escrevinhar, pois, encheu-se-lhe o caderno.
3.
Nesse ensejo, comprou um obscuro folheto de um também obscuro autor: Aforismos para o Dia Seguinte. Folheou várias vezes. Nada lhe fazia sentido – cinco euros mal empregues. Quando os seus miolos ensanguentados redecoraram a parede da sala, o magro volume ficou aberto na página 30, onde se podia ler o «Aforismo 127»: «Ser injustiçado não é uma sucessão de acasos; é uma condição e um signo – ambos atribuídos e, o que não é despiciendo, assumidos.»

domingo, 25 de novembro de 2012

Crónica 18

Autor – Qual a tua opinião quanto ao que afirmou o Papa sobre o preservativo?
Profeta – Como é que é possível usar «Papa» e «preservativo» na mesma frase? Foda-se.
A. – Não estou certo de que essa seja a linguagem mais apropriada, tendo em conta os nossos potenciais leitores...
P. – A mim ninguém me paga para ser liso.
A. – Lido, queres tu dizer.
P. – Não. Liso.
A. – Todavia, se as pessoas abdicam de algum do seu tempo para me ler – para nos ler, digo –, poderias com certeza ser mais educado e...
P. – Estou a borrifar-me para isso!
A. – Ok. Mas qual a tua opinião?
P. – Sobre o quê?
A. – Sobre o que disse o Papa.
P. – Que disse ele?
A. – Disse que, e cito, «pode haver casos individuais justificados» para o uso do preservativo.
P. – Quando foi isso?
A. – Há dois anos, sensivelmente.
P. – E por que é que te lembraste disso hoje? Espera, já não tinhas publicado isto antes num blogue? Agora deste em reciclar o teu próprio lixo?
A. – ?
P. – !
A. – Que considerações se te suscitam, afinal?
P. – Para mim era pegar nessa padralhada toda e...
A. – Estou a ver que hoje se afigura impossível dialogar contigo.
P. – Passa-me daí o entrecosto para pôr aqui na brasa.
A. – ...
P. – Acho bem.
A. – Achas bem o quê?
P. – O que disse o Papa.
A. – ?
P. – Exacto, my looser friend.
A. – Onde é que aprendeste inglês?
P. – ...
A. – Achas bem? Ou consideras tardio? Ou entendes que peca por defeito?
P. – Sim. Não. Não. Ninguém pede a um castanheiro para dar azeitonas.
A. – Não alcancei o entendimento dessa tua sentença.
P. – Não alcançaste porque és burro.
A. – ?
P. – …
A. – Sendo tu um contestatário de esquerda, eu consideraria que o teu alvitre caminharia no sentido de entender, como muitos, que a posição do Vaticano relativamente ao preservativo – e tendo em conta a disseminação do HIV em África, especialmente – era nada menos do que criminosa.
P. – Estou a ficar velho.
A. – ...
P. – E desde que te aturo que envelheço mais.
A. – Mas como assim?
P. – És um chato do caraças.
A. – Não! Como é que secundas a afirmação de Bento XVI?
P. – É lógica a estratégia da Igreja: abstinência; depois fidelidade; e no fim preservativo.
A. – Esta é a primeira vez que te ouço mencionar a palavra «estratégia» sem intentos jocosos.
P. – Lê o texto de novo.
A. – Não entendi.
P. – Esquece.
A. – Afinal, não achas desfasado da realidade?
P. – Não.
A. – ...
P. – Dar sempre azo aos desejos carnais, ser um escravo, acima de tudo, dos desejos, faz de uma pessoa poalha irrisória dispersa pelo vento.
A. – Isso é, com efeito, pouco revolucionário. E de uma qualidade poética duvidosa.
P. – Estás enganado, loser friend. Isso, hoje, é o que há de mais revolucionário. E mais uma dessas, não sei quê, sobre qualidade duvidosa - e rebento-te todo.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Crónica 16

Galguei a fronteira dos 30 anos e é esta a minha vida.
Quando fenecem as tardes, ou emergem as noites [na verdade, não há diferença; já não distingo crepúsculos], vou sentar-me a um balcão de uma tasca qualquer. Todos os dias – todas as noites. Só saio depois de…
Não virá ao caso [tudo e nada se justificam, quando embriagado], mas lembro-me do terror quando um bêbedo galgava, cambaleante, o caminho de acesso à casa. Algo aconteceria, de certo.
Uma vez, possesso, partiu a loiça da cozinha.
Não fui eu. Acho que não fui eu. Estou só. Fui eu ou um antepassado – não sei.
Ou não interessa. Tento escrever por vezes. Mas custa-me tanto – fico ferido e exaurido. Uma dia contarei os haustos.
Ontem [penso que foi ontem; ou hoje; não há muito tempo, pelo menos], ontem, dizia, entrei em casa e sentei-me à secretária do quarto. Estou só – penso que já o disse. Mais só estaria se tivesse companhia. Uma música reproduzia-se no computador – «Room a Thousand Years Wide» [Soundgarden]. Um quarto: uma Ilha de mil anos de tamanho – mil anos de permanência.
A meu lado [neste momento até pestanejar me custa; custa-me tanto] está uma separata ou um opúsculo. De vista turva, faço por fixar alguns caracteres negros.
«Na literatura insular são perceptíveis dois retratos humanos que traduzem especificidades da psicologia colectiva – e da sociologia – dos madeirenses.»
Mais adiante: «Constituem um par de categorias antropológicas que demonstram maneiras dissemelhantes de lidar com o meio insular: a Mulher Fugitiva; e o Homem Bêbedo
Sobre a minha testa, uma estante com livros. Prendi, sem levantar demasiado a cara [as pupilas coladas às sobrancelhas], a atenção nas lombadas. Respiro ofegante e gutural. Faço uma estimativa – mil haustos por noite. Viro então uma página sem olhar para baixo. Volto a ler.
«Contrariamente à Mulher Fugitiva, a atitude do Homem Bêbedo nada apresenta de fecundo. Os anos rodam e todo o percurso de vida esgota-se num gradual alheamento e numa completa esterilidade. A reacção da Mulher Fugitiva ao tamanho exíguo – seja em termos geográficos, seja, se quisermos, em termos mentais – da Casa Insular materializa-se numa evasão para o exterior – pleno de esperança. O Homem Bêbedo, ao invés, reage esvaindo-se no interior – eivado de animalidade e de violência.»
Calquei, cambaleante, a orla dos 30 anos. E é esta a minha vida – a minha clausura – a minha permanência.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Crónica 15

Na literatura colhem-se dois retratos humanos que, em certa medida, traduzem idiossincrasias da psicologia colectiva – e da sociologia – madeirenses. Constituem, com efeito, um par de categorias antropológicas que demonstram maneiras dissemelhantes de lidar com o meio insular. Estes retratos são: a Mulher Fugitiva; o Homem Bêbedo – ou o homem refugiado em vícios.
Vejamos o primeiro.
A Mulher – ou, com alguma propriedade, a Rapariga; na realidade, não obstante raras excepções, é a mulher jovem o conteúdo de um mais elevado número de referências literárias – Fugitiva é aquela que: se evade – foge, na verdade –, sem aviso prévio, do seu domicílio; é motivada pelas promessas de amor e casamento e de uma vida melhor fora do arquipélago; reage deste modo às clausuras geográfica e – de maior relevância – social, cultural e mental do meio insular.
As esperanças de uma outra vida são, sabemo-lo, gravemente goradas na maior parte das vezes; todavia, estas esperanças, e sobretudo a evasão correspondente, emergem de uma atitude fecunda, mais fecunda do que a que encontramos na categoria masculina mencionada – atitude, afinal, feminina.
Referências literárias a esta figura – e ao fenómeno de fuga conexo – podem ser encontradas, por exemplo, nos romances de Horácio Bento de Gouveia.
Uma expressão idiomática regional – todos a conhecemos – demonstra a presença inconsciente de ambos – da figura e do fenómeno – no imaginário colectivo da nossa sociedade: quanto alguém é inquirido insistentemente quanto ao paradeiro de fulana de tal – sempre uma parente –, acaba por exclamar: «Fugiu p'ra casar!» Podemos neste ensejo questionar se o amor foi a razão primaz para a fuga ou, antes, o pretexto.
Esta figura existirá com certeza noutros espaços geográficos também circunscritos – insulares e não insulares. Porém, se uma análise comparativa faria um melhor entendimento, neste particular também dilataria desmesuravelmente o esforço cognitivo.
[O dia tinha sido longo para este professor. No caminho para casa, atormentava-o a incompetência de não lograr o forjar dos conceitos com os moldes convencionais das ciências sociais. Mulher Fugitiva. «Que merda de conceito é este? As palavras do senso comum não fazem ciência», ruminava. Os alunos pouco se importariam – os seus pares, ao invés, não.
Ao fechar atrás de si a porta pressentiu, de imediato, uma ausência. O odor estava mais frio. Os artefactos da mulher que com ele vivia despareceram na totalidade – de todas as divisões.
Lembrou-se, então, da última vez que a viu: a expressão esfíngica – porventura com um esfumado tom de desdém, mas quem poderá saber? –, sentada no parapeito da varanda, com o primeiro cigarro matinal desse dia.]

domingo, 11 de novembro de 2012

Crónica 14

não ajuda nada dizer que é dor íngreme – esta que sinto – menos ainda perfurá-la – torpe – no papel – o carvão é o vestígio – queimadas que são as conversas dolosas e túmidas das inconsequências – não tenho os significados à ilharga – a ansiedade talha-me – tão depressa existe no horizonte térreo das minhas lentes – como nos declives centrípetos das minhas consciências – há que decifrar os ruídos – vindos não sei de que naufrágio à boca de cena – vindos – não sei – de que séculos – ruídos que somente de existir rebentam não anunciados – soterram os minerais das magnificências –as paragens bruscas do coração – tenho medo dos instrumentos berrantes que me prendem – o metal enferrujado – as coisas apressadas com tons fuscos – e pressa é só o que tenho – tanto que a luz não desenha os contornos dos quartos – depressa apercebo-me de mim – inconstante – primeiro sincero – depois salamurdo – surdo – mudo – espero enfim as grandes mudanças – bordadas com um novelo de linho – em pano de fundo por remendar – eternamente por remendar – na vertigem dos tormentos – probos e réprobos abismos por coser
sinto o fértil cultivo – a raiz fecunda – de tudo

é escusado afirmar que é um tempo simples – este – em que vivo – mais ainda marchetá-lo – luminoso – nos píxeis que me turvam os olhos – das conversas dolosas e entumecidas das asserções lapidares permanecem – apenas – as cinzas – tenho hoje todos os significados necessários a tiracolo – a ansiedade é atalhada por mais um cigarro – e uma agenda vazia – tão depressa sou no horizonte delineado das lentes – como nos caminhos ascendentes da minha consciência – sei decifrar os ruídos – vindos de barcos emersos dos naufrágios à vista de terra – vindos do meu século atrevido – melodias escorreitas que eclodem anunciadas com peso e medida – uma pedra polida de magnanimidade de régua e esquadro – do desalento à falta de talento – os ritmos binários da alma – manejo com zelo os instrumentos com que aprisiono a realidade – os polímeros obsoletos – as coisas apressadas em tons de branco – e pressa é ainda o que tenho – tanto – que já a noite não me apaga os contornos dos quartos – apercebo-me sempre de mim – sincero – depois ainda mais sincero – estancado – não espero mudanças – bordo o transitório em pano de fundo perfeito – perfeito para a eternidade – afinal tanto se me dá – como tanto se me deu – excepções são dedos de uma mão decepada
sinto o súbito irromper – a solar emergência – da esterilidade

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Crónica 13

«Hoje é um bom dia para morrer.»
Ouviu um eco mudo quando corria e dobrava a curva da estrada. No fim estava a casa, a sua casa, rodeada de chamas. Um passo mais era mais um átomo de ansiedade que a respiração arfante repelia. A casa era circundada de árvores – figueiras, nogueiras e uma borracheira. Entre as chamas e as paredes da casa, o perigo.
A presença deles era anunciada por silvos que dividiam o ar e as labaredas. Fez um esforço para se recordar do que ia salvar. Parou, as pernas flectidas, curvado com ambas as mãos nos joelhos. Lembrou-se.
Entrou em casa. Entreviu corpos que deixavam um rasto negro como fumo, que se dissipava perante os seus olhos. Uns sibilavam, rasos de insídia – outros não. Esqueceu-se. A cara – o discernimento – protegidos pelo braço direito curvado; a mão esquerda na parede. Voltou a recordar.
Entre os rostos vislumbrados, não encontrava – não distinguia – os dos seus. De novo o olvido. De imediato a lembrança, cada vez mais ténue. Tudo o que tinha foi vencido e perdeu a identidade. E ele estava sitiado – dentro das suas próprias muralhas.
Sentiu, finalmente, a sua verdadeira melancolia – uma melancolia sem razão e sem sentido, que sempre conheceu e que sempre esqueceu. O fogo começava a entrosar-se com as traves, os móveis, o soalho. Tinha de trilhar o caminho de volta, pensou, quando ecoou de novo: «Hoje é um bom dia para morrer.»
Saiu da casa. Vislumbrou ainda os mesmos rostos e os mesmos miasmas negros saturados de perversidade. Antes de percorrer célere a estrada sentiu a borracheira que outrora ameaçou fracturar as muralhas do seu lar. Agora não importava.
No caminho, afinal, acompanhou-o – e ao fogo que alastrava –, o verdadeiro perigo que lhe invadiu a respiração: as memórias e os esquecimentos do quotidiano – o quotidiano raso de contentamentos insidiosos.
Entes a ganhar vida descarnada ficaram prestes a abocanhá-lo. E um véu negro desceu sobre a curva da estrada.

Uma vez acordou um homem, agonizante, de um pesadelo num quarto de espelhos. Os espelhos replicaram até ao infinito os despertares.
[Ontem foi dia de Todos-os-Santos e eu fui encomendado desde sempre a todos os santos. Hoje é dia de Finados. Esta é a crónica número 13. E hoje é um bom dia para despertar.]

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Crónica 12

Há 18 anos.
Desci apressadamente as escadas. Já não me lembro se motivado por atraso, ou por qualquer entusiasmo momentâneo, a verdade é que desci célere as escadas. Antes de saltar para o caminho – um salto que me colocaria em perigo se um automóvel… –, recordo-me, afinal, de pensar nisso – que seria perigoso, que não deveria fazer aquilo, que um carro poderia me colher. Mas a constatação não vinha acompanhada do antídoto para a acção; e saltei.
Não ouvi guinada, não ouvi pneus a deixarem um signo sobre o asfalto. Um automóvel, porém, havia parado. Foi com surpresa que o vi, imagine-se, após os meus pés tocarem o solo e olhar para o lado. Um homem – o condutor –, sozinho, com o queixo fora do vidro, admoestou-me, increpou-me, insultou-me. «Vai pr’ó caralho!». As palavras dele, de cortarem o ar de tão violentas, maldizendo-me e ao sobressalto que sofreu – e ao potencial desastre que poderia ter sido –, fizeram-me entrar num abismo de ansiedade; sobretudo as palavras e os insultos – que, com os meus 14 anos, considerei exagerados –, e a ideia também, mas em menor medida, de poder ter sido o meu corpo a deixar um signo sobre o asfalto. Uma taquicardia fez-me saltar com violência o peito.
Ontem.
Subia, seguro, a estrada; não era muito íngreme e no topo havia uma passadeira. Eram 19:20, pouco mais ou menos – o dia estava a acabar. Poderá ser uma frivolidade – neste momento de rememoração preciso de frivolidades –, mas conduzo um Toyota branco, de 2001, comprado em segunda mão – um bom automóvel, fiável, um excelente motor. «Uma peça para um motor Toyota? Esses carros levam peças, mas não é pr’ó motor; o motor não tem fim» – ouvi há dias numa loja de componentes de automóveis. Não se tratava do meu, diga-se.
Bem, eram 19:20. Um miúdo percorria o passeio. Quando cheguei à passadeira, faltavam-lhe alguns passos – e não parecia que fosse atravessar. Abrandei antes de transpor as listas com o automóvel e alguns raios de sol encegueiraram-me por um segundo. Avançava, contudo.
Ouvi um baque contra o capô. Parei, incrédulo. Puxei o travão de mão e saí. Uma taquicardia fez-me saltar com violência o peito.
Hoje.
Estou a tentar reconstituir o que aconteceu. O miúdo tem 13 anos? 14? Saberei logo. Ontem garantiram-me, no hospital, onde ficou para observação, que não era nada de muito grave. «Vai pr’ó caralho!» – digo eu, sem os lábios se moverem, a olhar o asfalto depois de estacionar. Coitado do miúdo.

sábado, 27 de outubro de 2012

Crónica 11

Após revirar os olhos, lançar uma baforada e mastigar em seco para se fazer notar, afirmou: «Os homens não conseguem compreender as mulheres. Quem diz isto? Dizem eles mesmos, os homens, e diz também esta sociedade apressada. Porquê? Por que razão não as entendem? Porque escapam elas à compreensão? Não considero ser de difícil explicação. A dissimulação, a inconstância, a insegurança nas acções e nas reacções delas levam à confusão e à incompreensão. Sim, à confusão deles. E quem suscita confusão e se esquiva ao conhecimento tem acesso rápido e sólido – acesso visceral – ao poder. Confunde e logo enfraquecerás e conquistarás. Aí tens.»
[Afirmou ele. Depois, revirou os olhos, de súbito cobertos de uma película húmida, e dissolveu as seguintes palavras. «E, no entanto, o cantautor entoa, em «The sweetest little song», humilhando o monstro racional satisfeito da existência deste tumor, desta verdade terrífica: «You go your way / I'll go your way too». E, afinal, porque não? Reconheceríamos algo se assim não fosse? Que sobraria, que restaria no fundo do nosso quotidiano? Meu Deus, que até o amor deixámos suar para além do que nos era necessário – a nós, seres de lodo, de barbas e de camisas puídas. Eu era capaz de estacar à soleira da porta dela no fim dos dias – orgulhoso, sim, e de cabeça cabisbaixa, sim, à espera que ela viesse com os últimos minutos de claridade. Eu era capaz de deixar tudo – de decompor o nome dela e, com as letras baralhadas, escrever a última elegia ao mundo. Deus, digo, não é – nunca foi – uma hipótese a considerar. Ela bastar-me-ia como o pão e o sal e o vinho.»
Interrompeu-se-lhe a boca, que ficou semiaberta, e ficou a contemplar o espaço vazio por cima do meu ombro. Se eu não tivesse tossido, os dez minutos teriam durado uma maior eternidade – para mim e para ele.]
A incandescência do cigarro tinha-se extinguido. Acendeu outro. Lançou a primeira baforada, virou a cabeça, com vigor, para a direita, mastigou [de novo para afirmar importância] e concluiu. «O que é que eu estava a dizer? Sim, a confusão deles e o poder delas. A melhor prova disto está no olhar esbugalhado dos homens comprometidos, que negam, quando lhes apresento, este meu curto – mas incontestável – argumentário. Eles negam a verdade e a possibilidade de compreensão, como só se nega uma verdade terrífica. Esse olhar é típico – esbugalhado, bruto, minado –, como quem parece hipnotizado pelo vazio sem dar conta do tempo que passa.»

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Crónica 9

Dispersão é o signo do nosso tempo [Egocentrismo é o outro signo – talvez o verdadeiro signo – mas não falarei disso agora. Não quero – não posso – me dispersar.]
As opções abriram-se na hodiernidade, como nunca na História. E as escolhas urgem e perseguem-nos – em tudo. As ansiedades que nos assolam, patológicas ou não [quem saberá a diferença?], têm por esteio axial a angústia em arrostar uma escolha entre duas, três, muitas opções – nas relações interpessoais, nas coisas materiais.
Ademais, já não há costumes – e já não há normas sociais. Quer dizer, há. Duram pouco, muito pouco, e sobretudo não se admite que sejam ancorados em costumes e normas grávidos de séculos. [Não posso estar a inserir constantes variáveis no discurso; esquematizemos a realidade para que possamos falar dela.]
As nossas opções não são, afinal, as dos nossos avoengos. Dispersamo-nos hoje entre amigos – virtuais, sobretudo, ainda que de carne e osso [Quem pode, hoje, nomear um trejeito ou um meneio de um amigo?]; dividimo-nos entre sentimentos e paixões e amores; espartilhamo-nos entre escolhas de opções profissionais e educacionais; não discernimos entre múltiplas formas de ocupar o tempo, moribundo de tão vazio [e no qual somos moribundos e vazios].
Muitos de nós, portanto, vêem-se deambular entre espaços sem cheiro, sem toque e sem gradações de cor solar – apenas cores aberrantes e sons ajustáveis de imediato. Por aí adiante. Ou por aqui parados.
O mundo abriu-se. Nós, desgraçados, devolvemos-lhe medo, dormência, tédio, insónia, adiamento, dispersão. Na senda de mantermos opções em aberto, nada escolhemos e tudo coleccionamos – experiências, ideologias, agressões, limites, palavras –, como troféus enrodilhados num fio de memória que apresentamos, orgulhosos [pensamos nós], aos nossos semelhantes. E assim fazemos para calar o silêncio incómodo que não suportamos, e para escapar do verdadeiro afinco em tomar um trilho decidido.
De modo que nada nos define. Não somos crentes nem descrentes. Não somos simples nem complexos. Não sabemos algo nem o contrário. Não fazemos isto sem fazer aqueloutro.
Arcamos com uma opressão que os mais velhos não sentiram [e que não compreendem] e que os mais novos não sentirão – e que os fará execrar-nos.
Sobre nós pende o fardo, a impostura, de sermos o tempo da transição – ou de inaugurarmos o tempo da constante transição – e de termos de explicá-lo [a este tempo] aos vindouros. Explicar e justificar as nossas irresoluções. Quem compreende? Quem compreenderá?

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Crónica 8

Sento-me com o fito de lavrar uma crónica – e nada me ocorre.
O problema é maior. E esta crónica, elaborada com a lenta progressão do número de palavras, no canto inferior esquerdo, a perseguir-me – pior perseguição do que aquela animada pela nossa constante vigilância não há –, é o meu diagnóstico e o meu clamor dissonante – a minha assunção, afinal – do medo e do desespero.
67 palavras. Agora, 70. Continuemos.
Nada me ocorre. Ocorrerá, eventualmente, sem dúvida, o mundo não acaba por mim, isso quereria eu, saber-me ponto, vírgula, reticências – e travessão – do mundo. Que fazer, entretanto?
Titubear; prestidigitar; vaguear; olhar; fumar um cigarro – tudo concorre para a mente vazia. E eu que sabia – e sei – que a mente em vácuo, que neutraliza a gestação de germes, era o antídoto para a tristeza. Sabia – sei. Porém, não se vence um peão de infantaria – espada curta, couraça fina de couro a cobrir o tronco, escudo de carvalho – e se sai vangloriado e valeroso. E então o cavaleiro munido de lança, espada longa, armadura de ferro com 3 camadas de cotas de malha que não deixa vislumbrar um ponto fraco? Há glória sem o insucesso certo e a confiança absoluta na sorte? Há…?
Esvai-se, portanto, a tristeza. Quando quero? Sou um semi-deus. Fica o medo. Sorte contra medo? Dá para rir – dá para golpear os peitos a rir.
228 palavras. Neste momento, 232. Está quase.
Sentei-me e imobilizei-me [nunca consigo aquietar e domar as pernas, sintomas da minha obsessão] para uma crónica. Que merda! Que merda de alusão a dois elementos dos exércitos medievais europeus, citados de memória e com imprecisões e anacronismos! Na realidade, tudo se pode e justifica dizer – e escrever – quando nada temos para dizer – e escrever…
O computador acabou de se desligar por sobreaquecimento. Não minto. Como continuo a escrever? Não continuo – continuei depois. Esperei pelo arrefecimento; fumei um cigarro e aproveitei para pensar no fim da crónica – e noutras coisas, sobretudo em projectos que nunca levarei até o fim. [Agora minto, presumo que minto.] Aproveitei para escrevinhar um aforismo. Não devemos vigiar o que nos persegue – mas não devemos, igualmente, fugir do que nos persegue.
360 palavras. Neste exacto momento, são 367. A crónica fica por aqui – e o erro também. Divulgo-a no blogue? Ninguém me lê – e o acto falhado faz-me ainda ganhar uma parcela do dia.
E não mitigo o medo, em movimento frenético, a produzir mais energia e mais calor.

Crónica 7

não me concedes a dádiva de te eclipsares da minha retina enevoada – os teus olhos de pedra lascada emparedados pelas mãos – os teus braços a manter o calor que sempre procuras junto ao peito e às têmporas
és a síntese irresoluta e irredutível de todas as coisas tocadas pelo dedo divino – a criação mineral sincrética – o fruto exumado da terra – os fluidos condutores – a depredação fértil – os suspiros que semeiam os oceanos – a matéria informe disforme – a negação do dia seguinte e do dia passado – o fim do dia inexistente
és a moldura das gramáticas e das noites de rebelião – o nó de enforcado que mantém a tribo – o cadafalso as catacumbas as lâminas as tenazes que salvam a tribo – a miríade de cores dos teus cabelos tinge todas as civilizações – todos os limbos – todos os purgatórios – todos os infernos – todas as ausências – todas as permanências – todos os inícios – todas as negações dos inícios e dos fins
ode a ti – oh mulher intemporal incomensurável insondável – instrumento e padrão das medidas – fora das medidas e das quantificações dos homens – dos homens tépidos líquidos brutos ordenados concluídos
ode e ódio a ti – mulher una e todas as mulheres – pelo homem dividido e pelos homens esboroados
vulto gravado nos átomos partículas gotas – o cosmos na vida íntima – a vida poderosa na vida ínfima – o sentido da inutilidade e da derrota advindos da raiva – do rancor – da força – dos semblantes fuscos e fundos da masculinidade transitória
o calor que cobiças – é a tua única centelha dependente de nutrimento – a tua porta aberta – obsessão após a necessidade – ou desprendimento e desprezo após a voragem e a saciedade – és porta aberta – e porta fechada – e os humores imperscrutáveis – se se ouve um sino não se conhece a liturgia – nem deus rejeita a insinuação completa – e até deus é conhecido e se deixa escrever
tu – tu – tu – vós – a mulher que diz no domínio do indizível – que faz no abismo do intangível – as mulheres que fecham e abrem o círculo da vertigem – da memória colectiva – sem tempo – de todo o tempo
eu – tenho uma memória milenar e individual a que prestar tributo

sábado, 17 de setembro de 2011

Crónica 6

Bati à porta e ali fiquei, mudo. Sem qualquer palavra vinda do interior, tentei forçar a entrada mas a porta não estava trancada. Entrei.
Vi um homem sentado no chão – as pernas estendidas, as costas apoiadas na parede, a cabeça baixa. Uma arma acariciava-lhe a têmpora direita – e o dedo acariciava o gatilho. Sentei-me calmamente no sofá.
Zé, que há de novo?
É hoje, Filipe.
É hoje o quê?
É hoje que me vou embora.
Conheces o destino para onde vais?
Não me interessa.
Sim, pois claro, essa informação não tem importância.
Vou-me matar e brincas.
Não precisas da arma para isso. Há mais mundo para além daquela porta.
Não aguento o mundo para além…
Junta-te ao clube.
Pá, vai-te foder.

Sabes?, hoje apercebi-me de uma coisa. Somos todos figuras geométricas com arestas e ângulos bem vincados – não prescindimos das nossas medidas e não pensamos em mudar a nossa configuração. Os outros, figuras geométricas como nós, ou bem que se adaptem a nós ou…
Estou farto das tuas filosofias da treta!
Chamar-lhes filosofia é favor teu [e ri nervosamente].
Ergueu-se de supetão e dirigiu-se a mim. O cano da arma sempre colado à têmpora. Levantei-me também.
Tem paciência, pá, hoje não vais.
P’ra quê adiar?
Nem vais adiar – nem hoje nem amanhã.
Porque é que sequer te dás à maçada, caralho?
Fiz um pacto contigo, não te esqueças.
Que pacto? [As palavras cuspidas na minha cara.] Nunca fiz nenhum raio de nenhum pacto.
Fiz eu. Um pacto unilateral. Só assim há amizade – com um pacto, mesmo unilateral.
Tens de rever o teu léxico.
Está certo. Dá-me a arma.
Achas que preciso da tua compaixão? Não preciso da compaixão de um fraco como tu!
Eu sei. Dá-me a arma. 
Zé baixa com lentidão o braço até a arma repousar, suspensa, ao lado do corpo tenso.
Que se foda!
O braço reergue-se mas eu faço suster, pelo pulso, o movimento; fiz pousar, com firmeza, a arma no meu peito.
Vamos lá!
Foda-se!
Sim, vamos lá a ver essa coragem – coragem ou raiva. Afinal o teu dedo não largou de tocar no gatilho.

É p’ra isso que aqui estou?

No sítio onde rememoro, sozinho, numa nebulosa, estes acontecimentos, o tempo não flui, as cores são as de um néon branco, e a ausência de ar não permite o som.
Presumo que a arma tenha disparado acidentalmente.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Crónica 5

Tudo em redor [dizia-me ele] está pintado em tons de escarlate e de ocre. [O lábio leporino, de tão agitado, quase que se esventrava em mais uma fenda.]
Há dias, juro, vi pessoas a incinerarem-se, chamas que desciam pelas costas e pelas ilhargas, prendendo-se à cintura. As mulheres irrompiam em chamas mais lúgubres, um vermelho de sangue coagulado. Mas juro que vejo isto.
Costumas vislumbrar estes cenários de terror?
Pá, só fazes perguntas estúpidas. Qual terror? Olha ali, olha ali de novo, não vês? Eu tenho dito às pessoas o que vejo.
E elas acreditam?
Mais uma pergunta estúpida. Quer dizer, repara, quando eu falo nas chamas, nas cores de sangue em coágulo, ninguém me riposta, nem um esgar de espanto ou de nojo ou de terror – estás a ver como não há terror? –, todos desviam o olhar, balanceiam nervosamente na cadeira. Há fuga, não há negação, há culpa, não há increpação.
Por que razão achas que tens essas visões?
Pá, foda-se, mas quais visões? Vejo tudo, digo-te. Razões não as tenho – já que perguntas. Nunca vi muitas coisas antes, é verdade. Fui sempre vizinho dos sentimentos, das sensações, dos vícios. Imagina um homem pálido de experiências, tão pálido que a visão forjou o mundo estranho, perdido dos mapas, dos pontos cardeais.
Curioso. Perdido dos pontos cardeais?
Costumas repetir as últimas frases dos outros? Raios. Sim, perdido. A cor lívida do vazio passou a estar impressa na retina. Sem experiência não há visão.
Não será que a experiência é o método individual mais falível de aceder à realidade?
Depende. Quais são as alternativas?
Sei lá – estudo e, precisamente, observação.
Tretas.
Hum?
… Durante muito tempo nada vi, nada senti – é como te digo. Agora que continuo na penúria, vejo chamas, as cadências do rubro, que vieram tomar o lugar do branco da cegueira.
Escarlate e ocre misturados não produzem todos os tons de vermelho.
Ouve-me, faz-me essa vontade.
Ouço-te.
As chamas, que são? – pergunto-me.
Qual a resposta?
Não sei. Tenho medo que a penúria traga agora a escuridão. O meu remédio é o fogo. Penso que serei o próximo a arder.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Crónica 4

O egocentrismo? Muito havia para dizer [ou para dizer-nos].
Começaria por defender que o número dos pecados mortais merecia ser actualizado; em vez de sete, oito, sendo o oitavo – contribuição máxima e paroxística dos nossos tempos – precisamente o egocentrismo [simultaneamente semente e síntese dos restantes].
Muito por onde escalpelizar, com efeito. Permiti-me apenas, por horror à página em branco e à tarefa de escrevinhar palavras forçadas, e porque sou bem locupletado de temores, apregoando-os aos sete ventos, permiti-me, dizia, abordar alguns fenómenos tocantes ao modo como os hominídeos estruturam o diálogo.
Em primeiro lugar, que acontece? Ninguém ouve ninguém. Verdadeiramente falando, ninguém escuta ninguém. Ao invés de diálogo – dois monólogos que nunca urdem uma mesma malha. O tempo ocupado pelo oxigénio tingido das palavras de um “parceiro” é, simplesmente, o tempo no qual o outro “companheiro” se entretém a forjar as suas próprias – e próximas – elocuções retóricas. Faz lembrar, considerações outras à parte, diálogos de crianças que começam a dar os primeiros passos no entrosamento e empatia sociais. E, nesse sentido, decadentista como sou, tenho de proclamar uma verdadeira involução civilizacional.
O diálogo não existe, portanto. A existir, ou seja, quando as palavras são ouvidas – e não apenas lábios a sacudir e a estalar –, não produzirão qualquer efeito no outro. De uma desatenção à forma, passamos a uma recusa do conteúdo. Tudo se centra em torno de nós. Porque eu senti a raiva; porque eu senti o afecto; porque eu é que tenho o medo; porque eu é que sofri; porque eu é que cumpri ou deixei de cumprir a porção – ínfima, na maior parte das vezes – da vivência.
Tu tens as tuas agruras; os teus amores; os teus sofrimentos; sem dúvida, os teus sucessos. Nada do que é teu suplanta – suplantará, jamais – o que é meu. A mera transmissão supérflua de experiência é apenas palco para que se transmita, de modo chão, as nossas incontornáveis experiências.
Desta nascente são vertidas no mundo asserções moralistas – sendo nós o centro do mundo, somos dele também a norma e o protótipo – e, quando não há o outro, também não há o concreto, o objectivo, o que é e permanece diferente.
Sobram categorias e abstracções facínoras.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Crónica 3

Eu explico-vos o que coarcta a mobilidade social de um indivíduo: a tribo.
A tribo que desdenha de qualquer conseguimento fora daquele a que a sua tradição e o seu grupo social pertencem [e a mobilidade passa logo por aí – por pensar e agir fora da tradição e do grupo social a que se pertence]; a tribo que encolhe os ombros perante qualquer sucesso ou dificuldade que provenham de sistemas exteriores aos seus; a tribo que tece comentários de um sarcasmo de cinco tostões; a tribo que desvaloriza e que não reconhece um capital de orgulho novo perante os outros [que estão fora da tribo]; a tribo que olha de soslaio ou boquiaberta no mais simples quotidiano [por exemplo, quando se folheia um livro].
Há quem professe a ideia axial da maior liberdade pessoal possível – há quem a defenda com tudo o que tem e pensa. Quem o faz não pode eximir-se, por conseguinte, da agudeza da responsabilidade individual e social que provem de tudo o que faz e pensa. Logo, tudo o que nos acontece – ou não acontece – advém da nossa acção – ou inacção.
Porém, nunca fez mal a ninguém pensar em termos contextuais. [As ciências sociais, com todo o seu cortejo de ideias transvestidas e garridas, trouxe, pelo menos, o condão de obrigar a matutar no contexto onde nascemos, laboramos e morremos]. Vencer é saber os obstáculos mais próximos – os mais silenciosos, morosos, insidiosos e mortais. Estão sempre aqui ao lado. Vencê-los equivale a respirar: é acção constante, de vigilância contínua, de inspirar a desadequação sentida – em nós projectada – e de expirar o desconhecimento e o desdém que se nos colam.
E pensar em modos contextuais é apenas isso: um conjunto de instrumentos de entendimento. Ao corajoso, exige-se acção. [É pela acção que se lhe concede esse epíteto.] Poucos, no entanto, reconhecem coragem na necessidade de conhecer o que temos de percorrer e de transpor. É esse o primeiro denodo, o primeiro arrojo – e é-o ainda porque a enormidade da tarefa, quando reconhecida, será, porventura legitimamente, o primeiro obstáculo intransponível.
Não há luta de classes. E de certo modo não existe luta de classes porque confinamo-nos, por instinto primordial, ao nosso grupo social. Do grupo social sair-se-á apenas por engano ou distracção [se a tribo deixar – por exemplo, trocando o que acima expus por entusiasmo infantil]. Dando nós fé da situação, a de uma efectiva mudança de estatuto social, duas soluções daí brotam. A filantropia; o desprezo pelos outros – não raras vezes coligados.

domingo, 14 de agosto de 2011

Crónica 2

Nós, os católicos latinos – pueris, agressivos, tribais, afectuosos –, não compreendemos e tememos qualquer distância prévia entre os homens. A distância antecipada, a existir, é uma traição à nossa matriz cultural – ou o produto de sérios traumas, desilusões e frustações [de amor ou de amizade].
Sem prova – retumbante ou continuada – em contrário, entrosamo-nos, aproximamo-nos, damos e solicitamos o possível – quer dizer, tudo! – em troca.
Um dos modos de trilhar, em minutos, as distâncias decorrentes das diferenças de carácter, de sentimentos, de experiências e de mundividência [afinal, as distâncias quase intransponíveis em tempos de agudo egocentrismo], é a confidência. Entenda-se: conceder e partilhar informação que, sem qualquer valor imediato, permite ao outro aceder a um acervo parcial dos nossos segredos; ou, se se quiser, que permite ao outro transpor as portas e ser hóspede da nossa casa [daí, também, a nossa prodigalidade na hospitalidade].
Quando a partilha não se coíbe de invadir a casa de terceiros – aí estamos no terreno da coscuvilhice, esse igualmente excelente expediente de cruzar espaços íntimos mentais e de construir amizades, transitórias ou não.
[Ao mexerico, ou à bilhardice, conceito cunhado pelos meus antepassados, dedicarei uma crónica futura.]
Em tempos de egocentrismo e de perniciosa intrusão de preceitos e cosmovisão trazidos, sem mais, de outras latitudes [ao norte do Velho Continente], a minha geração evita a coscuvilhice [detesta-a por mera auto e hetero imposição progressista, abstracta e vazia].
Daí decorre a relevância, por falta de outras ferramentas, da confidência sem crivos ou filtros. Ao abrir do pano, o espectáculo consiste numa troca de informação, entre amigos, conhecidos e recém-conhecidos, que vai para além de comezinhas discussões. Não sabemos discutir ideias e apetências sem sermos agressivos, indiferentes, surdos, monossilábicos – ninguém pede ao esquilo, que trepa árvores, que voe.
Sabemos e falamos da mecânica do amor e da amizade, tendo-nos por maquinistas. E pretendemos, na primeira pessoa, aprender e ensinar – como eternos alunos e mestres.
O próximo passo, fim do processo de imitação de um ideal pálido e estranho – para nós, filhos de Trento – de impessoalidade, será o de negarmos até este reduto de calor.
Que Deus nos valha.

Crónica 1

Um jovem professor abraça a noção, sobretudo quando a dúvida vocacional se lhe implanta no imo, de que é um agente de mudança do mundo – que cada aluno é uma molécula de uma matéria transformada e transformadora.
[Quando a dúvida vocacional não existe, quando há a descrença na vocação – descrença que é fardo e apanágio de poucos –, presumo que o melhor que o pedagogo pode é aprender uma profissão manual, sem admitir aprendiz.]
O jovem professor reproduz, destarte, geração após geração, um dos enganos mais antigos desde que a humanidade teve de lutar pela sobrevivência [luta que teria de salvaguardar, em primeiro lugar, a sobrevivência do conhecimento]. O engano: que conhecimento é mudança e que a mudança inscrever-se-ia numa linha de progresso sempre ascendente. Veios de transmissão ideológicos e moralistas de uma teleologia bem vincada – afinal, que somos nós, primordialmente? Ainda que zelando pelos saberes tradicionais, conservando-os, que somos nós, quando ensinamos, senão pretensos obreiros de desenvolvimento controlado e ingénuo?
[Meia crónica escrita, parto agora em busca das palavras certas.]
A mim o destino concedeu a oportunidade institucionalizada de exercer, por breve tempo, a profissão mais nobre do mundo. Deste modo: efebo perdido entre uma horda dos entes mais calculistas que pude conhecer.
A adolescência é um conceito que tem o condão de, apenas enunciado, se tornar, por si só, argumento justificável dos comportamentos de uma faixa etária que a história recente fez nascer.
Uma sala de aulas cheia de olhares carnívoros e lúbricos – e o meu corpo assim dilacerado – era o espaço habitual do exercício da profissão.
Fora, a savana rugia, de agressividade e sentimentos contraditórios.
Alguns cães transpunham as entradas da escola e confraternizavam com os estudantes. Elas – sobretudo elas – e eles acarinhavam os bichos. Não obstante, por razões sanitárias – não sei se a favor dos animais ou dos alunos – tratava-se de expulsar os primeiros usando métodos coercivos.
Duas alunas observei, da janela de uma sala de trabalho do 1.º piso. Principiaram a chorar copiosamente quando um pequeno cão foi açaimado de modo grosseiro – e levado. Choravam até que – os meus olhos de espanto sinistro –, em acto contínuo, começaram a gargalhar furiosamente, amparadas uma na outra, curtindo o sentimento de pesar encenado que só podia resolver e explodir em esgares de riso. Este vai-vém manteve-se, não me lembro já, mais uma ou duas vezes: choro, gargalhada, choro, gargalhada.
Afastei-me da janela inseguro, ainda hoje, passados quase 10 anos, do que vi.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

[Início]

Este blogue pretende ser um depositário de crónicas, dando corpo a um projecto pessoal - o de publicar, pelo menos, uma crónica por semana [com extensão mínima de uma página A4]. O húmus do que escreverei consistirá em ficções, memórias, confidências, costumes, ideias e teses [ou tudo isto mesclado]. Espero cumprir com esta aguda, mas fecunda, auto-imposição - se não cumprir, presumo que nada de funesto ocorrerá.