sábado, 27 de agosto de 2016

Crónica 57

o que é a maturidade?
[o que é a sabedoria dita pela boca de uma lontra que não tem um dique esculpido – à força de dentes amarelos – aonde voltar?]
é um quarto sem sombras – quer dizer – é um quarto com sombras – se não bem-vindas – pelo menos toleradas – amancebadas – se não toleradas – pelo menos sombras que são companhia
é um cofre de segredos que enterramos dentro da coxa – deitamos a chave fora porque não fechamos o ferrolho – e acordamos lembrando – com pânico – o lugar onde está o cofre – porque dói – e fica a carne envenenada de chumbo – o que está dentro é sabido – o que está dentro não nasce ou revive em palavras – não o pode fazer
assim é – se assim é – porque persistes em caminhar de candeia à frente das ventas como vestes desenrugadas?
porque vais e vens – e vais – e pões-te a rabiar como um cachorro – a ladrar para a tua própria coxa – para que todos os passantes – pequenos – parvos e compadecidos – parem – e fiquem – de mão no queixo suado em bica – a deitar nesse teu lombo danado a água que nunca há-de te lavar?
de que te falo eu?
neste momento nem eu sei – nem eu sei o que te diga
mas sei que não há horas para ti – para ti – que és da horda dos traidores multiplicados
porque não vês a hora parda de cansaço em que os coelhos saem das tocas – não vês – nem com o uísque – ou o vinho – ou a cerveja cujo estágio no frio dispensas – que levas à boca sôfrega
não vês a hora esguia em que os gatos afiam as unhas nos troncos das árvores [se as afiassem nas tuas patas malditas nem o sentirias]
não vês a hora devastada em que os lobos – que esperam por ti [e tu não sabes dessa espera] – saem de cabeça baixa dos covis – saem mecânicos – conformados com a necessidade de morte – prontos a serem lobos – e tu pronto a seres caça
não vês a hora em que as borboletas procuram uma sentinela – e fiam no fuso o equilíbrio da roda desbastada do mundo
não conheces a hora – lavada nos teus furores de animal – em que tosses – com fraqueza – após um orgasmo
nas horas – nessas horas – em quaisquer outras – sabes sempre o que fazer – e não sabes o que fazer
pensas que as conheces porque – segundo um segredo alardeado te revelou – jogaste damas com elas e tentaste armar uma pata de galo – não conseguiste e então tentaste anular as regras
mas as horas – assim indistintas – assim indizíveis – são-te uma clausura imposta pelo teu crânio nivelado – se elas não existissem continuavas a existir tu – que as cartografas com o teu astrolábio gretado – que delas falas no teu portulano de uma dimensão espelhada na tua cara
não sabes – e mesmo que soubesses – faltar-te-ia o cabrestante à boca do calhau para puxar o contrabando para terra firme
não sabes nada – não vales nada – e assim ficas – meu caro – salafrário – nessa tua cabotagem à vista constante de terra daltónica – nem horas – nem penhascos – ou baías – nem penhores – ou cizânias – nem caudas de ornitorrinco – ou dodós moídos em mandíbulas de porcos – nada
estou cansado – estou cansado de falar contigo – ficas aí – assim – sempre – parado – igual – na tua ablução mental – que não distingues de um vómito – que mete nojo ao animal para quem o nojo não existe
[um espelho foi traído por um prego indolente – e partiu-se no chão]
[alguém tropeçou – cortou-se – verteu sangue – mas não houve sobressalto – ouviu-se um rosnar manso por detrás de uma porta – ou vindo do outro lado de uma sombra]

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