sexta-feira, 15 de julho de 2016

Crónica 53

Explicação da página em branco: segura a duas mãos a picareta; levanta-a bem; deixa-a cair para trás. Explicação da picareta: corta as unhas; levanta a caneta em ângulo recto sobre o papel; afia bem o lápis; sobretudo, evita escrever a vermelho – há que evitar sugestões escusadas. Explicação do sangue: dissolve-o em água; bate-lhe sob a epiderme; há que mantê-lo fluido; há que fazer dele barragem. Explicação da barragem: há barcos, como homens, mal calafetados e sem matalotagem e marinhagem; estes barcos nem em rios navegam. Explicação do calafate: tapa bem os buracos da tua casa; encerra as entradas de lagartixas; fecha as saídas de oxigénio. Explicação da autarcia: se não começar pelos desejos, não começa por lado nenhum. Explicação do oxigénio: mistura-o a teu gosto; com fumo de cigarro, por exemplo; não o mantenhas demasiado puro. Explicação do cigarro: não há dias sem marcos, sem ritmos, sem balanços – sem pontos de entrada e de saída. Explicação do dia: pesa-o de acordo com os teus pesadelos. Explicação do pesadelo: se um peixe falar esperanto enquanto lança uma baforada de uma cigarrilha – tudo bem; se um homem comum tomar uma simples navalha e atacar, comum e simplesmente, alguém – tudo mal. Explicação da navalha: lembra-te do chavelha, quando a enterrava no bucho de alguém – “Guarda-me esta até amanhã”; usa-a marinada em metáfora; substitui-a por algo que fira e que cicatrize logo – uma memória, por exemplo. Explicação dos exemplos: tal como os factos, ou as folhas arrancadas das árvores, não vagueiam simplesmente por aí, à mão de colher. Explicação da colheita: um pão azedo, vindo da nossa eira, traz um conduto doce. Explicação da vindima: deita mais, ou menos, enxofre no vinho – como queiras; fizeste o vinho, terás de bebê-lo. Explicação do imperativo: bate o pé – na dança, na opinião, na perversidade; no que for, bate o pé – há gente que tem pés mais pesados do que os teus. Explicação da opinião: em caso de encurralamento, defende-te; depois, no rescaldo da refrega, não mintas a ti próprio – e penitencia-te. Segunda explicação das opiniões: ao contrário de factos e argumentos, ou ao avesso de grãos de trigo numa eira desempregada, estão simplesmente aí, à mão de semear. Terceira explicação da opinião: por vezes, ou sempre, estás – apenas e tão-só –, errado. Explicação do curral: deita, no meio dos encurralados, opiniões bastantes e terminantes; afasta-te e deixa cozer; volta quando estiver pronto a servir. Explicação da perversidade: veja-se, para melhor dilucidação, a explicação seguinte. Explicação da política: a arte de mudar de posição; a arte de mudar consoante a posição. Explicação da posição: contra factos e argumentos, há poder. Explicação do poder: subestima, sobrestima, defende, ataca – como quiseres; prepara-te para pagares pelos teus erros. Explicação do erro: quando saíres de casa mete um capuz na cabeça; óculos escuros também são úteis; anda rápido; foge à primeira oportunidade. Explicação da pressa: está quase terminada a crónica. Explicação da crónica: o sangue em coágulo dissolve-se em tinta preta. Explicação da tinta preta: uma folha em branco violada.

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