sábado, 26 de dezembro de 2015

Crónica 37

«Repara nisto. Ainda ontem parecia que eu tinha acabado de ver o fogo-de-artifício na viragem para o ano novo. E agora o ano novo já está moribundo. E já daqui a dias outro fogo-de-artifício virá, simultaneamente em jeito de exéquias fúnebres de 2015 e de celebração do nascimento de 2016. E assim será nos próximos anos, cada vez mais céleres, mais inconscientes, com cada vez menos memórias. Parece que ainda ontem tudo começava de novo – e, afinal, quando nos apercebemos, já tudo acabou. Assim será – até morrermos.
[...]
«Pois, mas repara. Qual é o problema? Isto não há volta a dar. Há dias estava deitado, na madrugada escura, a ver as manchas de humidade no tecto do quarto e as teias de aranha a ondularem, a fazerem sombras vivas com as réstias de claridade. Repara. É sempre difícil as coisas obscurecerem por completo. Os teus olhos hão-de encontrar sempre uma réstia de claridade. Se quiseres ver. Se não quiseres, também não há mal. É assim a vida.
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«Sim, mas... Depois fazemos balanços. Mas um balanço muda como muda a nossa matemática do tempo. Daqui a dias vais fazer balanços não de meses, nem de estações, nem sequer de anos individuais – mas de lustros, de décadas, de toda uma vida, se tiveres esse azar. Os espaços entre os números com que contas a tua vida serão maiores – e, mesmo que pareça contraditório, esses espaços, ainda que maiores, serão mais rapidamente galgados.
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«Não te importes. Azar, sim. Qual é o problema? Azar ou sorte. O que é que tu controlas? Bem, as teias, dizia eu. Vais ver, ou não vais – como digo, isto pode ir para um lado ou para o outro, azar ou sorte, enfim –, vais ver, nas teias projectadas no tecto pardo, o que fizeste e o que viste fazer. E vais ver que foste injustiçado e que praticaste injustiças. E que não quiseste ver o que era patente. Que não quiseste saber. Que não agiste quando e perante o que te parecia certo.
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«Exacto. E muito mais. Que devias ter regado com mais frequência aquele vaso rectangular em que meteste um alecrineiro e um pé de segurelha. A segurelha já está praticamente moribunda – como este ano. Mas o alecrim aguenta-se. Eu não sou supersticioso, mas o alecrim... é preciso cuidar dele. Não queiras ser responsável por faltar água e sol e terra a um alecrineiro.
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«Bem, concordo, é um exemplo estranho. E sim, o alecrim é resistente; mas também é sagrado – como nós, resistentes e sagrados.
«Mas há tanta coisa... E vais ver ainda como foste traído, como foste perseguido, insultado, maltratado, enfim... Podes usar as piores palavras; o pior que te pode acontecer, ao fazeres isso, é exagerares um pouco – mas nunca muito, garanto-te.
«Vais ver, no fim de contas, que te faltaram à palavra. E que também tu faltaste à palavra.
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«Sim, também tu, também eu. Não é preciso dar a palavra para faltar à palavra. Os nossos maiores compromissos não carecem de voz ou de coisas rabiscadas no papel. É inevitável. Convém ter consciência disso. Convém ter consciência para não deixar o tempo correr.
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«Deixar o tempo correr é tornar menos vigilante a memória. Por isso, há que reparar e recordar. Há que recordar o que se puder – o mal e o menos mal. Há que cuidar.
[...]
«Sim, cuidar do que passa. O que passa é tudo o que nos resta.
«Bem, se não nos virmos antes, continuação de uma Boa Festa. Vemo-nos no próximo ano. Até logo.»

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