segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Crónica 22

esta é a forja
sabes que serás tudo – o que te disserem – um entre vários – todos iguais – todos dissemelhantes – todos mais – ou menos – importantes – deves confiar na identidade – na identidade que em ti é gravada – todas as manhãs olha bem a tua testa – aí verás – aceita todos os gestos – todos os trejeitos – são teus – sim – depois de saíres da forja – e enquanto continuares a voltar ao umbral da oficina – onde entrarás para seres temperado pelo fogo – cobre batido contra a bigorna – premido entre as paredes – emparedado entre as superfícies
este é o ninho
voa – ou trepa – e entra de patas descalças e limpas – deita-te após substituires alguns ramos podres – nunca te levantes sozinho para olhar as estrelas – desperta silencioso – cabisbaixo – lesto – sobretudo acorda igual – ao que sempre foste – ao que sempre fizeram – lembra-te que não precisas de acordar como insecto couraçado para te fazerem cair – ou como larva para seres sugado – basta errares o teu lugar no ninho – ou debicares palavras – ou cresceres penas de uma outra cor
este é o cofre
confia nas aritméticas que compõem o sistema – o cifrão é emotivo e depois orçamental – ou vice-versa – mais é menos – e menos é mais – nada dá resto zero – tudo é debitado e creditado na tua folha – segredos e murmúrios – obrigações e cilícios – quartos e gavetas e celas – risos e esgares – lágrimas e sal na mesa – frustrações e facas serrilhadas – os números misturam-se com os caracteres em moldes de cunha – e sempre chega o tempo da cobrança – no cofre – nesse cofre fechado por dentro – faz por ter as contas em dia – são caras as sete chaves – por isso ouve – ouve muito – diz pouco – ou nada digas – quando saíres – ou quando fores saindo
esta é a fortaleza
levanta-te e desenha um mapa – a tracejado assinala todo o território inimigo – a fortaleza como ilha cercada por bárbaros – se não quiseres ser tu o bárbaro ou o judas submerso nas catacumbas – insidioso de barba acobreada – contribui com pedras para a muralha – se não tiveres pedras o teu esqueleto servirá bem como sucedâneo – os ossos afinal acabam por fossilizar e petrificar – presta tributo – presta sempre tributo – traz alimentos e vinho e água limpa – certifica-te – como competente fiel de armazém – que o aprovisionamento é basto e rápido – ou doa a tua própria carne – na fortaleza cercada tudo acaba por ser aproveitado
esta é a casa
cada grito de cria é mais uma fogueira a aquecer a casa – cada mecha de cabelos grisalhos é mais um espaço ocupado no lastro do poder
este é o lar

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