domingo, 2 de dezembro de 2012

Crónica 19

Explicação do ruído: é necessário preencher os vazios entre os silêncios. Explicação do silêncio: o veneno mortífero que não mente – e não permite mentir. Explicação da mentira: um pântano é simultaneamente alfobre de morte e fonte de vida. Explicação da vida: quem procura terra firme deve começar por drenar o seu próprio paul. Explicação da morte: adia a procura do segredo para o fim. Explicação do fim: a utilidade de deus; o inferno da única solidão. Explicação de deus: tem de haver um receptáculo para a raiva e para a culpa. Explicação da solidão: dá tudo – guarda tudo. Explicação da culpa: a cruz é a maior dádiva de deus à humanidade. Explicação da cruz, porém: o corpo de costas voltadas para a encruzilhada. De novo, explicação da cruz: quatro caminhos sem saída – e o corpo ao centro. Explicação do corpo: transgride, mas retorna célere. Explicação da transgressão: a margem emoldura a ribeira; e a puta faz a moral. Explicação da puta: é imperativo pugnar pela manutenção da família tradicional. Explicação da família: o problema – a solução do problema. Explicação do problema: antes das chamas, está atento ao fumo. Explicação da chama: desafio a quietude do meu sopro. Explicação da quietude: quando as mãos ficam, a mente deve transgredir – e nunca retornar à posição inicial. Explicação das mãos: uma caneta; uma enxada; um punhal. Explicação dos artefactos: o corpo e a mente estão munidos de dois polegares oponíveis  – e devem voltar à posição inicial. Explicação do início: há que cair e voltar a levantar-se. Explicação da criação: há que tombar e erguer-se de novo. Explicação da queda: quanto mais pequenas e constantes, maior o seu valor. Explicação da constância: subverte em silêncio e em solidão. Explicação da subversão: preservação; compromisso; lentidão; quietude. Explicação da subversão: o espírito frenético e plácido no corpo possante e decadente. Explicação da contradição: alfobre de morte – fonte de vida. Explicação da contradição: os maiores paladinos da razão mantêm, apesar de tudo, a lucidez. Explicação da lucidez: atenta na implicitude – abomina a explicitude. Explicação da lucidez: há que reconhecer as sombras a nossos pés. Explicação da sombra: a realidade é sempre holográfica. Explicação da realidade: convenções e convencimentos [não necessariamente por esta ordem]. Explicação da convenção: desafio a fúria do meu sopro em combustão. Explicação da combustão: inflama – constrói; calcina – edifica; diz – cala. Explicação do silêncio: conhece por dentro a tua fortaleza. Explicação do ruído: conhece por fora a tua fortaleza. Explicação da fortaleza: mede todas as palavras. Explicação da palavra:

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