terça-feira, 20 de novembro de 2012

Crónica 17

Nada o preparava para isto: a velhinha pedindo-lhe perdão. O rosto do adolescente espantado pelas palavras: «Perdoa-me!». Lembrou-se da derrota de quem proferiu, com a língua entaramelada pelo terceiro – ou quarto – AVC, aquela súplica, e da sua vitória – a vitória de todos os que, durante uma vida, rodearam a idosa.
Não há, porém, vitória ou derrota.
Foi uma mulher de armas – assim pareceria. Um colosso, uma fortaleza – assim o pensaria quem a conhecesse fora do restrito meio familiar. Mas os filhos e netos sentiam e sabiam a rudeza de carácter, a prepotência – a tirania que os subjugou.
Ela diferenciava os filhos, não escondendo as suas preferências. O marido, morto há 30 anos, duas décadas mais velho que ela, preferia os filhos que se lhe assemelhavam. A vingança veio célere após a morte do homem: os restantes filhos, os morenos, de olhos e cabelos escuros, foram os predilectos dela; os louros, com a excepção da filha mais novinha, foram até o fim os martirizados.
E nunca se deu por isso, portas afora. A igualdade não mora no seio familiar. A justiça também não.
Deixou a pele das suas filhas mais velhas eivadas de hematomas – beliscões e vergastadas de varas de salgueiro. As varas de salgueiro eram colhidas, a mando do carrasco, pelo futuro supliciado; este, em amiudadas vezes, não sofria a pena logo após o momento da transgressão: «Mais logo à noite vais levar uma malha!»
Conhecia toda a gente: no Funchal, onde veio se fixar com os filhos em finais da década de 60; na freguesia de onde veio, o Porto da Cruz; em toda a ilha.
A venerabilidade adveio-lhe antes da idade costumeira, sobretudo pela ilusão de que havia criado sozinha os oito filhos, defunto que foi o marido.
Os filhos são fardo; mas a breve tempo são capital e força de trabalho.
Ficou a filha mais velha incumbida, desde que começou a soletrar as primeiras letras na escola primária da freguesia, a cozinhar o almoço do pai, tratar dos mais novos, carregar sacas de semilha pelos caminhos do Porto da Cruz e do Faial – cansada, encostava-se ao barranco para recuperar forças, com o volume sobre a cabeça; as forças permitiam-lhe carregar o peso – mas não içá-lo. Estes labores eram cumpridos com os primeiros raios de sol e só cessavam com a abertura da porta da escola – que se avistava de casa. À noite, sentia a menina as dedaladas da mãe na cabeça – sobrevinha-lhe o sono mas era coagida a ler uma história para acompanhar a progenitora no bordado.
Um perdão é apenas um perdão.
Hoje o esquecimento, no cemitério e nos corações, é a inutilidade do perdão que foi reclamado.

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